Embora esse “Doutor satírico” habite em mim de uma forma que chega a ser quase opressiva, a minha formação cristã faz com que eu acredite no sobrenatural, na existência de anjos e seres espirituais. Acho até que foi motivado por essa crença que registrei o sonho que passo a relatar, o que não deve ser empecilho para que os céticos possam ler esse capítulo de minhas memórias. Quero deixar claro também que, ao relatar esse sonho, o meu objetivo não é ofender os fiéis. Não quero que minha reminiscência onírica seja escândalo para os judeus e muito menos loucura para os gregos. Dito isto, passemos ao relato do sonho.
Em meu sonho, eu estava estudando em meu escritório quando de repente fui surpreendido pela visão de um anjo. Aquela aparição repentina me deixou extasiado. O ser angelical era de um vermelho pálido, quase desbotado, tinha em suas mãos uma ampulheta e uma espada cujo formato do cabo lembrava uma serpente. Tinha quatro asas, com duas escondia as vergonhas e com duas voava. O anjo veio em minha direção e falou:
- Filho do homem, vem e eu te revelarei os insondáveis mistérios de Suinópolis, mostrar-te-ei enigmas que a nenhum homem foi dado a conhecer.
Fiquei por um momento paralisado. Quando despertei daquele êxtase sublime, falei em um tom reverente:
- Senhor, o que devo fazer para conhecer esses mistérios?
Apenas segue-me, ó filho do homem.
Em uma fração de segundo o anjo me levou a um palácio grandioso e me apresentou a visão de um trono. O trono estava manchado de sangue e sobre ele estava assentado um porco em cuja cabeça resplandecia uma coroa com seis estrelas. Quando o rei suíno ergueu o seu cetro quatro seres viventes – um chacal, um abutre, uma raposa e uma serpente - que estavam diante do trono, prostraram-se em reverência a ele. Quando os animais se curvaram, o porco falou em um tom imperioso:
- O que tendes a oferecer ao vosso rei, além de vossa reverência?
O chacal se adiantou e gritou para que trouxessem o seu presente. Era um cordeiro, estava em uma jaula e as manchas vermelhas em sua lã branca demonstravam que ele estava ferido. Estava vivo, mas o seu olhar estava abatido e sua respiração difícil. Ao ver aquele cordeiro ferido e enjaulado, o rei porco não conteve a sua alegria e exclamou:
- Muito bem servo bom e fiel, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei, entra no gozo do teu Senhor.
Na seqüência, o abutre ordenou a entrada do seu presente. Era uma pomba. Tinha as asas cortadas e, presa à sua pata direita, uma corrente com uma gigantesca bola de ferro na ponta. Depois de receber o presente do abutre, o rei-porco repetiu a mesma saudação que dirigira ao chacal, na seqüência, olhou para pomba e deu uma estrondosa gargalhada. O seu sarcasmo era grosseiramente assustador. Quando fez silencio, a raposa falou:
- Espere para ver a minha oferta ó grande rei.
Era um leão. Além de está enjaulado, o animal tinha duas patas quebradas e os olhos arrancados. Longe de despertar pavor, o seu rugido era uma expressão da tragédia que o acometera. Contente com o presente que recebera, o porco falou à raposa:
- Como recompensa à tua fidelidade ó raposa, governarás seis províncias no reino de Suinópolis.
Por fim, a serpente pediu para que entrasse o seu presente. Era um peixe preso em um aquário. As suas escamas reluziam como pedras preciosas. Logo que o peixe chegou, a serpente correu ao seu encontro e mordeu a sua cabeça. Quando a peçonha da serpente começou a surtir efeito, as escamas do peixe foram caindo uma a uma. O porco não escondia o seu contentamento ao ver o peixe perder pouco a pouco o seu esplendor. Quando caiu a última escama, o porco declarou aos animais que lhe haviam trazido os presentes:
- Bem-aventurados sois vós. Como prêmio por vossa fidelidade, vocês estarão comigo no meu trono e comigo regerão as nações com vara de ferro. Todos os habitantes de Suinópolis hão de reverenciar-vos.
Não conseguia compreender o sentido daquelas estranhas aparições. Por isso, resolvi perguntar ao anjo que me guiava:
- Qual o sentido dessas manifestações meu senhor?
- A prisão desses animais – o cordeiro, a pomba, o leão e a serpente – representam a derrota final dos adversários de Suinópolis. Durante anos eles foram uma ameaça para o nosso reino. Agora que foram dominados, o nosso rei Ludíbrius Pestilencius reinará pelos séculos dos séculos.
- Qual será o destino desses animais?
- Eles serão acorrentados e depois lançados nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.
Estávamos ainda a falar quando o rei Ludibrius ordenou que os animais capturados fossem lançados fora dos muros de Suinópolis. O anjo que me conduzia, voltou-se para mim e disse:
- Vem e eu te mostrarei revelações ainda mais sublimes, mistérios ainda mais insondáveis.
O anjo me levou a uma gigantesca catedral. O templo central de Suinópolis era um prédio de quatro andares. Estranhamente, cada um dos andares havia sido construído com uma substância diferente. O primeiro era de ouro, o segundo de pedra, o terceiro de areia e o quarto de fumaça. Antes que eu fizesse qualquer pergunta, o anjo disse que me mostraria o lado interno de cada um dos andares da catedral. Começamos pelo andar superior. Todo ele era feito de ouro. Para o meu espanto, até mesmo as pessoas que estavam ali tinham uma aparência dourada. Quando adentramos era o momento da eucaristia. Uma mulher com vestes de prostitutas e exalando um perfume barato distribuía os elementos aos fiéis. Fiquei tão impressionado com a expressão vulgar daquela mulher que nem percebi que era o rei Ludibrius que conduzia o culto eucarístico. Curiosamente, ele não usava mais a coroa, o cetro e as vestes reais. Em vez disso, trajava vestes sacerdotais. Na altura de sua cintura havia uma faixa branca onde estava escrito “Jesus Cristo é o Senhor”. Depois que a mulher distribuiu os elementos, o porco-sacerdote exclamou em tom solene:
- Amados irmãos, bebamos em memória do nosso salvador o sangue dos nossos inimigos.
No momento em que os fiéis começaram a beber os cálices de sangue, o anjo me conduziu ao andar seguinte do prédio. Era um espaço todo construído em pedra. Quando observei as pessoas que se encontravam ali, imaginei ter entrado no cenário de um filme de ficção. Os seus corpos aparentavam estar passando por um processo de petrificação. Alguns ainda estavam em um estado inicial, outros já haviam completado aquela metamorfose estranha. Dentre aqueles que já estavam totalmente petrificados, estava o pregador. Para minha surpresa, era novamente o porco. Ali ele não era mais o rei Ludibrius, mesmo assim era reverenciado por todos com o título de “apóstolo Pedra”. O anjo pediu para que eu atentasse para sua mensagem. Curiosamente, sua pregação resumia-se a uma única expressão: “louvado seja o Senhor!” E os fiéis em coro respondiam “amém!” Percebi que os fiéis iam completando o seu processo de petrificação à medida que iam repetindo o “amém”.
Ficamos naquele recinto até que todos os féis se transformaram em pedra, então, seguimos para o andar seguinte. Aquela parte do prédio era feita com uma substância flexível semelhante a areia. Curiosamente, os homens que estavam ali tinham essa mesma aparência. No púlpito, o porco estava novamente a discursar. Trajava agora vestes elegantes, semelhante a um senador ou um deputado. Nesse instante o anjo que me conduzia ordenou:
- Atente para a mensagem do doutor Aristo Liberatus, a maior autoridade em teologia de Suinópolis.
Voltei o olhar para o porco, quero dizer, para o doutor Aristo e passei a ouvir sua mensagem. O poder de sua oratória deixava qualquer um maravilhado. Sua voz era grave e melodiosa ao mesmo tempo.
- Amados irmãos de Suinópolis, gostaria de ilustrar um dos princípios que regem o nosso reino fazendo alusão a uma conhecida fábula de Esopo. Conta o fabulista grego que “certo dia, discutiam entre si um caniço e uma oliveira a respeito de sua resistência, vigor e firmeza. A oliveira reprovava ao caniço sua fraqueza e sua impotência, que o faziam ceder facilmente a todos os ventos, e este se mantinha calado, sem responder. Logo após, quando o vento começou a soprar forte, o caniço, sacudido e vergado, sobreviveu facilmente à tempestade, mas a oliveira, que quis resistir aos ventos, foi arrancada pela sua violência”.
Esta fábula, amados irmãos nos mostra o valor da flexibilidade, da capacidade de adaptação às situações difíceis. Em nosso reino esse é um dos princípios mais elevados e deve ser observado por todos. Na verdade, foi exatamente esse o ensinamento que o nosso Senhor nos deixou. Em Sua Palavra Ele afirma que os seus discípulos devem ser prudentes como as serpentes. Em outra passagem o santo apóstolo Paulo também nos exorta acerca da importância da flexibilidade. “Fiz-me fraco para com os fracos a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns”.
O princípio da flexibilidade, amados irmãos, implica não apenas que temos que ter a capacidade de nos adaptar às novas condições, aos novos tempos. Ele significa também que devemos estar sempre abertos às inovações e, principalmente, como cristãos, devemos estar sempre preparados para ceder. Isso é válido, inclusive, em matéria de doutrina. Não precisamos mais adotar posturas inflexíveis e radicais, já que isso em nada coopera para o progresso do evangelho. A flexibilidade nos ajudará a encontrar sempre um meio termo em todas as questões. Ilustremos essa verdade com o exemplo da criação. Nós cristãos afirmamos que Deus criou todas as coisas do nada, já os evolucionistas atribuem ao Big-Bang a origem do universo. Diante desse pequeno impasse, não precisamos nos aferrar em posições radicais. Consideremos, portanto, que houve de fato a evolução, desde que Deus tenha controlado o processo. O conceito de Deus também ilustra essa verdade. Não importa o fato dele ser chamado Zeus, Júpiter, Odin, Baal, Iemanjá, Braman ou Amaterazu. O que importa é a crença em um ser supremo. Em Suinópolis não devemos nos prender a pormenores lingüísticos.
O princípio da flexibilidade possui, por fim, uma aplicação moral. Isso significa que, guiados por ele, cada um de nós deve se tornar mais tolerante, o que está de acordo com o mandamento do amor que nos foi ensinado pelo nosso Senhor. Quero dizer com isso irmãos que alguns comportamentos inofensivos de nossos irmãos como sexo antes do casamento, casamentos mistos, mentirinhas brancas e certos tipos de vícios, não devem ser causa de escândalo em Suinópolis. Afinal de contas, não é a Palavra de Deus que nos ordena que cada um deve tolerar as fraquezas de seu irmão? Quando o doutor Aristo finalizou a sua prédica eloquente, todos os presentes o aplaudiram de pé. Alguns chegaram ao ponto de arremessar flores na direção do púlpito. As flores eram vermelhas, mas logo que tocavam o púlpito, assumiam uma coloração negra semelhante à noite. Neste momento, o anjo me falou:
- Filho do homem, vem comigo eu te mostrarei o último andar da catedral. Ser-te-á revelado o mistério mais profundo de Suinópolis.
Antes que eu concordasse já estávamos no interior do último andar da catedral. Ele era construído com uma substância volátil semelhante à fumaça. Para o meu assombro, as pessoas que se encontravam ali eram feitas a partir dessa mesma substância. Era um salão espaçoso em cujo centro se destacava uma mesa. No centro da mesa estava novamente o porco. Agora, sua longa barba branca dava-lhe a aparência de um ancião.
- Filho do homem, atenta para a grande comissão que será dada pelo rabino Messinus aos seus doze apóstolos.
Nesse instante, o rabino-porco se dirigiu aos seus apóstolos:
- Recebereis poder ao descer sobre vós o meu espírito e sereis enviados a confundir as nações.
- Como saberemos rabi que recebemos tal poder? Perguntou um dos apóstolos que se encontrava ao seu lado.
- Olhe para o seu corpo Pseudônio e diga-me qual a sua aparência?
- Humana, mestre.
- Muito bem! E agora, que aparência ele possui?
O homem de fumaça havia assumido a forma de um rato, que rastejava diante dos demais. Quando os outros apóstolos perceberam a transformação, ficaram perplexos e rogavam ao rabino Messinus:
- Mestre, dá-nos também esse maravilhoso poder.
- A fim de executarem a grande comissão, todos vocês serão revestidos com esse poder.
Logo que o rabino silenciou, os homens-fumaça começaram a assumir várias formas de animais. Alguns se transformaram em serpentes, outros em águias e outros em cordeiros. Os apóstolos reassumiram a sua forma humana e desapareceram da sala em uma fração de segundo. Tínhamos terminado a visita ao prédio, mas continuava sem entender o sentido daquelas estranhas visões. Resolvi, então, indagar ao anjo que havia me conduzido àquelas manifestações.
- Senhor, qual o sentido da catedral que acabamos de visitar? O que representam os quatro elementos que a constituem?
- Revelar-te-ei agora, filho do homem, o significado dos quatro elementos.
- Tenha bondade, senhor.
- Cada uma das substâncias que constituem a catedral representa uma virtude que rege Suinópolis. O andar de ouro representa a virtude da felicidade, princípio que deve ser o alvo supremo de todos os habitantes do nosso reino. O andar de pedra representa as virtudes da durabilidade e da firmeza. Em um sentido mais profundo, ele aponta para a eternidade de Suinópolis. O andar de areia, por sua vez, aponta para o princípio da flexibilidade, virtude que está diretamente relacionado à sobrevivência dos suinopolitanos. O andar de fumaça representa a esperteza, princípio que deve ser observado por todos os cristãos em Suinópolis. Quando o anjo me revelou o misterioso sentido da catedral, fiquei curioso em relação à sua identidade e perguntei:
- Qual o seu nome meu senhor?
O ser angelical ficou por um momento em silêncio. De repente, o seu corpo passou a assumir a forma de uma fumaça. Era uma fumaça escura e que exalava um forte cheiro de vômito. Logo percebi que aquele homem-fumaça me parecia familiar. Era um dos apóstolos do rabino Messinus. Surpreso com a descoberta, nem percebi quando ele se transformou em uma serpente. Quando me dei conta, ela já havia me picado. O seu veneno não demorou surtir efeito e em menos de dois minutos cai desacordado.
Quando o efeito do veneno passou, despertei. Estranhamente, encontrava-me em um lugar completamente diferente. Era um deserto, mas a catedral de Suinópolis ainda permanecia ali. Com seus quatro andares – ouro, pedra, areia e fumaça – ela aparentava ainda mais imponência. De repente, a catedral se transformou em uma criatura monstruosa. Era tão horripilante que o próprio Golias tremeria de medo dela. Curiosamente, ela conservava certa semelhança com a catedral. Também nela estavam presentes as quatro substâncias. Sua cabeça era de ouro, seu peito de pedra, sua cintura de areia e suas pernas de fumaça. Em cada uma das substâncias que compunham a criatura havia uma inscrição. Na cabeça estava escrito luxúria, no peito insensibilidade, na cintura tolerância e nas pernas engano. Quando aquele monstro fabuloso começou a se movimentar fiquei tomado de pavor. Ele estava enfurecido. Quando percebi que ela não estava caminhando em minha direção, senti-me profundamente aliviado. Foi então que avistei os quatro animais do início – o cordeiro, a pomba, o peixe e o leão. Agora eles não estavam mais presos e nem pareciam abatidos. Aparentavam uma postura exaltada como se estivessem preparados para a batalha.
A batalha de fato foi travada. O cordeiro se adiantou e marchou em direção ao monstro. Quando se encontrou diante dele, olhou para sol como se estivesse ordenando que ele baixasse. No mesmo instante o sol foi arremessado contra a cabeça do monstro que não resistiu o seu calor e derreteu. Imediatamente, a pomba voou na direção da criatura horrenda. Durante o seu vôo, seu bico se transformou em uma gigantesca picareta que destruiu o peito de pedra do monstro em questão de segundos. Mesmo sem cabeça e com o seu peito de pedra esmiuçado, o monstro não parecia se abater. Então o peixe resolveu entrar no combate. Parou diante da criatura e quando, abriu a sua boca, um rio verteu de seu interior. Como se obedece ao peixe, o rio atingiu a cintura arenosa do monstro, que se desfez com rapidez. Quando restava apenas as pernas da criatura, o leão entrou em cena. Em um gesto rápido, ele começou a soprar. O sopro de sua boca era semelhante a um furacão. Aquela poderosa rajada de vento dispersou em pouco tempo as pernas de fumaça.
Quando o monstro desapareceu, surgiu o porco acompanhado pelos quatro animais – o chacal, o abutre, a raposa e a serpente. Também lhe seguia um numeroso exército. Do lado do cordeiro, da pomba, do leão e do também surgiu um exército. No exato momento em que as tropas iam se confrontar despertei do meu sonho, assustado com aquelas visões estranhas.
Postado por J. Marques