quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

LIÇÕES SOBRE O AMOR EM CANTARES: A IDENTIFICAÇÃO

O texto de Cantares 8:6,7, comumente citado em convites de casamento e em cerimônias nupciais, é aquele que melhor define a natureza do amor conjugal em toda a Escritura. Apenas nesse texto são encontrados três os elementos indispensáveis à compreensão do sentido do Eros, termo empregado por C. S. Lewis para identificar o amor conjugal.

O amor conjugal é, antes de tudo, um laço que implica em identificação entre os amantes. Salomão recorre à metáfora do selo para falar da identificação que o amor produz nos cônjuges. Também conhecido como sinete, o selo é empregado desde tempos remotos para indicar a autenticidade de um documento ou mensagem, comprovando assim a identificação entre ela e seu emissor. O selo era uma espécie de confirmação pública de que ele era responsável pelo conteúdo emitido. O exemplo bastante claro dessa prática no Antigo Testamento pode ser encontrado no episódio da morte de Nabote. Nesta ocasião, a rainha Jezabel envia cartas aos anciãos e nobres de Israel, selando-as com o sinete de Acabe (II Re. 21:8). Na Antiguidade, era comum os reis e nobres usarem como selo os seus próprios anéis. Quando os servos eram enviados, por exemplo, a transmitir uma mensagem de seus senhores, eles costumavam levar os anéis para confirmar a identidade entre este comunicado e o seu suposto emissor. Com a presença do anel ninguém ousaria questionar a autenticidade daquela mensagem.

O autor do Cântico recorre à figura do selo exatamente para falar da identificação que existe no amor conjugal. Essa identificação é tão profunda que o sábio extravasa na aplicação da metáfora. O selo não é colocado apenas sobre o braço, mas sobre o coração. O braço, provavelmente um sinônimo poético para mão, representa o componente físico, já o coração, enquanto núcleo da afetividade humana, aplica-se ao elemento espiritual. Isso comprova que há no amor conjugal uma dupla identificação: interna e externa. Para utilizar outros termos, uma identificação espiritual e física ao mesmo tempo. O amor conjugal vai do simples apetite físico ou sexual ao mais elevado prazer espiritual. Sem a identificação física o Eros se transforma em sadismo e sem a identificação espiritual ele se converte em auto-erotismo. Amar é, portanto, identificar-se com a pessoa amada, é desejar que os outros nos vejam através dela. De uma forma misteriosa, o amante utiliza a amada como uma espécie de selo em seu próprio corpo, e o mesmo faz a amada em relação ao amante.

Algumas pessoas costumam empregar um princípio da física segundo o qual os opostos se atraem para falar do amor conjugal. Na verdade, o grande mérito do amor não está em atrair os amantes, mas em manter unidos aqueles que por ele são atraídos, e isso só é possível por meio da identificação. A simples oposição pode ser empregada como força atrativa, mas também pode ser empregada como instrumento de separação. Sem a identificação, portanto, o atrito vira conflito e a oposição vira separação. Isso serve como uma espécie de conselho para aqueles que pretendem partilhar o amor conjugal. É preciso que eles busquem pessoas com as quais possam estabelecer um vínculo de identidade. Se há algum casal que já está partilhando do amor conjugal e não consegue encontrar identificação entre ele e a pessoa amada, ele precisa descobrir o mais rápido possível algo que lhe identifique com a pessoa amada, caso contrário o seu relacionamento estará ameaçado.

O princípio da identificação tem implicações bastante sérias para o relacionamento entre os casais. Em primeiro lugar, ele ensina que aquele que ama desejará sempre associar-se publicamente à pessoa amada. Há uma prática muito comum entre casais de namorados que consiste em imprimir em blusas a foto da pessoa amada. Esta foto é quase sempre acompanhada por frases poéticas e declarações amorosas. O namorado sente-se feliz e até um pouco orgulhoso em poder trajar esta roupa. É como se ele quisesse declarar a todos que está ligado a essa pessoa, que se identifica com ela. A foto da pessoa amada é usada como uma espécie de selo. Infelizmente, esta prática não é vista com a mesma freqüência entre pessoas casadas. Entre casais que já ultrapassaram os dez anos de casamento, a foto da pessoa amada é geralmente substituída pela foto dos filhos. Essa é uma das primeiras evidências que o vínculo de identificação que marca o amor conjugal está se perdendo. No último estágio dessa tendência danosa, o cônjuge sentirá vergonha de associar-se ao seu companheiro, evitará, por exemplo, passear com ela em ambientes públicos ou apresentá-la aos amigos de trabalho. Casais que chegaram a este estágio certamente desconhecem que o amor conjugal é marcado pela identidade entre os amantes. Não sabem que aqueles que são envolvidos por esse sentimento sublime desejarão ardorosamente publicar para todos a sua ligação com a pessoa amada. Desculpem-me a franqueza e o rigor das palavras, mas há muitos esposos que tratam as suas esposas como prostitutas. Não no sentido de que pagam para possuir seus corpos, mas no sentido de que se envergonham dela e querem mantê-las escondidas, ficam embaraçados sempre que precisam comparecer em público com elas. Que fique bastante claro: em um relacionamento dessa natureza os cônjuges desconhecem a essência do amor conjugal, desconhecem o poder desse laço de identificação que une os amantes.

Em segundo lugar, o princípio da identificação implica em valorização. Aquele que ama vê a pessoa amada como algo precioso. Essa consciência muda drasticamente o tratamento dos casais entre si. Para recorrer a uma analogia, que mulher, possuindo um colar de pérolas, desejará que ele fique sempre guardado? Na verdade, ela desejará mostrar a todos a sua joia valiosa, por isso, costuma usá-la em ocasiões importantes. Durante a festa, sempre que as pessoas olham para ela e ficam extasiadas com a beleza do seu colar, ela se sente orgulhosa por ser dona de tal joia. Além disso, ela cuidará do seu colar com todo o empenho, considerando que ele é algo precioso para ela. Essa comparação ilustra bem a ideia do amor conjugal. Quem ama vê a pessoa amada com uma joia preciosa. Por esta razão, cuidará dela com todo empenho e dedicação e ficará feliz sempre que as pessoas puderem perceber que eles se pertencem, que estão indissoluvelmente unidos pelo amor, sentir-se-á importante porque pertence a amada e amada lhe pertence.

Por fim, deve ser acrescentado que é o princípio da identificação que garante a unidade do relacionamento conjugal. Somente por meio dele a metáfora “tornar-se uma só carne”, utilizada para representar o casamento, ganha vida. Sem ele pode ser que haja um ajuntamento entre duas pessoas, nunca a sublime e misteriosa unificação conjugal. Eis a razão porque muitos casais estão vivendo sérias crises conjugais: não é que eles sejam incapazes de amar, a razão é que eles desconhecem as implicações do princípio de identificação que caracteriza o amor.



Postado por J.Marques

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Mundo, a Rede que nos Prende

Os mosteiros surgiram para dar uma opção aos que queriam consagrar-se a Deus e afastar-se do mundo. A disciplina do monasticismo era a mais severa da idade média. Os monges lutavam contra a natureza, degradando o homem até torná-lo numa máquina, abandonando o conflito no mundo. Os monges eram conhecidos como amantes de Deus, servos de Deus, renunciadores, atletas de Cristo, indicando os extremos de renúncia e rigor na disciplina da autoconsagração.

O filme “o nome da rosa” conta um pouco da rotina dos mosteiros da idade média. Mas destaca uma falha crucial do sistema monástico: a disciplina rigorosa não estava mudando os monges. No meio do claustro e afastado das mulheres, que era o grande causador do mal na idade média, ou de qualquer outro contato com o mundo físico, ainda assim os monges estavam se envolvendo com pecados escandalosos, típicos do mundo do qual eles procuram distância.

Essa dura realidade, acontecida há 500 anos atrás não é diferente do que ocorre hoje. Tentar fugir do mundo não nos garante que o seu espírito tenha sido tirado de nós. A solução pra uma vida de sucesso com Deus não depende do quanto ausente estejamos dos lugares (estádios, shopping, praia, praça) ou me abstenha das coisas materiais do mundo (televisão, computador, internet, carro), mas o quanto eu ame o Senhor.

Fugir do mundo físico não significa viver para Deus. Jesus disse que não tiraria seus discípulos do mundo, mas que os guardaria do mal – João 17. Enquanto vivermos nesse mundo estaremos em guerra contra três arquiinimigos: o mundo, a carne e o diabo.

Se é verdade a frase: “para derrotar o inimigo é importante conhece-lo” então faremos grandes avanços se estudarmos esses inimigos, na tentativa de conhece-los para derrota-los.

O mundo é uma rede que nos prende.

João é quem mais usa a palavra. Das 185 ocorrências ele usa 105, sendo 78 no evangelho, 24 nas cartas e 3 no apocalipse. Vamos perceber o significado do mundo em João e Paulo:

O mundo no sentido literal.

O universo – a totalidade de tudo que existe – João 17:5; Rm. 1:20; Ef 1:4; 1 Cor. 3:22; 8:4, 5. Foi considerada como “muito bom” em gênesis. A terra onde vivemos, o cenário da história – onde os homens nascem e morrem – João 16:21; 1 João 3:17; 1 Tm 6:7.

O mundo no sentido figurado.
 A totalidade da sociedade humana – João 1:29; 3:16; 2 cor. 1:12. “Todos os homens” são chamados de mundo. Sistema de valores alienado de Deus, que orienta o pensamento dos homens em oposição a Ele. Esse é o sentido que a bíblia mostra como inimigo do cristão. Possui certas características:

O mundo possui um curso/modo de pensar – Ef 2:2 “Peripateo” “andar” – os filósofos que andavam enquanto pensavam. O mundo também tem sua própria forma de pensar, seu curso. Esse curso/trajetória do mundo foi iniciada com Adão (Romanos 5:12), mas todos são responsáveis diante de Deus (Romanos 3:19). Por isso o mundo/criação anseia pela libertação do pecado – Romanos 8:20-22.

O mundo possui uma sabedoria – 1 Coríntios 1:20ss. Paulo estava pregando o evangelho da maneira de Deus para filósofos e judeus, os quais queriam que o evangelho fosse anunciado do modo do mundo: sinais e sabedoria (filosofia). Paulo insiste que não vai comprometer a pregação para agradar os sábios segundo o mundo, mas vai anunciar segundo a sabedoria de Deus. Em 1 Coríntios 3:18-20 a sabedoria do mundo é fútil, vazia, vaidade.

O mundo possui um espírito/conselho – 1 Coríntios 2:12. Os princípios do mundo, que incluem as especulações humanas, as tradições e até mesmo a religião, são contrárias a Deus.

O mundo possui sua própria religião – Gálatas 4:3; Colossenses 2: 8, 20. “Os rudimentos do mundo” – Paulo está corrigindo um ensinamento falso; a expressão se refere as primeiras coisas aprendidas, ao ABC da fé, mas que deveriam ser abandonadas quando a lição fosse totalmente repassada. Aqueles cristãos não queriam abandonar a circunsição e outros ensinamentos que não eram mais necessários à fé cristã, isso escravizava os cristãos a práticas mundanas. A religião do mundo mantém os homens em uma escravidão ao asceticismo e ao legalismo, que podem ter a aparência de sabedoria e promover uma espécie de devoção e autodisciplina, contudo, é perniciosa a fé autêntica.

Lições:

Fuja do curso do mundo – A bíblia exorta o crente a viver buscando as coisas do alto. O cristão não andará segundo os pensamentos do mundo.

Fuja da sabedoria do mundo – Não despreze a sabedoria de Deus mesmo que as vezes possa parecer loucura.

Fuja do conselho/espírito/religião do mundo – As tradições, as especulações, e até a religião do mundo sempre levarão o homem para longe de Deus.


Postado por Pr. Francimar Lima
Casa Nova, BA

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Lutero e a Escravidão da Vontade - Parte III


II. Lutero mostra o que Erasmo ensinava


Pela definição de Erasmo sobre o livre-arbítrio, Lutero mostra a ele que sua definição não é clara e que Erasmo precisava explicar tal definição para que a mesma se tornasse clara, pois Erasmo definiu o “livre-arbítrio” da seguinte forma: “Compreendo o Livre-arbítrio como o poder da vontade humana mediante o qual uma pessoa pode aplicar ou afastar-se das coisas que conduzem à eterna salvação” Com base nesta definição, Lutero mostra que o que Erasmo esta fazendo é o mesmo que os pelagianos fizeram. Só que Erasmo ultrapassou o conceito que os pelagianos tinham do livre-arbítrio, pois os pelagianos distinguiam em duas partes o “livre-arbítrio” – o poder de compreender a diferença entre as coisas e o poder de escolher entre elas. Com sua definição, Erasmo estava criando um meio livre-arbítrio, pois o seu “livre-arbítrio” teria o poder de escolher coisas eternas, embora seja totalmente incapaz de entende-las.

Mais adiante Lutero explica a má interpretação que Erasmo fez de Mateus 23:37 dizendo; “ agora chegamos aos seus textos “comprobatórios” do Novo Testamento. Você salienta o trecho de Mateus 23.37: “Jerusalém! Jerusalém! ... quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” Você argumenta que, se tudo acontece precisamente conforme Deus deseja, então Jerusalém poderia replicar com justa causa: “Por que desperdiças as tuas lágrimas? Se não tinhas a intenção que déssemos ouvidos aos profetas, então por que os enviaste? Por que nos consideras responsáveis, quando Tu decidiste aquilo que deveríamos fazer ? ” Porém, conforme eu já disse, a nós não compete nos intrometermos na vontade secreta de Deus, pois as coisas secretas de Deus estão inteiramente fora do nosso alcance (1 Tm 6.16). Deveríamos dedicar o nosso tempo considerando o Deus encarnado, o Senhor Jesus Cristo, em quem Deus tornou claro para nós o que deveríamos e o que não deveríamos saber (Cl 2.3). É verdade que o Deus que se tornou carne exclamou: “...quantas vezes quis eu... e vos não o quisestes!” Cristo veio a este mundo a fim de realizar, sofrer e oferecer a todos os homens tudo quanto é necessário a sua salvação. Mas alguns homens, endurecidos por causa da vontade secreta do Senhor, rejeitam-NO (Jo 1.5,11). O mesmo Deus encarnado, entretanto, chora e lamenta-se em face da destruição eterna dos ímpios, ainda que, em sua divina vontade, propositalmente Ele os tenha deixado perecer. Não nos cabe perguntar porquê, mas antes, nos prostrarmos admirados diante de Deus. Neste instante alguns dirão que logo que sou empurrado para um canto, evito enfrentar frontalmente a questão, dizendo que não devemos nos intrometer na vontade secreta de Deus. Entretanto, isso não é invenção minha. Foi dessa maneira que Paulo argumentou em Romanos 9.19,21; e Isaias, antes de Paulo (Is 58.2). E evidente que não devemos procurar sondar a vontade secreta de Deus, sobretudo quando observamos que são justamente os ímpios que são fortemente tentados a fazê-Lo. Nos devemos adverti-los a ficar calados e reverentes. Se alguém quiser levar avante essa forma de inquirição, é bem-vindo a faze-lo; porém, descobrir-se-á lutando contra Deus.

III. Lutero mostra o que ele pensava acerca dos ensinos de Erasmo


Lutero acreditava que Erasmo procurava infundir medo em seus oponentes, reunindo um grande número de textos bíblicos que supostamente davam apoio à idéia do “livre-arbítrio”. Mas os mesmos não passavam de uma manipulação do texto, ou seja, Erasmo torcia os textos para dizerem aquilo que ele acreditava, não aquilo que realmente o texto dizia. Lutero afirmava que Erasmo criara uma nova maneira de perder de vista o significado óbvio de um texto. Na ânsia de defender o “livre-arbítrio”, Lutero diz que Erasmo acabava dizendo toda sorte de coisas contraditórias, especialmente sobre a presciência de Deus. Como por exemplo, na explicação de Romanos 9:15-33, a estava atormentando terrivelmente a mente de Erasmo. Lutero, então, passa a esclarecer-lo dando-lhe um exemplo: “ Deus sabia de antemão que Judas Iscariotes haveria de ser um traidor, por conseguinte, Judas tinha de ser um traidor. Judas não tinha capacidade de agir de outro modo. Obviamente, Judas agiu espontânea e livremente, em harmonia com sua própria natureza. Deus sabia de antemão que Judas estava predisposto a agir e trouxe a ação dele a cena, no momento determinado. Em nada lhe ajuda falar sobre a chamada presciência humana, porquanto ela fica muito aquém da presciência perfeita de Deus. Sabemos, por exemplo, quando um eclipse acontecerá. Mas tal eclipse não acontece porque o previramos. Porém, quando Deus prevê alguma coisa, ela acontece porque Ele assim previra. Se você não aceita isso, mina todas as ameaças e promessas de Deus. Você nega o próprio Deus. Em dado momento, você teve o bom senso de admitir que Paulo ensina que Deus quer aquilo que prevê, e que aquilo obrigatoriamente acontece. Mas então, você estraga tudo, dizendo que acha isso difícil de aceitar. Assim, tenta escapar dessa conclusão, afirmando que Paulo não explicou o ponto, mas somente repreendeu quem estava argumentando com ele (Rm 9.20). Não é essa a forma de manusear os textos sagrados. Um exame do texto mostrará que Paulo explica a questão. De fato, não teria havido razão alguma para a reprimenda, se näo houvesse pessoas argurnentando contra a sua explanação. Paulo cita Êxodo 33.19: ‘Farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer’. Em Seguida, o apóstolo explica que os atos divinos de misericórdia ou de endurecimento não dependem, em coisa alguma, da vontade do homem, mas, exclusivamente, do próprio Deus. Paulo deixou claro que a presciência de Deus determina as ações realizadas pelos homens. Naturalmente, se tentarmos provar tanto a presciência de Deus como o “livre-arbítrio” humano, ao mesmo tempo, teremos problemas — como tentar demonstrar que certo algarismo é, ao mesmo tempo, um nove e um dez! A repreensão de Paulo é para aqueles que se ofendem com a palavra clara que ninguém é possuidor de “Livre-arbítrio”, e de que todas as coisas dependem exclusivamente da vontade de Deus. É este o momento para adorar a majestade do Senhor, em Sua imponência e notáveis julgamentos e dizer: “...faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10)

Lutero dizia ainda que Erasmo se utilizava de um bom número de ilustrações que descreviam a cooperação do homem com as operações divinas. Por exemplo: “o agricultor faz a colheita, mas é Deus que a dá”. É obvio, dizia Lutero, que tenho plena consciência da cooperação do homem com Deus, mas isso nada prova a respeito do ‘livre-arbítrio”. Deus é onipotente. Ele exerce total controle sobre tudo quanto Ele mesmo criou. E isso inclui os ímpios, os quais, a semelhança daqueles a quem Deus justificou e transportou para o seu reino, cooperam com Deus neste mundo. Todos os homens precisam seguir e obedecer aquilo que Deus intenciona que eles façam. O homem em nada contribuiu para a sua própria criação. E, uma vez criado, o homem não faz qualquer contribuição para permanecer dentro da criação de Deus. Tanto a sua criação como a sua continua existência são inteira responsabilidade do soberano poder e bondade de Deus, que nos criou e preserva sem qualquer ajuda nossa.

Antes de ser renovado, para fazer parte da nova criação do reino do Espírito, o homem em nada contribui para preparar-se para essa nova criação e reino. Por semelhante modo, quando ele é recriado, em coisa alguma contribui para ser conservado nesse reino. Somente o Espírito de Deus tanto nos regenera quanto nos preserva, sem qualquer ajuda de nossa parte. E como Tiago diz: “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18). Tiago está falando a respeito da nova criação. Não obstante, Deus não nos regenera sem que tenhamos consciência do que está sucedendo, porque Ele nos recria e preserva precisamente com esse propósito: que venhamos a cooperar com Ele.E o que e atribuído ao “livre-arbítrio” em tudo isso? Que resta para o “livre-arbítrio” ? Nada! Absolutamente nada!


Postado por Elias Lima

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

BREVE REFLEXÃO SOBRE O ANO PASSADO

E a vida eterna é esta: que conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste. Jo. 17:3

Quando for arrancada do calendário na parede a última página, quando o relógio, em sua cadência monótona, completar o seu último giro, quando os fogos ecoarem nos céus e produzirem um espetáculo multicor, quando as mãos se apertarem e os corpos trocarem o seu calor, então, o ano presente será confrontado com o seu final. Nostalgicamente, ele será depositado na imobilidade do passado e juntar-se-á aos outros anos passados, semelhante a um defunto que é recolhido à inércia e frialdade da terra. Ele também habitará na companhia silente dos anos cadavélicos, dois anos que em seu presente brilharam como uma chama tênue.

Quando o último instante for rasgado como um véu, o ano presente estará confinado à memória daqueles que dele quiserem lembrar. Será recordado com desprezo ou ternura, com remorso ou saudade, com decepção ou encanto. A verdade é que ele será uma espécie de fantasma a ocupar as nossas divagações noturnas, nada, além disso. Desejaremos que essa pálida sombra se perpetue nas encruzilhadas íngremes de nossa memória ou que desapareça por completo. Infelizmente, nada do que pudermos desejar mudará aquilo que ele foi para nós. No exato momento em que o ano presente se transforma em ano passado, o homem perde o seu controle sobre ele. De fato, é ele que passa a exercer controle sobre o homem. Quando estava diante de nós poderíamos dominá-lo, agora, distante, ele nos domina.

Pobre ano presente que agora não passa de ano passado. Talvez, a única coisa que o conforte seja a certeza de que o mesmo destino inexorável aguarda o ano futuro. Um dia ele também será depositado no insaciável sepulcro das eras e transformar-se-á em ano passado. Será tragado pelo abismo silencioso do tempo, essa imagem móvel da eternidade, como dizia Platão.

Mas, é possível romper essa realidade assombrosa e impedir que o ano passado seja apenas ano passado. Para aqueles que se dedicaram ao conhecimento, principalmente, o conhecimento das coisas divinas, cada ano passado possui a virtude do infinito. Certamente, para muitos que se ocuparam apenas com trivialidades, o ano passado será apenas ano passado. Não para aqueles que consagraram todo o seu ser à descoberta dos mistérios celestes, para aqueles que tentaram romper o véu do desconhecido. Para estes, o ano passado nem poderá ser considerado como tal. Ele é uma centelha da eternidade que se mostrou na dimensão do tempo. Nessa diminuta fração da existência tal homem foi capaz de perceber a plenitude do eterno, pois soube trilhar o caminho do infinito.

O homem do tempo, poderíamos também chamá-lo homem do imediato, transforma o que existe de eterno nele em uma modalidade do tempo. Para ele existe apenas o passado, o presente e o futuro, que será presente e perder-se-á nas encruzilhadas silenciosas do passado. Esse pobre homem não consegue encontrar a relação entre estas três as dimensões nem possui a virtude para transformá-las em eternidade. Por isso, no instante da passagem, se for sincero com sua própria existência, a única coisa que ele tem a fazer é lamentar o ano passado. A eterna e insaciável incompletude causar-lhe-á angústia e decepção, a estranha sensação de uma existência incompleta. A passagem é o instante em que ele será confrontado com a falta de sentido e propósito em sua vida.

O homem da eternidade, por outro lado, vive o eterno ainda que esteja confinado às dimensões do tempo. Ele possui a virtude para transformar o passado em presente, em futuro, em eterno. Diferente da maioria dos homens, ele aprendeu a dominar os anos, sejam presentes sejam passados. Ele não teme a imagem fantasmagórica que ficará em sua mente quando o ano presente silenciar. Por fim, no instante da passagem, nada ele tem a lamentar, apenas será tomado por certa tristeza ao ver que para muitas pessoas o ano que finda será apenas ano passado, uma espécie de fantasma que irá assombrar as noites de seus anos futuros.


Postado por J. Marques

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Lutero e a Escravidão da Vontade - Parte II


Romanos 3:9 “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado


Precisamos permitir que Paulo explique o seu próprio ensinamento. Diz ele em Romanos 3:9 “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados a vista de Deus, como tambem são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus, os quais pensavam que não eram servos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios tem-se mostrado capazes de desvencilharem-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem. Essa escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus.

Romanos 3:19 “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus

Neste trecho, Paulo declara que toda boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá argumentar contra o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor —nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontaneamente para Ele. Se alguém disser: “Tenho uma capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus”, esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada, mas tal idéia contradiz as Escrituras. Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar de tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que de maneira alguma procuram guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e merecem ser punidos por Deus.

Romanos 3:20 “visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.”

Aqui Lutero refuta o argumento feito por Erasmo a favor do “livre-arbítrio”, pois segundo ele a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Lutero responde: “Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: “Se nada podemos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?” A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz Paulo, em Romanos 3.20: “...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz a morte, ao inferno e a ira de Deus. A lei só pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusiva¬mente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão nem o “livre-arbítrio” podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o “livre¬-arbítrio” precisam da luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Gálatas 3. 19: “Qual, pois, a razão de ser da lei?” Entretanto, a resposta de Paulo a sua própria pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do “livre-arbítrio”. Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pessoa de Cristo.

Romanos 10:20 “E Isaías a mais se atreve e diz: Fui achado pelos que não me procuravam, revelei-me aos que não perguntavam por mim.”

Acredito que, aqui está uns dos argumentos mais forte de Lutero que ele usou, baseado na palavra de Deus. Ele começa dizendo: “Em Romanos 10:20, Paulo cita de Isaias 65:1: ‘Fui buscado pelos que não perguntavam por mim; fui achado por aqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome, eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui’. E conclui. Paulo reconhecia, por sua própria experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua furiosa cólera contra ela. Diz Paulo, em Romanos 9.30,3 1, que os judeus, que envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, foram alvos da misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do “livre-arbítrio” do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios receberam a salvação. A graça é gratuita¬mente ofertada a quem não a merece, nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo dentre os homens tenha tentado empreender.”

João 6:44 “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.

É nesta passagem, que Lutero mostra o que Jesus Cristo diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. Lutero argumenta dizendo que Isso não deixa qualquer espaço para o “livre-arbítrio”. E ele mostra como o Senhor Jesus passou a explicar como alguém é trazido pelo Pai:“Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim” (v. 45). A vontade humana, por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do Evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que Ele opere em seus corações. De fato, sem a operação interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que a segui-Lo.

Postado por Elias Lima

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Superando as crises do mundo pós-moderno

SUPERARANDO AS CRISES
O mundo sofreu recentemente uma crise econômica que ficará marcada na história. Bancos, indústrias automobilísticas, fábricas e seguradoras chegaram à falência. Mas os braços não ficaram cruzados e medidas foram tomadas para contornar o problema. Alguns países, como o Brasil, têm superado a crise através de incentivos fiscais.
A igreja também precisa superar algumas crises causadas pelo contexto em que vivemos.
Quais são estas crises?
CRISE DE AUTORIDADE (Efésios 5:22-23; 6:1-3; Hebreus 13:17; 1Tessalonicense 5:12-13)
Rubem Amorese descreve assim:
“Há uma passagem sutil da mentalidade democrática e moderna para a insubordinação, para a insubmissão. Na confusão do questionamento de qualquer forma de autoritarismo, passo a questionar toda forma de autoridade.”
(Icabode- Da mente de Cristo à consciência moderna)
O que o autor está dizendo é que as pessoas de nosso tempo passaram de uma extremidade da balança para a outra. O autoritarismo da ditadura cegou o valor da autoridade nos vários relacionamentos.
Notemos os principais relacionamentos que envolvem autoridade:
1. Filhos para com os pais (Efésios 6:1-3)
2. Esposas para com maridos (Efésios 5:22-23)
3. Ovelha para com pastor (Hebreus 13:17; 1Ts.5:12-13)
Por que vou ouvir apenas a este pastor sobre minha vida? Quando quero um bom diagnóstico de uma doença, não procuro vários médicos? Eles compreendem e não ficam zangados. Eles são modernos. Faço o mesmo com minha vida espiritual.
Quem é o pastor, senão um “prestador de serviços espirituais”? Eu exijo qualidade e não autoridade.
Quem é meu pai ou mãe, senão aqueles que têm a obrigação de me alimentarem, e satisfazerem o que eu quero?
Muitas mulheres cristãs, enredadas pelo movimento feminista, já não são tão submissas.
O que é preciso para superar esta crise?
É preciso amar (João 14:15,21, 23)
Jesus deixa claro para seus discípulos que obedecer aos seus mandamentos, ou seja, submeter-se à Sua vontade, é uma questão de amor.
Há alegrias, descanso e plenitude viver sob autoridade.
Se você encontra sob a autoridade de alguém, então facilite.
Alguém pode até obedecer sem amar, mas não pode amar sem obedecer.

A segunda crise que a igreja precisa superar é a intelectual (1Co.14:6-19, 29; 1Ts. 5:21; 1João 4:1; 1Pedro 3:15)
O primeiro texto citado mostra a preocupação de Paulo com a faculdade intelectual. O apóstolo exorta os irmãos a dizerem palavras compreensíveis, para que se entenda. Mais adiante ele diz preferir falar cinco palavras com seu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua, o que não instruiria ninguém, se não houvesse intérprete.
Os demais textos fundamentam o valor do intelecto. Mas passamos por dias em que a razão tem sido desprezada. O que está em voga são as emoções, comandado pelo relativismo intimista, originário da pluralidade. Cada vez mais nossas decisões são determinadas pelas nossas emoções. E estas, por sua vez, são moldadas pelo mercado. Não importa se um produto tenha de fato utilidade, necessidade, propriedade, etc. Para o consumidor moderno, esses fatores são chatos.
Pergunte alguém por que comprou tal coisa. Geralmente a resposta será: porque gostei. E se você insistir perguntando por que a pessoa gostou, ela responderá do mesmo modo que na primeira vez. E aí onde fica a razão? É o espírito consumista, que prefere ser seduzido a ser convencido.
Francis Schaeffer detectou no final do século passado essa crise intelectual num tom bastante irônico:
“O Cristianismo foi tremendamente ridicularizado por uma sociedade humanista, racionalista e iluminista há apenas dois séculos por sua falta de “lógica e racionalidade”, e agora em pleno século XX, aparece como uma das poucas propostas filosófico-religiosas que sustenta o valor da razão para a interpretação da vida.”
( O Deus que intervém.p.137)
Rubem Amorese assim descreve a crise na igreja propriamente dita:
“A crise intelectual, quando chega à religião, funciona como uma secularização popularizadora: não pense- sinta; não entenda- usufrua; não busque- receba; não caminhe- vibre. Se me senti bem, esse sermão foi “palavra de Deus”, se não foi, foi apenas um sermão.”
( Icabode- Da mente de Cristo à consciência moderna)

O mesmo autor diz ainda que a crise intelectual faz dos evangélicos imitadores culturais.
“Em vez de serem originadores, passam a adaptar à igreja o que encontram no mundo. Perdem a mente cristã, e passam a adaptar músicas, gostos, valores e ideias ao padrão do “povo”. Em termos bíblicos, tornam-se mundanos e conformistas. Como resultado, temos a versão eclesiasticamente autorizada de tudo o que o mundo gosta.”

Esta crise deturpa o nosso amor por Deus, pois o mandamento bíblico diz pra amar com todo o nosso entendimento, ou seja, buscar conhecer a Deus como Ele é (Marcos 12:28-30).. Notemos a exortação do profeta Oséias:
“Conheçamos e prossigamos e conhecer ao SENHOR...” (6:3)
Antes disso, Deus já dizia ter uma contenda com Seu povo, porque não havia verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus (4:1).
A crise intelectual desencadeia outras crises, entre elas a crise moral (Oséias 4:1-2).
As conseqüências de não conhecer a Deus revelam-se nas atitudes. O perjúrio, a mentira, o homicídio, o roubo, o adultério e o assalto praticados pelos israelitas revelam a sua ignorância da pessoa de Deus.
Como diz Rubem Amorese, criamos um Cristo que salva, mas não transforma. Olhe para a qualidade do testemunho de muitos evangélicos hoje. Eu conheci uma evangélica que disse se sentir melhor noutra igreja, uma dessa de louvorzão, querendo ao mesmo tempo se separar do esposo.
“Como pedir domínio próprio de um crente hoje em dia? Como admoestar que perdoe seu irmão, se ele está magoado? Como sugerir que ele volte para a esposa, se ele “não a ama mais”? Como sugerir que faça oferta ao Senhor, na proporção do tiver posto no coração, se no seu coração não pôs nada?”
Virtudes como mansidão, fidelidade, humildade e outros estão em extinção inclusive nas igrejas evangélicas.
E aí surge um versículo descontextualizado: “Para a liberdade foi que Cristo vos libertou”, mermão. Sai da lei mano. Cuidado com a trave do teu olho, Nicodemos. (Rubem Amorese)
O pensamento é que Deus não é mais tão exigente como antigamente. Ele tem mais é que está por aí, para dar uma força na hora que a gente precisa, sem se meter demais na vida. Devagar com esse negócio de pecado, arrependimento, disciplina, culpa e outras coisas do passado.
Emoções e sentimentos são importantes, mas se não estiverem na medida certa, viram um desastre. Por ser tão poderoso, o componente emocional precisa de um freio para controlá-lo. O freio é a razão. “Quando a emoção não é dirigida pela razão, temos o emocionalismo”. Portanto, procure cada vez mais conhecer ao Senhor. Estude a Sua Palavra e não se deixe levar pelo emocionalismo.

Continua na minha próxima publicação.
Postado por José Roberto.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Cidade de Deus e a Cidade dos homens

Durante a segunda guerra mundial os judeus e os povos conquistados pelos nazistas ficaram confinados a lugares subumanos, chamados guetos. Alguns filmes (como o pianista, a vida é bela, a lista Schindeler) poderiam dar uma boa visão da vida nos guetos. Ali os prisioneiros de guerra viviam a mercê do exército conquistador; suas casas, empregos, filhos ou filhas, tudo estava a disposição dos alemães. Eles viviam sem informações e sem esperanças. Ali era necessário aprender a ser quem eles não eram, sem poder expressar um mísero sentimento ou pensamento contrário aos seus algozes.


O cristianismo moderno parece viver nos guetos. A igreja está tomando o caminho combatido pela maioria dos reformadores, o isolacionismo. Os crentes mais se parecem reféns do mundanismo que sal e luz. Por causa desse separatismo exagerado, a igreja começa formar os seus guetos, ou seja, formar sua própria cultura, porém influenciada pelo mundo. O crente é advertido a não ouvir música mundana pois há estrelas evangélicas; não precisamos ir ao cinema pois temos a alternativa de filmes evangélicos; não devemos ler tal e tal livro pois precisamos ler a Bíblia e livros evangélicos. Dessa forma a igreja se torna um trampolim para a maioria de artistas não vocacionados na tentativa de ganhar fama e dinheiro.

Mas será que a atitude da igreja de viver nos guetos é normal? Os crentes devem continuar reféns da nossa sociedade moribunda? O que significa o conceito de separação nas sagradas escrituras e qual sua relevância para a igreja hoje?

Deus fez tudo perfeito (Gn. 1:31) sem a distinção do sagrado e secular. O trabalho era veículo da construção do reino de Deus pelo avanço da cultura e de uma civilização piedosa (Gn. 2:15). Não havia evangelismo. A família foi a instituição perfeita para expressar amor e união entre marido e mulher e receber os filhos como benção do Senhor (Gn. 1:28).


A queda trouxe mudanças em tudo. O trabalho deixou de ser feito com prazer para ser “fadiga e dor”. A benção da família ficou ofuscada pela maldição do parto doloroso; o marido e a mulher ficaram como rivais, disputando a liderança do lar; guerra entre marido e mulher, entre a semente da mulher e serpente, (Gn. 3:14-20). A família e o casamento não eram mais sagrados visto que a “casa dos ímpios” e a “casa dos justos” se distinguem. Deus removeu o paraíso para o céu, Gn. 3:24.

Ao ser expulso da cidade de Deus, o homem vive tentando construir sua própria cidade.

A construção da cidade dos homens.

Eva exclamou de alegria ter concebido “um varão, o Senhor”, i.e. o messias que restauraria a paz entre o homem e Deus Gn. 4:1-2. No entanto, este foi o assassino de seu irmão por querer agradar a Deus do seu jeito (4:4-5). Deus requeria sacrifícios assim como Ele fizera no jardim para os seus pais – Adão e Eva. Caim não se arrependeu, mas se irou com Deus. Caim não seria o messias, antes o pai de uma geração que odiaria Deus.

Deus preserva a Vida de Caim, mesmo que ele entendia a necessidade de ser vingado (4:14), foi amaldiçoado por Deus (4:11). Deus livrou Caim para edificar uma cidade (v.17). Os habitantes dessa cidade seriam: (a) criadores de gado ou nômades– v. 20; (b) peritos na música – v. 21; (c) peritos em ferro – v. 22; (d) o primeiro polígamo – v. 23; (e) artistas – v. 23.

A cidade dos homens é audaciosa e desafiadora de Deus – 11:1-9. Os homens estavam proibidos de entrar no Éden ou estabelecer um céu na terra. Babel era um prédio religioso. Assim como o pai da cidade dos homens recusou o meio correto para salvação, os construtores da torre recusaram confiar na promessa de Deus. No verso 4 e 8 fala do interesse dos construtores era edificar uma cidade. Ainda hoje a cidade dos homens prefere confiar na tecnologia a confiar nas mãos potentes de Deus. Os homens queriam subir e Deus preferiu “descer” (11:5). Hoje, com o auxilio do iluminismo, esquecemos que a salvação vem de Deus (Jonas 2:9) e assim confundimos que a construção terrena não é a reconstrução do paraíso. Todos impérios fracassaram nessa investida: Roma, Alemanha, EUA. Jesus diz: “o meu reino não é deste mundo” João 18:36.

A reconstrução da cidade de Deus.

A cidade de Deus não era mais edificada com árvores, rios e animais, mas com pessoas que estivessem dispostas a “invocar o nome do Senhor” – Gn. 4:25-26. Adão já buscava o Senhor através dos sacrifícios ensinados por Deus. Caim e Abel possuíam um princípio de invocar o Senhor, mas com Enos a invocação é plena e completa. Os seus descendentes passam a buscar o Senhor diferentes de Adão, Caim e Abel.

Os cidadãos dessa nova sociedade estão sujeitos a queda e ao fracasso espiritual – Gn. 6:1ss. Mas sempre restará um grupo perseverante nos caminhos de Deus – Gn. 6:29; 6: 8-10; 12:1. e.g. Noé e Abraão.


A cidade de Deus está no céu, mas os seus cidadãos estão na cidade dos homens. Até o dia de voltarmos para esta cidade, devemos usar nossa posição para honrar a Deus na liderança secular, e.g. Daniel e José não procuraram transformar seus cargos em catalisadores de transformação de reino humano em teocracia Bíblicas como Israel foi (ou Calvino em Genebra e os Anabatistas radicais em Münster, Alemanha). Pelo contrario, seguiram sua vocação no mundo com excelência e diligencia, ganhando respeito daqueles regentes estrangeiros e melhorando as vidas daqueles sobre quais exerciam autoridade (1 Ts. 4:11). Os crentes são santos por pertencerem a Cristo e não por estar numa esfera da igreja; contudo, vivem no âmbito profano ou comum. Espera-se a diferença na sua crença e procedimento, atitudes e estilo de vida; mas, não se espera que os crentes convertam o ambiente secular em sagrado. e.g. Daniel e José tomavam decisões baseado nas leis babilônicas e egípcias e não judaicas.

Diante de tudo isso, como o cidadão da cidade de Deus deve viver na cidade dos homens?

Como operários do grande mosaico de Deus. Todo nosso trabalho deve ser feito para a glória de Deus. 1 Ts. 4:11; assim como o mosaico é feito de pedaços geometricamente diferentes, também a obra de Deus. Não está na obra de Deus somente quem trabalha na igreja, mas todo que considera e dedica seus afazeres parte de sua adoração a Deus, 1 cor. 10:31; Col. 3:23.

Como proclamadores das virtudes de Deus. 1 Pe. 2:9-10; 3:15.

Como peregrinos. Há um grande risco de viver em dois mundos: ser monges eremitas ou se misturar com as alfarrobas do mundo. Deus não nos chamou para o isolacionismo nem para o mundanismo, porém para ser sal da terra e luz do mundo. Um dos grandes desafios do cristão é viver numa sociedade totalmente diferente de sua real pátria. Abraão peregrinou pela fé porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador Hebreus 11:9-10.

Nas palavra do hino “a bela cidade”:

Tenho lido da bela cidade,
construída por Cristo nos céus;
é murada de jaspe luzente
e juncada com áureos troféus
e no meio da praça eis o rio do vigor e da vida eternal;
mas metade da glória celeste jamais se contou ao mortal


Tenho lido das belas muralhas
que Jesus foi no céu preparar,
onde os crentes fiéis para sempre mui felizes irão habitar.
Nem tristeza nem dor nem gemidos entrarão
na mansão paternal;
mas metade da glória celeste jamais se contou ao mortal

Tenho lido das vestes brilhantes
das coroas que os santos terão
quando o pai os chamar e disser-lhes:
Recebei o eternal galardão.
Tenho lido que os santos na glória
pisarão ruas de ouro e cristal;
mas metade da glória celeste jamais se contou ao mortal

Postado por Francimar

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Lutero e a Escravidão da Vontade - Parte I

Introdução

“A escravidão da vontade”, de onde o resumo “Nascido Escravo” foi tirado, foi escrita por Martinho Lutero como reação aos ensinamentos de Desidério Erasmo. O qual era um humanista, pois acreditava que os homens podem conquistar a salvação, ao invés de dependerem exclusivamente de Jesus Cristo – em Sua morte e ressurreição. Erasmo nasceu entre 1466–1469 em Rotterdam, na Holanda. Ele foi monge agostiniano durante sete anos, e isto aconteceu antes de viajar para Inglaterra, onde fora motivado a aprofundar seu conhecimento do grego, chegando a produzir um texto crítico do Novo Testamento grego (1516). Rejeitava os métodos fantasiosos de interpretação das Escrituras, bem como as superstições dos mestres da Igreja Católica Romana. Erasmo sempre preferia uma abordagem simples do ensinamento Cristão aos complicados e pormenorizados métodos dos teólogos profissionais. Ele evitava as controvérsias, e, por longo tempo, não procurou tratar publicamente sobre o conceito do “livre-arbítrio”. No verão de 1523, contudo, Ulrico Von Hutten, outro humanista alemão, forçava Erasmo a se posicionar. Acusava-o de fugir a posicionamentos claros em relação à Reforma e de estar-se distanciando dela.


O posicionamento de Erasmo veio com uma clareza em nada esperada por Lutero. Em princípios de Setembro de 1524, Erasmo de Roterdã publicou sua “Diatribe sobre o livre arbítrio”. Nela posicionou-se abertamente contra uma afirmação central da teologia de Lutero: “sua antropologia. Desafiando desta forma a solicitação de Lutero para que não fizesse tal coisa. Depois da publicação, Erasmo escreveu a Henrique VIII nestes termos: “Os dados foram lançados. O livreto sobre o ‘livre-arbítrio’ acaba de ver a luz do dia”. Tal livreto agradou ao papa e ao Sacro Imperador Romano, e foi elogiado por Henrique VIII. Com essa publicação Lutero teve que se posicionar. Para ele estava claro que a questão era fundamental, mas seria difícil responder a tão indouto livro de douto autor. Lutero sabe, porém, que não poderá esquivar-se de resposta. Amigos instam-no para tanto. As primeiras reações de Lutero apareceram no prefácio à tradução do Eclesiastes, na sua opinião um escrito contra o livre-arbítrio. Em pregação de 9 de outubro de 1524, descreve a impotência do ser humano aprisionado pelo diabo: “Tu és cavalo, o diabo te cavalga.” Só Cristo pode libertar do poder do diabo. Em carta a Espalatino, de 1º de novembro de 1524, confessa que, enojado, não conseguira ler mais do que duas páginas do livro de Erasmo. A resposta , porém, a ser dada a Erasmo, tem que esperar, por várias razões, por exemplo a Guerra dos Camponeses e o próprio casamento de Lutero com Catarina de Bora. Mas por fim foi a pedido de sua esposa que vai, finalmente, elaborar a resposta a Erasmo, O texto é publicado em 31 de Dezembro de 1525.

Em muitos sentidos, porém, a discussão entre Lutero e Erasmo não passou de episódio, pois não provocou o debate das massas, mas colocou-o no centro da discussão da intelectualidade. Essa discussão não foi concluída. Em seu centro está a concepção humanista e reformatória do ser humano.

I. Lutero mostra o que a Bíblia ensina sobre o livre-arbítrio

Romanos 1:18 “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça

Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça.” Se todos os homens possuem “livre-arbítrio”, ao mesmo tempo em que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se dai que o “livre-arbítrio” os está conduzindo a uma única direção — da “impiedade e da iniqüidade”. Por¬tanto, em que o poder do ‘”1ivre-arbítrio” os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o “livre-arbítrio”, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus. Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não se¬guir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, “contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a entender que algumas pessoas não “detêm a verdade pela injustiça”. Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia a impiedade de todos os homens. Além do mais, notemos o que Paulo escreveu ime¬diatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se pára Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis di¬vinas em seus mínimos detalhes, mas isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus.

Lutero mostra com base nesse versículo que quanto mais o “livre-arbítrio” se esforça, tanto piores tornam-se as coisas, e que ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-se a eles, e que se fosse possível ao “livre-arbítrio” dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! E que nem os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1:21; 2:23,28,29) não conseguiram aproxima-los nem um pouco sequer da fé em Cristo.

Postado por Elias Lima

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

DIÁRIO DE SONHOS DO DOUTOR SATÍRICO V: VISÃO DOS MISTÉRIOS DE SUINÓPOLIS

Embora esse “Doutor satírico” habite em mim de uma forma que chega a ser quase opressiva, a minha formação cristã faz com que eu acredite no sobrenatural, na existência de anjos e seres espirituais. Acho até que foi motivado por essa crença que registrei o sonho que passo a relatar, o que não deve ser empecilho para que os céticos possam ler esse capítulo de minhas memórias. Quero deixar claro também que, ao relatar esse sonho, o meu objetivo não é ofender os fiéis. Não quero que minha reminiscência onírica seja escândalo para os judeus e muito menos loucura para os gregos. Dito isto, passemos ao relato do sonho.

Em meu sonho, eu estava estudando em meu escritório quando de repente fui surpreendido pela visão de um anjo. Aquela aparição repentina me deixou extasiado. O ser angelical era de um vermelho pálido, quase desbotado, tinha em suas mãos uma ampulheta e uma espada cujo formato do cabo lembrava uma serpente. Tinha quatro asas, com duas escondia as vergonhas e com duas voava. O anjo veio em minha direção e falou:
- Filho do homem, vem e eu te revelarei os insondáveis mistérios de Suinópolis, mostrar-te-ei enigmas que a nenhum homem foi dado a conhecer.
Fiquei por um momento paralisado. Quando despertei daquele êxtase sublime, falei em um tom reverente:
- Senhor, o que devo fazer para conhecer esses mistérios?
Apenas segue-me, ó filho do homem.
Em uma fração de segundo o anjo me levou a um palácio grandioso e me apresentou a visão de um trono. O trono estava manchado de sangue e sobre ele estava assentado um porco em cuja cabeça resplandecia uma coroa com seis estrelas. Quando o rei suíno ergueu o seu cetro quatro seres viventes – um chacal, um abutre, uma raposa e uma serpente - que estavam diante do trono, prostraram-se em reverência a ele. Quando os animais se curvaram, o porco falou em um tom imperioso:
- O que tendes a oferecer ao vosso rei, além de vossa reverência?
O chacal se adiantou e gritou para que trouxessem o seu presente. Era um cordeiro, estava em uma jaula e as manchas vermelhas em sua lã branca demonstravam que ele estava ferido. Estava vivo, mas o seu olhar estava abatido e sua respiração difícil. Ao ver aquele cordeiro ferido e enjaulado, o rei porco não conteve a sua alegria e exclamou:
- Muito bem servo bom e fiel, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei, entra no gozo do teu Senhor.
Na seqüência, o abutre ordenou a entrada do seu presente. Era uma pomba. Tinha as asas cortadas e, presa à sua pata direita, uma corrente com uma gigantesca bola de ferro na ponta. Depois de receber o presente do abutre, o rei-porco repetiu a mesma saudação que dirigira ao chacal, na seqüência, olhou para pomba e deu uma estrondosa gargalhada. O seu sarcasmo era grosseiramente assustador. Quando fez silencio, a raposa falou:
- Espere para ver a minha oferta ó grande rei.
Era um leão. Além de está enjaulado, o animal tinha duas patas quebradas e os olhos arrancados. Longe de despertar pavor, o seu rugido era uma expressão da tragédia que o acometera. Contente com o presente que recebera, o porco falou à raposa:
- Como recompensa à tua fidelidade ó raposa, governarás seis províncias no reino de Suinópolis.
Por fim, a serpente pediu para que entrasse o seu presente. Era um peixe preso em um aquário. As suas escamas reluziam como pedras preciosas. Logo que o peixe chegou, a serpente correu ao seu encontro e mordeu a sua cabeça. Quando a peçonha da serpente começou a surtir efeito, as escamas do peixe foram caindo uma a uma. O porco não escondia o seu contentamento ao ver o peixe perder pouco a pouco o seu esplendor. Quando caiu a última escama, o porco declarou aos animais que lhe haviam trazido os presentes:
- Bem-aventurados sois vós. Como prêmio por vossa fidelidade, vocês estarão comigo no meu trono e comigo regerão as nações com vara de ferro. Todos os habitantes de Suinópolis hão de reverenciar-vos.
Não conseguia compreender o sentido daquelas estranhas aparições. Por isso, resolvi perguntar ao anjo que me guiava:
- Qual o sentido dessas manifestações meu senhor?
- A prisão desses animais – o cordeiro, a pomba, o leão e a serpente – representam a derrota final dos adversários de Suinópolis. Durante anos eles foram uma ameaça para o nosso reino. Agora que foram dominados, o nosso rei Ludíbrius Pestilencius reinará pelos séculos dos séculos.
- Qual será o destino desses animais?
- Eles serão acorrentados e depois lançados nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.
Estávamos ainda a falar quando o rei Ludibrius ordenou que os animais capturados fossem lançados fora dos muros de Suinópolis. O anjo que me conduzia, voltou-se para mim e disse:
- Vem e eu te mostrarei revelações ainda mais sublimes, mistérios ainda mais insondáveis.
O anjo me levou a uma gigantesca catedral. O templo central de Suinópolis era um prédio de quatro andares. Estranhamente, cada um dos andares havia sido construído com uma substância diferente. O primeiro era de ouro, o segundo de pedra, o terceiro de areia e o quarto de fumaça. Antes que eu fizesse qualquer pergunta, o anjo disse que me mostraria o lado interno de cada um dos andares da catedral. Começamos pelo andar superior. Todo ele era feito de ouro. Para o meu espanto, até mesmo as pessoas que estavam ali tinham uma aparência dourada. Quando adentramos era o momento da eucaristia. Uma mulher com vestes de prostitutas e exalando um perfume barato distribuía os elementos aos fiéis. Fiquei tão impressionado com a expressão vulgar daquela mulher que nem percebi que era o rei Ludibrius que conduzia o culto eucarístico. Curiosamente, ele não usava mais a coroa, o cetro e as vestes reais. Em vez disso, trajava vestes sacerdotais. Na altura de sua cintura havia uma faixa branca onde estava escrito “Jesus Cristo é o Senhor”. Depois que a mulher distribuiu os elementos, o porco-sacerdote exclamou em tom solene:
- Amados irmãos, bebamos em memória do nosso salvador o sangue dos nossos inimigos.
No momento em que os fiéis começaram a beber os cálices de sangue, o anjo me conduziu ao andar seguinte do prédio. Era um espaço todo construído em pedra. Quando observei as pessoas que se encontravam ali, imaginei ter entrado no cenário de um filme de ficção. Os seus corpos aparentavam estar passando por um processo de petrificação. Alguns ainda estavam em um estado inicial, outros já haviam completado aquela metamorfose estranha. Dentre aqueles que já estavam totalmente petrificados, estava o pregador. Para minha surpresa, era novamente o porco. Ali ele não era mais o rei Ludibrius, mesmo assim era reverenciado por todos com o título de “apóstolo Pedra”. O anjo pediu para que eu atentasse para sua mensagem. Curiosamente, sua pregação resumia-se a uma única expressão: “louvado seja o Senhor!” E os fiéis em coro respondiam “amém!” Percebi que os fiéis iam completando o seu processo de petrificação à medida que iam repetindo o “amém”.
Ficamos naquele recinto até que todos os féis se transformaram em pedra, então, seguimos para o andar seguinte. Aquela parte do prédio era feita com uma substância flexível semelhante a areia. Curiosamente, os homens que estavam ali tinham essa mesma aparência. No púlpito, o porco estava novamente a discursar. Trajava agora vestes elegantes, semelhante a um senador ou um deputado. Nesse instante o anjo que me conduzia ordenou:
- Atente para a mensagem do doutor Aristo Liberatus, a maior autoridade em teologia de Suinópolis.
Voltei o olhar para o porco, quero dizer, para o doutor Aristo e passei a ouvir sua mensagem. O poder de sua oratória deixava qualquer um maravilhado. Sua voz era grave e melodiosa ao mesmo tempo.
- Amados irmãos de Suinópolis, gostaria de ilustrar um dos princípios que regem o nosso reino fazendo alusão a uma conhecida fábula de Esopo. Conta o fabulista grego que “certo dia, discutiam entre si um caniço e uma oliveira a respeito de sua resistência, vigor e firmeza. A oliveira reprovava ao caniço sua fraqueza e sua impotência, que o faziam ceder facilmente a todos os ventos, e este se mantinha calado, sem responder. Logo após, quando o vento começou a soprar forte, o caniço, sacudido e vergado, sobreviveu facilmente à tempestade, mas a oliveira, que quis resistir aos ventos, foi arrancada pela sua violência”.

Esta fábula, amados irmãos nos mostra o valor da flexibilidade, da capacidade de adaptação às situações difíceis. Em nosso reino esse é um dos princípios mais elevados e deve ser observado por todos. Na verdade, foi exatamente esse o ensinamento que o nosso Senhor nos deixou. Em Sua Palavra Ele afirma que os seus discípulos devem ser prudentes como as serpentes. Em outra passagem o santo apóstolo Paulo também nos exorta acerca da importância da flexibilidade. “Fiz-me fraco para com os fracos a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns”.

O princípio da flexibilidade, amados irmãos, implica não apenas que temos que ter a capacidade de nos adaptar às novas condições, aos novos tempos. Ele significa também que devemos estar sempre abertos às inovações e, principalmente, como cristãos, devemos estar sempre preparados para ceder. Isso é válido, inclusive, em matéria de doutrina. Não precisamos mais adotar posturas inflexíveis e radicais, já que isso em nada coopera para o progresso do evangelho. A flexibilidade nos ajudará a encontrar sempre um meio termo em todas as questões. Ilustremos essa verdade com o exemplo da criação. Nós cristãos afirmamos que Deus criou todas as coisas do nada, já os evolucionistas atribuem ao Big-Bang a origem do universo. Diante desse pequeno impasse, não precisamos nos aferrar em posições radicais. Consideremos, portanto, que houve de fato a evolução, desde que Deus tenha controlado o processo. O conceito de Deus também ilustra essa verdade. Não importa o fato dele ser chamado Zeus, Júpiter, Odin, Baal, Iemanjá, Braman ou Amaterazu. O que importa é a crença em um ser supremo. Em Suinópolis não devemos nos prender a pormenores lingüísticos.

O princípio da flexibilidade possui, por fim, uma aplicação moral. Isso significa que, guiados por ele, cada um de nós deve se tornar mais tolerante, o que está de acordo com o mandamento do amor que nos foi ensinado pelo nosso Senhor. Quero dizer com isso irmãos que alguns comportamentos inofensivos de nossos irmãos como sexo antes do casamento, casamentos mistos, mentirinhas brancas e certos tipos de vícios, não devem ser causa de escândalo em Suinópolis. Afinal de contas, não é a Palavra de Deus que nos ordena que cada um deve tolerar as fraquezas de seu irmão? Quando o doutor Aristo finalizou a sua prédica eloquente, todos os presentes o aplaudiram de pé. Alguns chegaram ao ponto de arremessar flores na direção do púlpito. As flores eram vermelhas, mas logo que tocavam o púlpito, assumiam uma coloração negra semelhante à noite. Neste momento, o anjo me falou:
- Filho do homem, vem comigo eu te mostrarei o último andar da catedral. Ser-te-á revelado o mistério mais profundo de Suinópolis.
Antes que eu concordasse já estávamos no interior do último andar da catedral. Ele era construído com uma substância volátil semelhante à fumaça. Para o meu assombro, as pessoas que se encontravam ali eram feitas a partir dessa mesma substância. Era um salão espaçoso em cujo centro se destacava uma mesa. No centro da mesa estava novamente o porco. Agora, sua longa barba branca dava-lhe a aparência de um ancião.
- Filho do homem, atenta para a grande comissão que será dada pelo rabino Messinus aos seus doze apóstolos.
Nesse instante, o rabino-porco se dirigiu aos seus apóstolos:
- Recebereis poder ao descer sobre vós o meu espírito e sereis enviados a confundir as nações.
- Como saberemos rabi que recebemos tal poder? Perguntou um dos apóstolos que se encontrava ao seu lado.
- Olhe para o seu corpo Pseudônio e diga-me qual a sua aparência?
- Humana, mestre.
- Muito bem! E agora, que aparência ele possui?
O homem de fumaça havia assumido a forma de um rato, que rastejava diante dos demais. Quando os outros apóstolos perceberam a transformação, ficaram perplexos e rogavam ao rabino Messinus:
- Mestre, dá-nos também esse maravilhoso poder.
- A fim de executarem a grande comissão, todos vocês serão revestidos com esse poder.
Logo que o rabino silenciou, os homens-fumaça começaram a assumir várias formas de animais. Alguns se transformaram em serpentes, outros em águias e outros em cordeiros. Os apóstolos reassumiram a sua forma humana e desapareceram da sala em uma fração de segundo. Tínhamos terminado a visita ao prédio, mas continuava sem entender o sentido daquelas estranhas visões. Resolvi, então, indagar ao anjo que havia me conduzido àquelas manifestações.
- Senhor, qual o sentido da catedral que acabamos de visitar? O que representam os quatro elementos que a constituem?
- Revelar-te-ei agora, filho do homem, o significado dos quatro elementos.
- Tenha bondade, senhor.
- Cada uma das substâncias que constituem a catedral representa uma virtude que rege Suinópolis. O andar de ouro representa a virtude da felicidade, princípio que deve ser o alvo supremo de todos os habitantes do nosso reino. O andar de pedra representa as virtudes da durabilidade e da firmeza. Em um sentido mais profundo, ele aponta para a eternidade de Suinópolis. O andar de areia, por sua vez, aponta para o princípio da flexibilidade, virtude que está diretamente relacionado à sobrevivência dos suinopolitanos. O andar de fumaça representa a esperteza, princípio que deve ser observado por todos os cristãos em Suinópolis. Quando o anjo me revelou o misterioso sentido da catedral, fiquei curioso em relação à sua identidade e perguntei:
- Qual o seu nome meu senhor?
O ser angelical ficou por um momento em silêncio. De repente, o seu corpo passou a assumir a forma de uma fumaça. Era uma fumaça escura e que exalava um forte cheiro de vômito. Logo percebi que aquele homem-fumaça me parecia familiar. Era um dos apóstolos do rabino Messinus. Surpreso com a descoberta, nem percebi quando ele se transformou em uma serpente. Quando me dei conta, ela já havia me picado. O seu veneno não demorou surtir efeito e em menos de dois minutos cai desacordado.

Quando o efeito do veneno passou, despertei. Estranhamente, encontrava-me em um lugar completamente diferente. Era um deserto, mas a catedral de Suinópolis ainda permanecia ali. Com seus quatro andares – ouro, pedra, areia e fumaça – ela aparentava ainda mais imponência. De repente, a catedral se transformou em uma criatura monstruosa. Era tão horripilante que o próprio Golias tremeria de medo dela. Curiosamente, ela conservava certa semelhança com a catedral. Também nela estavam presentes as quatro substâncias. Sua cabeça era de ouro, seu peito de pedra, sua cintura de areia e suas pernas de fumaça. Em cada uma das substâncias que compunham a criatura havia uma inscrição. Na cabeça estava escrito luxúria, no peito insensibilidade, na cintura tolerância e nas pernas engano. Quando aquele monstro fabuloso começou a se movimentar fiquei tomado de pavor. Ele estava enfurecido. Quando percebi que ela não estava caminhando em minha direção, senti-me profundamente aliviado. Foi então que avistei os quatro animais do início – o cordeiro, a pomba, o peixe e o leão. Agora eles não estavam mais presos e nem pareciam abatidos. Aparentavam uma postura exaltada como se estivessem preparados para a batalha.

A batalha de fato foi travada. O cordeiro se adiantou e marchou em direção ao monstro. Quando se encontrou diante dele, olhou para sol como se estivesse ordenando que ele baixasse. No mesmo instante o sol foi arremessado contra a cabeça do monstro que não resistiu o seu calor e derreteu. Imediatamente, a pomba voou na direção da criatura horrenda. Durante o seu vôo, seu bico se transformou em uma gigantesca picareta que destruiu o peito de pedra do monstro em questão de segundos. Mesmo sem cabeça e com o seu peito de pedra esmiuçado, o monstro não parecia se abater. Então o peixe resolveu entrar no combate. Parou diante da criatura e quando, abriu a sua boca, um rio verteu de seu interior. Como se obedece ao peixe, o rio atingiu a cintura arenosa do monstro, que se desfez com rapidez. Quando restava apenas as pernas da criatura, o leão entrou em cena. Em um gesto rápido, ele começou a soprar. O sopro de sua boca era semelhante a um furacão. Aquela poderosa rajada de vento dispersou em pouco tempo as pernas de fumaça.

Quando o monstro desapareceu, surgiu o porco acompanhado pelos quatro animais – o chacal, o abutre, a raposa e a serpente. Também lhe seguia um numeroso exército. Do lado do cordeiro, da pomba, do leão e do também surgiu um exército. No exato momento em que as tropas iam se confrontar despertei do meu sonho, assustado com aquelas visões estranhas.


Postado por J. Marques

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

DIÁRIO DE SONHOS DO DOUTOR SATÍRICO IV: CRISTOLÂNDIA

No sonho que tive ontem à noite eu era um cristão em plena Roma imperial. O contexto era de intensas perseguições aos discípulos de Cristo. Nesse ambiente, aceitar a fé significava estar preparado para virar alimento de leões famintos ou iluminar os jardins imperiais. O imperador romano Cômodo César havia decretado que todos os cristãos que fossem encontrados em Roma deveriam ser executados. Caminhava pelas ruas da capital do império, temendo ser surpreendido pelos guardas, quando encontrei um sujeito bastante esquisito. Aquele desconhecido se aproximou de mim e me falou nos seguintes termos:
- Boa noite, meu jovem. Pelo seu aspecto, tenho quase certeza que você é um cristão. Saiba que tenho uma ótima notícia para você.
Temendo que fosse um guarda disfarçado, hesitei em me identificar.
- Você está enganado, sou um seguidor devotado da religião romana, ofereço libações aos deuses e reverencio o imperador.
- Não tenha medo meu irmão, pode confiar em mim, eu também sou um discípulo de Cristo.
Como ele me parecia sincero, resolvi declarar-lhe a minha fé.
- Tudo bem, eu sou um cristão. Diga-me agora que boa notícia você tem para mim?
- Você deve concordar comigo que os tempos não estão fáceis para nós cristãos na capital do império.
- É verdade.
- Pois bem, é sobre isso que gostaria de falar-lhe.
- Pode falar.
- Você já ouviu em uma cidade chamada Cristolândia?
- Não. Que cidade é essa?
- É a cidade onde todos os cristãos perseguidos pelo império romano estão se refugiando. Lá eles podem manifestar livremente a sua fé. A cidade é regida por princípios cristãos. Em Cristolândia, diferente de Roma, somente os que não seguem a doutrina de Cristo é que são perseguidos. Alguns a chamam de a “Nova Jerusalém terrena”.
- É exatamente uma cidade como essa que estou procurando. O que é preciso fazer para entrar em Cristolândia?
- Há apenas duas exigências. A primeira, é claro, é preciso professar o nome de Cristo. Em segundo lugar, você precisa pagar uma pequena taxa de três mil denários.
- Infelizmente, acho que não tenho no momento essa quantia.
- Tudo bem. Hoje é seu dia de sorte meu irmão. Pode ir para Cristolândia. Quando chegar lá, avise ao governador Balaão que foi recomendado pelo apóstolo Falastrônio. Isso lhe garantirá um desconto de pelo menos cinqüenta por cento sobre o valor da taxa. Vamos lá meu irmão, aproveite esse valor promocional. Não precisamos nos tornar comida de leão para ser cristãos. Cristo já levou a nossa cruz, sentiu as nossas dores e morreu a nossa morte.
Mesmo sabendo que aquele valor promocional representava a soma de todas as minhas economias, cedi às razões daquele desconhecido:
- Sendo assim, só preciso saber a localização da tal cidade. Se nesta cidade poderei manifestar a minha fé livremente, então vale a pena o investimento.
Depois de ter sido orientado pelo apóstolo Falastrônio, pus-me imediatamente a caminhar rumo a Cristolândia. Caminhei por algumas horas e avistei no cume de um monte aquele que era o refúgio dos cristãos perseguidos. Caminhei mais alguns minutos e cheguei à entrada da cidade. A largura do portão que dava acesso a Cristolândia era algo impressionante. No alto dele havia um letreiro com uma mensagem, dizendo: “Entrai pela porta larga, porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à perdição e poucos são os que entram por ela, mas larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à salvação, e muitos são os que entram por ela”. Apesar da porta que dava acesso à cidade ser bastante larga, as pessoas se apertavam para entrar em Cristolândia. Como eu precisava falar diretamente com o governador Balaão sobre o preço promocional, esperei diminuir o fluxo de pessoas. Somente depois das duas da manhã as pessoas pararam de entrar pelo portão. Aproximei-me da entrada onde estava assentado o governador da cidade. Logo que percebeu a minha aproximação, ele saudou-me com sua voz grave:
- Bom dia meu jovem, em que posso servi-lo?
O governador Balaão era um homem gordo, com dentes amarelados e um sorriso que destilava o mais aguçado cinismo. Tinha um charuto cubano entre os dedos e o seu hálito denunciava que ingerira bastante uísque. Em seu dedo anelar esquerdo havia um anel dourado onde estava gravada uma seqüência de três seis (666). Para o meu espanto, havia um olho em cada uma das extremidades dos dedos de suas mãos. Os olhos eram grandes, arredondados e de um brilho quase hipinótico. O governador me olhava com todos os seus olhos como se aguardasse a minha resposta.
- Desejo entrar em Cristolândia.
- Isso não é difícil. Você precisa apenas cumprir duas exigências: ser um seguidor de Cristo e pagar uma pequena taxa de três mil denários.
- É exatamente sobre esta segunda exigência que gostaria de falar-lhe. Não disponho de toda essa quantia, mas venho recomendado pelo apóstolo Falastrônio. Ele me garantiu que receberia um bom desconto.
- Ah! sim, o Falastrônio é um dos mais habilidosos divulgadores de nossa cidade. Todos aqueles que vêm recomendados por ele têm direito a um desconto de cinqüenta por cento.
Entreguei o valor combinado ao governador Balaão e aguardei que ele me entregasse a chave dos meus aposentos. Depois de conferir por três vezes a quantia, ele me entregou a chave e me passou algumas instruções sobre a cidade.
- Como você deve saber meu irmão, Cristolândia é uma cidade regida por leis cristãs. Aqui todos podem vivenciar livremente a sua fé. Temos inclusive cultos anuais dos quais todos os moradores da cidade devem participar. Devo lhe advertir que nem todas as pessoas que moram aqui são cristãos sinceros. Eles chegaram aqui se dizendo discípulos de Cristo, mas com o tempo se tornaram rebeldes em relação aos princípios do Mestre. Você já deve saber que o joio é sempre lançado no meio do trigo do Senhor. O seu endereço fica na avenida Cafarnaum, entre as ruas Betsaida e Corazim. Tenha cuidado com o seu vizinho da direita, o Bartolomeu. Há boatos sobre a sua pessoa afirmando que ele não tem se sujeitado às normas de Cristolândia. Dizem que ele tem divulgado doutrinas contrárias àquelas que recebemos do Senhor. Ele já está sendo investigado, pois não aceitamos qualquer atitude de rebeldia aos princípios cristãos em nossa cidade. Qualquer dúvida ou dificuldade, procure o seu vizinho da esquerda, o Judas Iscariotes. Ele é um dos cidadãos mais exemplares de Cristolândia. Foi Judas inclusive que me alertou sobre a rebeldia de Bartolomeu.
- O que acontece com aqueles que se rebelam contra as normas da cidade?
- Em primeiro lugar, logo que uma pessoa começa a ser seduzida por doutrinas estranhas e começa a se desenvolver em seu interior o gérmen peçonhento da rebeldia, ela é transportada miraculosamente ao calabouço para ter uma visão do lugar terrível para o qual será mandada, caso não abandone a sua rebeldia e impiedade.
- Depois dessa visão, se não mudam, o que acontece com elas?
- São enviadas para o calabouço. Não as expulsamos porque tememos que elas falem mal de Cristolândia em outros lugares e impeçam muitos cristãos de virem para cá. Como são rebeldes e enganadores, preferimos mantê-los afastados de todos. Não só dos atuais, mas principalmente dos futuros moradores de nossa cidade.
Após as instruções do governador Balaão, dirigi-me ao endereço indicado. No caminho, para a minha surpresa, não encontrei nenhuma igreja. Apenas bares, restaurantes, cassinos, teatros, boates e circos. Quando cheguei, deparei-me com um tumulto na casa ao lado. Era o Bartolomeu que estava sendo levado pela polícia ao calabouço. Certamente, sua rebeldia fora confirmada. Logo que me aproximei da porta de minha casa, um senhor veio em minha direção e saudou-me com uma voz gentil.
- Olá você deve ser o mais novo morador de Cristolândia. Meu nome é Judas Iscariotes. Minha casa fica ao lado da sua e coloco-me à disposição para ajudá-lo naquilo que você precisar.
- Agradecido. Diga-me por que esse homem está sendo preso?
- O Bartolomeu? Ah! sim, ele é um rebelde, não se sujeita às normas de Cristolândia. Além disso, tem divulgado heresias malignas em nossa cidade, pervertendo a fé dos fiéis.
- E quais as heresias divulgadas por ele?
- Ele ensina que os cristãos devem tomar sua cruz para seguirem a Cristo. Que blasfêmia, se Cristo já levou a nossa cruz. Como você pode ver, a sua doutrina perniciosa representa uma anulação do sacrifício do Messias. Afinal de contas, não foi para nos livrar da dor que ele morreu?
- Que outra heresia ele divulga?
- Ele incentiva os cristãos a cometerem sacrilégio, ensinando uma forma completamente estranha de se cultuar a Deus. Imagine que ele chegou ao cúmulo de afirmar que os crentes devem ir à igreja todos os dias e não apenas uma vez por ano como determinam as leis de Cristolândia e o nosso amado governador Balaão. Com sua doutrina dos demônios ele transforma o sagrado culto ao Senhor em um ritual banal e rotineiro. Em momentos mais exaltados de sua pregação ele chega a declarar que aqueles que vão à igreja apenas uma vez por ano estão seguindo a doutrina do Anticristo. Veja até aonde tem chegado a sua impiedade: comparar o nosso querido Balaão, o ungido do Senhor, com o “Coisa ruim”.
- E quanto tempo ele ficará no calabouço?
- Como ele é acusado de muitos crimes, é possível que seja sentenciado à prisão perpétua.
Depois dessa conversa inicial, despedi-me de Judas Iscariotes e entrei em minha nova residência. O dia já estava amanhecendo, mas como estava bastante cansado da viagem, deitei e dormi profundamente. Não sei precisar quanto tempo fiquei em Cristolândia, afinal de conta, no sonho, as noções de tempo são bastante confusas. Mas o fato é que logo comecei a perceber que havia algo estranho naquele lugar. Embora fosse uma cidade cristã, na única igreja existente, havia culto apenas uma vez por ano. Também estranhei quando passei a conhecer os habitantes. Ali não encontrei os apóstolos, os presbíteros ou os padres da igreja. Para a minha perplexidade, nomes como Pedro, João, Paulo, Barnabé, Inácio, Policarpo e Justino não moravam em Cristolândia. Os cidadãos de Cristolândia eram pessoas do tipo: Judas Iscariotes, Ananias, Safira, Evódia, Síntique, Diótrefes, Demas, Simão, o mágico, Elimas, os filhos de Cevas, etc. Além disso, o comportamento dos cristolandianos era totalmente oposto ao padrão das Escrituras. Eram invejosos, mentirosos, intemperantes, orgulhosos e dissimulados e obscenos. O mais absurdo é que aqueles que mais se destacavam na prática desses vícios, eram considerados os mais ilustres discípulos de Cristo.
Comecei a me sentir um estranho naquele lugar e passei a viver isolado. Saía apenas para comprar alimento na mercearia de Ananias e Safira. Quando saía, os vizinhos olhavam para mim com um ar de desprezo e falavam palavras sussurradas. Na certa estavam comentando o meu comportamento anti-social. Certa dose de arrependimento começou a se apoderar de mim. Não seria melhor ter ficado em Roma e ter enfrentado a perseguição por amor Cristo? Essa dúvida começou perturbar minha paz. Já não considerava uma decisão sábia ter-me refugiado em Crsitolândia. Considerava-me, como Judas, um traidor do Cristianismo.
Quando chegou o dia do culto anual, a princípio fiquei bastante feliz, pois ia entrar em uma igreja depois de um longo período em Cristolândia. No entanto, pensando no tipo de culto que seria realizado, senti a decepção invadindo meu ser e entreguei-me novamente ao meu remorso. Já havia decidido que não iria à igreja, quando ouvi alguém batendo a porta. Demorei um pouco, mas como o visitante insistia, resolvi atendê-lo. Era Judas Iscariotes. Antes que eu o convidasse, ele entrou em minha residência e perguntou-me:
- Você não vai para o culto anual?
Pensei em dizer que não iria, mas, de repente, fui assaltado por uma curiosidade em relação ao tal culto e afirmei que iria.
- Vou sim, deixe-me apenas pegar a minha Bíblia e iremos juntos.
- Não precisa de Bíblia. O nosso pastor fala inspirado pelo Senhor, de modo que a sua mensagem é a própria Palavra de Deus.
Embora isso me parecesse estranho, segui a orientação de Judas e nos dirigimos juntos à igreja. Estranhamente, o local era um prédio moderno de cinco andares, como se uma construção do século XXI tivesse caído naquela cidadezinha patrística. Em frente havia uma gigantesca placa luminosa indicando: IGREJA EVANGÉLICA DE LAODICÉIA. Abaixo do nome havia o seguinte versículo bíblico: “Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo”. Entramos e fomos imediatamente ao salão onde o culto seria realizado. Embora já estivesse no horário de início da programação o lugar ainda estava vazio. Era um auditório amplo com um espaço reservado para fumantes. No lado esquerdo estava o banheiro feminino, no lado direito, o masculino e no fundo um banheiro exclusivo para homossexuais.
- A programação não deveria começar às 19:00h? Indaguei ao meu acompanhante.
- Percebe-se que você ainda é novato em Cristolândia. Com um tempo você vai aprender que aqui não somos escravos do relógio. Marcamos um compromisso para um determinado horário, mas se não for possível chegar no horário marcado, não nos afligimos com isso. Venha, vamos nos divertir um pouco até que a programação comece.
- Como assim se divertir?
- Você também vai aprender que o culto ao Senhor não precisa ser aquele ritual sombrio que muitas pessoas praticam. Deus nos chamou para a alegria meu irmão, e não para o sofrimento.
- Aonde vamos exatamente?
- Vamos ao cassino do pastor Viciato jogar uma partida de cartas.
- Não aprecio jogo de cartas.
- Tudo bem, então vamos ao bar do irmão Ebrion tomar uma bebida qualquer.
- Não bebo.
- Que tal dançarmos um pouco na boate da irmã Jezabel?
- Prefiro ficar aqui e aguardar o início do culto.
- Tudo bem, mas vou logo lhe avisando que o culto não tem horário certo para começar.
Judas Iscariotes me olhou com certo desprezo antes de me deixar sozinho no local do culto. Passaram-se duas horas e ninguém apareceu para o culto. Somente por volta das 21:00h os fiéis começaram a chegar. O pastor Viciato, que dirigiria o culto naquela noite, chegou cerca de trinta minutos depois. Entrou contando um maço de dinheiro. Provavelmente, o lucro que obtivera em seu cassino naquela noite. Seus passos cambaleantes denunciavam o seu estado de embriaguez. Deu boa noite aos irmãos e disse com uma voz arrastada:
- Amados irmãos, vamos dar início ao nosso espetáculo, quero dizer, ao nosso culto.
A programação iniciou-se com a apresentação de um grupo de coreografia, na seqüência vários cantores apresentaram músicas. No intervalo das músicas, palhaços e comediantes faziam números para divertir a platéia. Estava chocado com aquele culto absurdo. Na verdade, aquela paródia indecente nem poderia ser chamada de culto. Era uma blasfêmia, um insulto ao nome de Cristo. Quando o dirigente anunciou que um ilusionista faria um número sobre a ressurreição de Cristo, não contive a minha revolta e me retirei daquele lugar.

Quando ultrapassei a porta da igreja, estranhamente, não estava do lado de fora do prédio, e sim em um lugar sombrio repleto de grades que lembrava uma prisão. Foi então que percebi que tinha sido transportado ao calabouço, a prisão daqueles que contrariavam as leis de Cristolândia. O lugar era relativamente pequeno, mesmo assim, os presos eram colocados em celas individuais. Tomado de curiosidade, resolvi perguntar a identidade daqueles presos e a acusação que pesava sobre cada um deles. Dirigi-me ao primeiro e perguntei:
- Qual o seu nome?
- Abraão. Afirmou aquele ancião com uma voz cansada.
- E que crime tão grave o senhor cometeu para ser mandado para esse lugar de sofrimentos?
- Fui acusado de ser um homem de fé. Um dia o Senhor pediu para que eu provasse a minha fé oferecendo-lhe meu filho Isaque em holocausto. Segui com Isaque ao local determinado por Deus para o sacrifício, mas, antes que chegasse, fui preso pelos soldados do governador Balaão e mandado para esse lugar. Fui condenado com a prisão perpétua, já que aqui em Cristolândia, o homem de fé inabalável é considerado o pior de todos os hereges.
Antes que eu continuasse a conversa, já me encontrava na cela seguinte, como se uma força desconhecida me impulsionasse a sair daquele lugar. Sem perder tempo, procurei saber a identidade do preso seguinte:
- Qual o seu nome, meu senhor?
- Meu nome é Pedro. Por muito tempo fui o pastor da Igreja Evangélica de Jerusalém.
- Mas o que um pastor está fazendo preso em uma cidade que é regida por princípios cristãos?
- Parece ironia, mais fui sentenciado a cinqüenta anos de prisão.
- Que crime você cometeu?
- Como lhe disse, era o pastor da Igreja Evangélica de Jerusalém. Vivia sob relativa paz dirigindo minha congregação, até o dia em que o governador Balaão baixou um decreto em Cristolândia. O decreto afetava drasticamente o conteúdo das pregações. Uma noite, depois de pregar sobre o juízo vindouro de Cristo, fui acusado de violar o decreto do governador e fui mandado para esse lugar de tormento.
- Qual exatamente o conteúdo do decreto promulgado pelo governador Balaão?
O pastor Pedro retirou de seus objetos pessoais um papiro amarelado – era o referido decreto. Depois de um momento de reflexão, disse:
- Permita-me que eu leia para você o documento na íntegra.
- Por favor!
- “
Eu, Balaão Usuratus, governador em Cristolândia, decreto que a partir dessa data o conteúdo das pregações públicas deve seguir o que preceitua a legislação abaixo:
Artigo 1: Estão vedadas as pregações cujo teor esteja relacionado à condenação, pecado, inferno, arrependimento, temas tão contrários à dignidade do homem e à bondade divina.
Artigo 2: A palavra pecado será substituída por expressões mais atualizadas e menos ofensivas como: trauma, complexo, baixa estima, desvio moral, incapacidade, fraqueza espiritual, etc.
Artigo 3: Ficam proibidas as pregações públicas que ultrapassem o tempo limite de dez minutos.
Artigo 4: Os cultos, que passarão a ser anuais, deverão apresentar sempre uma programação diversa, reservando-se o menor tempo para a pregação.
Artigo 5: Nenhuma nova igreja poderá ser iniciada sem que observe rigorosamente os princípios desse decreto.
Artigo 6: É vedado aos pastores o estudo bíblico que ultrapasse o limite de vinte minutos diários. Para os fiéis, esse tempo será reduzido a dez minutos.
Artigo 7: A igreja que não pagar ao governador Balaão a taxa exigida, terá as suas atividades suspensas.
Artigo 8: Nenhum culto poderá ser realizado no domingo. A partir dessa data, esse deve ser o dia em que todos os cidadãos de Cristolândia devem se divertir e descansar.
Artigo 9: As igrejas que não estiverem de acordo com aquilo que determina o CEC – Conselho de Engenharia de Cristolândia, terão as suas atividades suspensas. Dentre outras exigências, elas devem ter salões com espaço reservado para fumantes, banheiros para ambos os sexos (masculino, feminino e homossexual), além de área onde possam ser instalados bares, cassinos, restaurantes, boates, piscinas, quadras de esportes, etc.
Artigo 10: Aquele que não cumprir esse decreto será considerado blasfemo, traidor do evangelho, falso profeta, um profanador da Palavra de Deus a quem são destinados os flagelos do Apocalipse e de que será retirada a parte da árvore da vida. Esse rebelde será enviado ao calabouço onde cumprirá a pena mínima de cinqüenta anos de detenção.

Não tive tempo de perguntar mais nada sobre aquele estranho decreto, pois, sem que percebesse, fui conduzido à cela seguinte. O preso aparentava ter um problema de visão, mesmo assim, lia um grosso pergaminho. Aproximei-me e indaguei a sua identidade:
- Qual o seu nome meu senhor?
- Sou o pastor Paulo de Tarso
- Que crime você cometeu?
- Fui acusado de violar o decreto do governador Balaão.
- Mais uma vez esse decreto. Que artigo específico do decreto você violou?
- Um dia eu estava pregando em minha igreja e estendi a minha mensagem até a meia noite. Quando terminei, os guardas já estavam me aguardando. Prenderam-me e trouxeram-me para cá.
Continuei visitando cada uma das celas. Como sempre, as visitas eram breves, pois, sempre que terminava os questionários iniciais, era conduzido por uma força estranha à cela seguinte. No calabouço encontrei nomes como: João, Barnabé, Timóteo, Silas, Tiago, André, Filipe e Bartolomeu. Quando cheguei à última cela, perguntei ao prisioneiro:
- Qual o seu nome?
- Você não me reconhece? Eu sou você.
Tomei um choque e quase fiquei paralisado quando percebi a semelhança entre aquele homem e eu. Estranhamente, era eu mesmo naquela cela.
- Como isso é possível?
- Eu sou você daqui algumas horas.
- E que crime você, quero dizer, nós cometemos?
- Fomos acusados de assassinato.
- Mas quem exatamente nós matamos, quero dizer, mataremos?
Antes que ele me respondesse, despertei do meu sonho. Minha esposa balançava o meu corpo tentando me acordar. Quando conseguiu me despertar, perguntou:
- Tudo bem com você Gregório?
- Acho que sim. O que aconteceu?
- Acho que você estava tendo um pesadelo, pois gritava repetidamente que mataria um tal de governador Balaão.









Postado por J. Marques