quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Spurgeon e Sua Conversão

Apesar de ter ouvido desde criança o plano da salvação pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz do Calvário, e de ter lido muitos livros de excelentes escritores puritanos, Spurgeon ainda não tinha nascido de novo. A luz do evangelho estava lá em seu coração, mas permanecia tão cego que não podia vê-la.

Sem dúvida alguma, os familiares de Spurgeon foram os primeiros a lançar a boa semente em seu coração, em especial sua querida mãe, pois além de instruir seus filhos no caminho do Senhor, ela orava pela salvação dos mesmos. Uma destas muitas orações que fazia pelos seus filhos, o próprio Charles Spurgeon lembra em particular de uma, que lhe penetrou a consciência e moveu seu coração, e da qual, segundo ele, nunca esqueceria até mesmo quando os cabelos se tornassem brancos. Sua oração foi assim: “Ah, Senhor, se os meus filhos permanecerem em seus pecados, não será por falta de conhecimento que perecerão; e se eles não se entregarem a Ti, minha alma de pronto testificará contra eles no dia do julgamento”.[1]
Seguramente, foi necessário que o Senhor mesmo interviesse e desvendasse a mensagem do Evangelho para ele. E foi exatamente isso que o Senhor Jesus fez, quando Charles tinha 15 anos e meio, no dia 6 de janeiro de 1850, enquanto fazia uma visita em Colchester. Ele testifica como isto aconteceu em sua vida:

Quando estava preocupado com minha alma, resolvi que iria a todos os lugares de adoração na cidade onde vivia, para que pudesse encontrar o caminho da salvação. Estava disposto a fazer qualquer coisa, e ser qualquer coisa, se Deus tão somente perdoasse meu pecado. Fui a todas as capelas, e a todo lugar de adoração; mas por um longo tempo foi tudo em vão. Não culpo, no entanto, os pastores [...]. Posso honestamente dizer que não houve uma só vez que fui sem orar a Deus, e tenho certeza que não havia um ouvinte mais atento em todos aqueles lugares que eu, pois almejava e desejava saber como poderia ser salvo. Às vezes fico pensando que poderia estar nas trevas e no desespero até agora, se não tivesse sido a bondade de Deus ao enviar uma nevasca, no domingo de manhã, enquanto estava indo a certo lugar de oração. Quando não pude mais ir adiante, desci a rua ao lado e cheguei a uma pequena capela Metodista primitiva. Naquela capela deveria haver uma dúzia ou quinze pessoas […]. O pastor não tinha vindo àquela manhã; suponho tenha sido a nevasca. Porém, um homem de aparência muito magra, um sapateiro, ou alfaiate, ou qualquer coisa desse tipo, subiu ao púlpito a fim de pregar. Tá certo que os pregadores devem ser instruídos, mas este homem realmente não o era [...]. O texto era: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.”
[2] [...] Depois que tinha pregado pouco mais de dez minutos, já estava no fim da sua pregação, quando olhou para mim sob a galeria [...], fixou seus olhos em mim como se conhecesse todo o meu coração, e disse: “Jovem, você parece tão miserável!”. Bem, eu parecia; mas não estava acostumado a ouvir estas declarações de púlpito sobre minha aparência pessoal antes. No entanto, foi um bom sopro que derrubou a casa. Ele continuou: “e você sempre será miserável – miserável na vida, e miserável na morte, se você não obedecer a meu texto; mas se você obedecer-lhe agora, neste momento, você será salvo”. Então, erguendo as mãos, bradou como só um metodista primitivo pode fazer: “Jovem, olhe para Jesus Cristo! Olhe! Olhe! Olhe! Você não tem nada a fazer senão olhar e viver!”. Eu vi de uma vez o caminho da salvação. Não recordo de mais nada que aquele homem simples disse, pois fiquei tomado com aquele pensamento. Como quando a serpente de bronze foi levantada, e o povo somente olhava e ficava curado, assim foi comigo. Eu estava esperando fazer cinqüenta coisas, mas quando eu ouvi aquela palavra “Olhe!”, que palavra fascinante ela pareceu a mim. Oh! Eu olhei até quase não poder tirar os olhos! Então a nuvem se foi, as trevas foram retiradas, e naquele momento eu vi o Sol.[3]

Anos mais tarde Spurgeon expressaria sua gratidão a Deus, não somente pelos bons livros que havia lido, mas principalmente por aquele homem que nunca tinha recebido qualquer treinamento para o ministério, que estava nos seus afazeres durante a semana, mas que não se intimidou ante aquele desafio de substituir o seu pastor naquela manhã de domingo. Ele declarou: “Os livros foram bons, mas o homem foi melhor”.
[4]

Em carta, escrita de Newmarket ao seu querido pai, em 30 de janeiro de 1850, pouco depois de sua conversão, Spurgeon fala da alegria de ser salvo pelo Senhor Jesus, da comunhão que gozava com Ele através da oração e da leitura de Sua palavra e da certeza de que aquilo que foi implantado em seu ser, não viera de si mesmo, mas do Espírito Santo.

Ele abriu os meus olhos! Agora O vejo, posso firmemente crer nEle para minha salvação eterna.[...] Quão doce é a oração! Ficaria sempre engajado nela. Quão maravilhosa é a Bíblia! Nunca a amei tanto antes; ela é para mim como alimento indispensável. Sinto que não tenho qualquer partícula de vida espiritual em mim, salvo a que foi posta pelo Espírito. Sinto que não posso viver se Ele partir. Tremo e temo em entristecê-Lo. Temo que a indolência ou o orgulho me vençam, e assim, desonre o evangelho pela negligência da oração, da leitura das Escrituras, ou em pecar contra Deus.
[5]


[1] C.H. Spurgeon’s Autobiography, vol 1, p. 71.
[2] Isaías 45:22
[3] C.H. Spurgeon’s Autobiography, vol 1, pp. 112-114.
[4] Ibid., p. 113.
[5] Ibid., p. 123.
Postado por Elias Lima

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Orando Com Fé!

INTRODUÇÃO

Atualmente são ouvidos os nítidos gritos dos pregadores do evangelho da prosperidade, alegando que muitas pessoas ainda não estão rodeadas de bens porque não têm orado com fé. Para eles a oração com fé é a garantia irrefragável de que tudo o que uma pessoa pede a Deus há de receber. Chegam ainda a dizer que a maioria das enfermidades é resultado da falta de fé.

Pode-se concordar com tudo isso ou o evangelho da prosperidade está sustentada em solo frágil? Na verdade a pergunta a se fazer neste ponto seria Jesus em algum momento de sua vida ensinou acerca disso em discurso direto ou mesmo em alguma situação que tenha passado em sua vida? Quando Cristo falou sobre a relação entre oração e fé foi semelhante ao que é pregado pela prosperidade?

Não há espaço aqui para tratar todos os textos dos quais podem ser tiradas algumas lições acerca do assunto em pauta. Porém, quando se trata da relação entre oração e fé um texto se apresenta de forma brilhante. A narrativa feita pelo evangelista Mateus do diálogo entre Jesus e a mulher cananéia, como tem sido conhecida, apresenta um conceito bem interessante sobre a relação entre oração e fé. Este texto, portanto, pode responder os questionamentos supracitados.


TEXTO BÍBLICO - Mateus 15:21-28

Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada. Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: Despede-a, pois vem clamando atrás de nós. Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me! Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.

Deve haver neste ponto um espaço para a elucidação do texto. Alguém poderia questionar se este texto está realmente falando ou ensinando sobre oração. É certo que o texto fala de fé, e segundo a avaliação do próprio Cristo esta era uma fé grande. Deve-se também desde já ser declarado que não é o propósito do presente artigo expor exaustivamente o texto, mas simplesmente ao ponto de responder os questionamentos feitos no inicio.

A oração é, segundo o conceito bíblico geral, dirigir-se a Deus como um ato de adoração confiando a Ele as necessidades. Não é encontrada no texto em questão a palavra oração, contudo, a idéia, conforme anteriormente definida, é expressamente percebida na atitude da mulher cananéia dirigindo-se veementemente a Cristo, confiando a Ele as suas necessidades e expressando tamanha fé, ao ponto de despertar a admiração do próprio Cristo.

Não há a princípio uma base gramatical para afirmar que o texto aqui se trata de oração. Contudo, também não há necessidade de muito esforço para entender que o texto relata qualificadamente um ato de oração, além disso, deve-se admitir pela leitura do texto que a atitude da mulher cananéia em relação a Cristo é definidamente a atitude de alguém que dirige-se a Deus confiando-lhe suas necessidades, e isto é oração.

Alguém ainda poderia questionar o fato da mulher não ter um relacionamento genuíno com Deus por não pertencer à nação de Israel, “ao povo de Deus”, e, portanto, seu clamor não ser uma oração, pois, segundo o ensino bíblico Deus não ouve a pecadores. Contudo, em relação a isto, alguns fatos precisam ser considerados.

Primeiramente, o fato de uma pessoa não pertencer genuinamente ao povo de Deus não exclui a possibilidade dela orar, aqui não entra em mérito a questão de Deus ouvir ou não, mas a possibilidade da pessoa orar. Quando Deus não ouve (atende) não é porque a pessoa na orou, ou clamou, mas é porque alguma coisa está impedindo que Deus a atenda, no caso, a santidade de Deus repugnando o pecado, e isto, tanto em relação a uma pessoa que não é do povo de Deus, como também em relação a uma pessoa do povo de Deus que está vivendo no erro. Muito ainda poderia ser dito acerca disto, tal como o fato de que é inerente à natureza humana clamar, mesmo sem um íntimo conhecimento, ao Deus que a criou, além de outras questões que o tempo e o propósito não permitem mencionar e analisar.

Em segundo lugar, o texto fornece base suficiente para concluir que aquela mulher mesmo não sendo israelita era da nação escolhida, pois acreditava na pessoa de Jesus como o Messias. Ela usa a expressão “Filho de Davi” quando clama, e isto indica que de alguma forma ela acreditava e esperava o cumprimento da promessa messiânica feita a Davi. Além disso, em todas as vezes que ela dirige-se a Cristo usa o título “Senhor” que no entendimento do povo que esperava o cumprimento das promessas messiânicas referia-se a Deus ou Jeová. Crer no Messias, na Bíblia é sinônimo de salvação. Quando Jesus diz “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” está falando sobre sua missão imediata, e não sobre a possibilidade da mulher ter ou não um relacionamento de salvação com Deus através do Messias. Talvez alguém possa argumentar que isto é forçar o texto a dizer algo que não é, mas muitos dos leitores deste artigo devem admitir que não são da casa de Israel, contudo, são salvos.

Todos estes fatos revelam que o clamor da mulher constitui-se numa oração dirigida a Deus na pessoa de Jesus Cristo. Mesmo que o escritor bíblico queira enfatizar o desespero da mulher com a expressão “clamava”, que traz a idéia de um grito movido pelo desespero frente a uma profunda necessidade, a maneira como ela dirige-se a Cristo indica um ato de oração.

Porém, repetidos clamores, submissão ao senhorio de Cristo, e a grande fé da mulher, segundo o texto não garantiu que ela imediatamente fosse atendida, nem tão pouco, que recebesse algo além de suas necessidades. Por maior que foi a sua fé, ela não conseguiu manipular a Cristo. E isto responde às colocações feitas inicialmente, de que a oração com fé não é a garantia de que a pessoa estará rodeada de bens, ou prosperará indefinidamente. Na verdade os pregadores da prosperidade têm afirmado estes absurdos por causa da má compreensão da definição de fé que eles têm. Segundo o autor de Hebreus “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem”, um pouco mais à frente ele diz que “sem fé é impossível agradar a Deus”, e no mesmo verso ele mostra o motivo “porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”. Diante destas declarações pode-se dizer que a fé é a certeza de que Deus pode fazer o que é impossível, trazendo aquilo que não é, e mostrando aquilo que não se vê. Não é por outro lado a certeza de que a pessoa pode realizar o irrealizável, mas somente Deus pode assim agir. Portanto orar com fé não é orar com a certeza de que se pode realizar determinada obra, mas com a certeza de que Deus pode agir favoravelmente. Contudo por maior que seja a fé, a decisão de ser favorável ainda é de Deus, pois, Deus não é manipulado pela fé, por mais intensa que ela seja.

Diante de tudo disso, uma pergunta deve ser feita para partir para o passo seguinte: quais são, na verdade, os benefícios da fé?


RECONHECENDO A FONTE DO SUPRIMENTO

Ao invés da fé levar a Deus a agir de determinada forma, leva a pessoa que exerce a fé a tomar algumas atitudes. Como já foi dito a fé não manipula a Deus, mas leva a própria pessoa a tomar atitudes importantes e necessárias na oração. Uma dessas atitudes é reconhecer que a única fonte que supre as suas necessidades por mais profundas que sejam é Deus. Jesus admite que a fé daquele mulher era grande exatamente pelo fato de que em momento algum ela duvidou que estivesse clamando à pessoa errada.

O texto mostra claramente que a mulher reconhece que Cristo é o Senhor, aquele que é e que mantém a existência de todas as coisas. Ela dentro da comparação que Cristo faz chama a si mesma de Cachorrinho, demonstrando que tem necessidades que não podem ser supridas por sua própria capacidade, e neste ponto a sua fé mostrou a ela mesma como era incapaz de resolver seus próprios problemas. Por fim ela não para de pedir, porque vê em Cristo o único que pode suprir suas necessidades que de tão profundas levaram-na a gritar. Tudo isto ela fez porque era grande a sua fé.

A lição que pode ser tirada deste ponto é que a oração com fé leva o homem a reconhecer que Deus é o único que pode realizar o que humanamente é impossível, que somente Deus é a fonte do suprimento de toda e qualquer necessidade, e que Deus é “Tudo” e o homem é nada, Deus é forte e o homem é fraco, Deus é Todo Poderoso e o homem é tão impotente qual um cachorrinho indefeso.


PERSEVERANDO FRENTE AO DESESTÍMULO

Outro benefício da fé na oração é levar a pessoa a perseverar frente aos desestímulos. Jesus admira a fé da mulher cananéia também pelo fato dela ter perseverado no seu clamor mesmo diante de suas desencorajadoras colocações. Primeiramente, diante do clamor que exaltava a sua pessoa, Jesus guardou silencio, talvez para mostrar que se ela desistisse após pedir uma única vez, não era verdadeira a expressão de louvor que saiu de seus lábios. Fé pequena e coração endurecido levam as pessoas a desistirem de clamar por suas necessidades. Quando a pessoa desiste mostra que tudo o que ela fez durante a primeira tentativa era apenas um ato de hipocrisia e não uma demonstração de fé. Se a mulher tivesse desistido frente ao silêncio de Cristo, se constataria que o louvor acompanhado do clamor não era verdadeiro. Em segundo lugar Ele diz “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, isto já seria motivo suficiente para uma pessoa de fé minúscula interromper o seu clamor, o que não foi o caso com a mulher cananéia. Muito pode ser dito acerca desta sua atitude, mas para o propósito fica em foco o fato dela não ter desistido mesmo ouvindo o que não queria ouvir, mas adorou a Cristo. Por fim, Jesus ainda diz “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”, ao que a mulher acha resposta. Jesus já sabia da grandeza da fé dela , mas faz estas provas para que ela revelasse o quanto confiava no poder de Deus e nele esperava sem desistir.

As coisas não param por aí, no meio do que Cristo falou também aparecem no cenário os discípulos, que querendo livrar-se dos importunos clamores da mulher mandam Cristo despedi-la. Contudo mesmo diante disto ela não desistiu. A aplicação destes fatos fica por conta, é claro, de cada leitor, mas o principio é que aquele que ora com fé não desiste, porém, persevera frente ao desestímulo.


RECEBENDO O SUFICIENTE PARA AS NECESSIDADES

O terceiro e último beneficio da oração com fé é reconhecer que o aquilo que Deus dá é suficiente para suprir as necessidades, por mais profundas que sejam. No diálogo com Jesus a mulher reconhece que aquilo que o Senhor desse, mesmo que fossem as migalhas, para ela era suficiente. Ela não está depreciando o que Deus dá, quando denomina de migalhas. Pelo contrário, visto que ela reconhecia estar na posição de um cachorrinho, as migalhas eram tudo do que ela precisava. É logo em seguida à declaração de que as migalhas lhes seriam suficientes que Jesus elogia a intensidade de sua fé.

A grandeza da fé não estar em viver rodeado de bens, mas em viver com todas as necessidades supridas. As pessoas que oram com fé reconhecendo que mesmo o pouco é suficiente para suas necessidades, e por isso pedem o pouco, terão tudo o que necessitam. Muitos bens não é sinal de muita fé, e sim muitas necessidades supridas.


CONCLUSÃO

Finalmente, orar com fé é levar a si mesmo a confiar indefinidamente no poder e na bondade de Deus, reconhecendo-O como única fonte de seu suprimento, perseverando frente ao desestímulo, e reconhecendo que o que recebe é suficiente para o suprimento de todas as necessidades. Ore com fé e leve-se para mais perto de Deus.
J. S. Figueiredo

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Bem-aventurados os misericordiosos

Você tem guardado mágoa de alguém? Que nota você daria para sua capacidade de perdoar os outros? Gostaria de convidá-lo para meditar sobre este tema- o perdão.
No ensino do Sermão do monte, Jesus disse em sua quinta bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mt.5:7)
Idéia: Precisamos exercer misericórdia para sermos realmente felizes.
Por que precisamos exercer misericórdia?

I- Precisamos exercer misericórdia porque já recebemos misericórdia de Deus.

A. A parábola do credor incompassivo ( Mt.18).

Depois da pergunta de Pedro, Jesus o surpreende com um número “absurdo” 70X7=490. Para mostrar a Pedro que aquilo não era muito à vista da misericórdia de Deus, Jesus conta a parábola. “Certo rei resolveu ajustar contas com seus servos. Um deles devia a soma astronômica de dez mil talentos, uma soma tão absurda que uma vida inteira de trabalho não seria suficiente para pagar. Ordenou-se que o devedor fosse vendido com a família a fim de saldar pelo menos parte da dívida. Então, o devedor rogou por misericórdia, pedindo um tempo para pagar. Mais que isso, o seu senhor perdoou-lhe a dívida. O devedor, porém, lembrou-se de que outro servo lhe o, exigiu devia uma pequena soma de 100 denários. Agarrou-o e, quase o estrangulando, pediu que lhe pagasse a dívida. O pobre homem caiu aos seus pés, implorando paciência e garantindo que pagaria a dívida integralmente. Ele, porém, colocou aquele pobre homem na prisão. Quando o rei descobriu o que aquele servo devedor fizera, mandou chamá-lo. Então lhe disse: servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, ter misericórdia (compadecer-te) do teu conservo como eu me compadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos até que lhe pagasse toda dívida. Só para você ter uma idéia, um talento era equivalente a 6.000 denários, e um denário era o valor da diária de um trabalhador. Note então a diferença: Aquele que foi perdoado da dívida de 60.000.000 denários não perdoou uma dívida de 100 denários.

B. Aplicando: Você já experimentou a misericórdia de Deus? Sua conta com ele já foi perdoada? Então negar perdão ao seu próximo é esquecer da misericórdia alcançada. A ofensa que você sofrer não chega nem perto daquela que você cometeu e comete contra Deus. Contudo, o Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno (Sl.103:8). O refrão do Salmo 136 repete 26 vezes:”Porque a sua misericórdia dura para sempre.”
Na oração que Jesus ensinou aos discípulos, o pedido de perdão a Deus é colocado paralelamente ao perdão concedido a um devedor. Aquele que perdoa é quem melhor aprecia o perdão divino. Conseqüentemente, quem experimenta o perdão divino não achará um fardo grande perdoar alguém tantas vezes for necessário. Note que nesta oração o perdão não é ordenado, mas colocado como uma prática – como nós temos perdoado aos nossos devedores.

C. Exortanto os colossenses, o apóstolo Paulo diz:”Perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.” (Cl.3:13). Palavras semelhantes ele diz aos efésios: “Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmia, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou. Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef.4:31-32, 5:1). Como Deus teve misericórdia de nós, nos tornamos seus filhos e, como filhos, precisamos imitar o nosso Pai. Jesus imitava seu Pai. Na crucificação Ele disse: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).

Precisamos ser misericordiosos para sermos realmente felizes

II- Porque exercer misericórdia é nossa obrigação. (Lucas 17:3-11)

A. Mesma situação da parábola do credor incompassivo, porém com outra aplicação. Lucas registra a reação dos apóstolos, que foi pedir o aumento da fé a Jesus para perdoarem tantas vezes. Jesus, então, declara-lhes que não é preciso uma grande fé para deslocar uma planta e transplantá-la ao mar.

B. Jesus ordena o perdão (Vs.3,4). O exemplo é dado para mostrar que aquele que perdoa não está fazendo nada além do que é sua obrigação (vs.10). Ele não tem nenhum motivo para se gloriar. É um servo inútil.

C. A misericórdia de Deus é livre. Ele tem misericórdia de quem Ele quiser (Romanos 9:14-18), mas aquele que foi alcançado pela misericórdia de Deus tem a obrigação de ser misericordioso.

D. Aplicação: Não estamos dizendo que um ofensor mereça perdão, e sim que o ofendido tem a obrigação de perdoar assim como Deus o perdoou. Então, quando não somos misericordiosos, estamos deixando de fazer nossa obrigação. Somos menos do que servos inúteis. Que situação!

Precisamos ser misericordiosos para sermos realmente felizes

III-Porque exercer misericórdia é uma expressão de amor (Bom samaritano Lc.10:25-37)

A. Misericórdia aqui foi a ajuda prestada pelo samaritano a alguém que ele não conhecia. Toda a questão começou quando o intérprete da lei perguntou quem era o seu próximo. Isto porque o segundo princípio mais importante da lei era amar o próximo como a si mesmo. Quando o samaritano usou de misericórdia para com o viajante, ele estava mostrando amor ao seu próximo.

B. Exemplo de Jesus -Mateus 9:36 – “Compaixão”.
Jesus censurou a falta de misericórdia dos fariseus (Mt.23:23) “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas.” Estes homens podiam violar o sábado para tirar um boi ou uma ovelha que caiu num poço, mas repreendiam Jesus porque curava pessoas no sábado (Lc.14:1-6; Mt.12:9-14). Realmente a misericórdia deles passava longe.

C. Aplicação: Você tem tido esta compaixão pelos perdidos? E quanto aos necessitados? Quantas vezes você despediu alguém de mãos vazias, sendo que você podia ajudar?

A RECOMPENSA DOS MISERICORDIOSOS

A felicidade dos misericordiosos está no fato de que eles receberão misericórdia também. Na oração dominical, Jesus disse: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt.6:14-15)

CONCLUSÃO:

Conta-se a história de um professor de religião que pediu a seus alunos que levassem batatas e um saco plástico para a aula e escrevessem nas batatas o nome de cada pessoa de quem sentiam mágoas e ressentimentos. Uma batata para cada nome.

Pediu também para colocar dentro do saco plástico e guarda-lo na mochila, junto com seus livros e cadernos.
A tarefa consistia em levar as batatas a todos os lugares onde fossem, por tempo indeterminado, até que o professor os autorizasse a se livrar delas.

Naturalmente, elas foram apodrecendo. Além do peso, logo, também, o mal cheiro começou a incomodar os alunos, até o ponto em que não agüentaram mais.

-Professor, por favor, não dá mais. Podemos jogar esse lixo fora?
-Sim, podem jogar as batatas fora, mas, se junto com elas vocês também não jogarem fora toda a mágoa e ressentimentos que elas representam, o peso e o mau cheiro não sairá de seus corações.
Postado por José Roberto

quarta-feira, 30 de julho de 2008

POR QUE SOFREMOS?


INTRODUÇÃO

Quando nos deparamos com a dolorosa experiência do sofrimento, este é, sem dúvida, o último questionamento que vem às nossas mentes. Seja a dor física causada por uma enfermidade ou acidente, ou a dor emocional causada pela perda de um ente querido, o que menos queremos é refletir acerca deste assunto. Na maioria das vezes, procuramos encontrar um “bode expiatório”, no qual possamos lançar a culpa pela nossa dor. Deus é sempre o “bode expiatório” predileto das pessoas. “Por que Deus permite que eu passe por este sofrimento”? De uma forma mais filosófica, “como um Deus que é, ao mesmo tempo, sumamente bom e todo-poderoso, pode permitir o sofrimento de suas criaturas?” A aparente impossibilidade de responder a esse questionamento, tem levado alguns à negação da existência de Deus, desde os tempos antigos. Epicuro foi o primeiro a questionar a existência de Deus com base nesse argumento. O sofrimento, aliado a ausência de uma resposta que o justifique, tem levado muitas pessoas ao desespero. A esta altura, talvez o leitor desse artigo faça o seguinte questionamento: “E que sofrimento não conduz ao desespero”? Mesmo sendo difícil, é possível evitar o desespero diante do sofrimento. Em outras palavras, é possível manter o equilíbrio mesmo quando dói. Para isto, é necessário que compreendamos duas verdades básicas acerca do sofrimento.

1. QUEM É O CULPADO PELO NOSSO SOFRIMENTO?

A primeira coisa que precisamos entender é que Deus não é o culpado pelo nosso sofrimento. Um Deus bondoso, jamais poderia alegrar-se com a dor de suas criaturas. A não ser que queiramos acreditar em uma espécie de “deus-escorpião”, que sente prazer em cravar seu peçonhento ferrão em sua fêmea. A Bíblia nos ensina que Deus criou o homem para experimentar a felicidade perpétua, colocando-o em um lugar onde não existia o mal, o sofrimento e a dor. Entretanto, o homem decidiu voluntariamente renunciar a felicidade que Deus lhe propusera ao violar a determinação divina. Sendo assim, o homem é o responsável direto pelo seu próprio sofrimento, foi ele quem rejeitou a sua felicidade (ler Gênesis 3). Mas o que dizer das catástrofes naturais? Na verdade, a maioria das catástrofes naturais são causadas por homens particulares. A natureza reage de forma violenta contra os maus tratos que recebe desses homens. Aquelas catástrofes que não podem ser atribuídas a homens particulares, são atribuídas ao homem em geral por conta do seu pecado. O pecado de Adão, representante da humanidade, também trouxe conseqüências drásticas para o mundo natural, a sua transgressão também afetou o equilíbrio da perfeita natureza criada por Deus. Mas há uma última objeção a essa idéia: o que dizer do sofrimento enquanto um mecanismo divino para a punição dos homens? Na verdade, essa punição é a justiça de Deus em virtude dos atos pecaminosos do homem. Se não concebermos a idéia de um Deus que pune o culpado e inocenta o justo, seríamos também obrigados a suprimir a própria idéia de Deus e a idéia de justiça. Eliminar a idéia de justiça seria ir contra todos os grandes códigos éticos da história. Mas Deus não poderia administrar a sua justiça sem a necessidade do sofrimento? A resposta pode ser afirmativa. Deus poderia exercer sua justiça sem a necessidade do sofrimento em um mundo onde não existisse o pecado. O homem, em sua maldade, não aceita sem resistência a justiça de Deus, e esta tensão é a própria essência do sofrimento. Para usar as palavras de C. S. Lewis, “abdicar de uma vontade própria inflamada e intumescida por anos de usurpação, é um tipo de morte”. Em um mundo onde a vontade do homem pudesse se harmonizar com a divina, Deus poderia exercer sua justiça sem a necessidade de infligir nenhum sofrimento ao homem.

Portanto, é um equívoco atribuir todo o sofrimento humano a Deus, como se ele fosse o monstro malvado dos contos infantis que se diverte em atormentar as criancinhas inocentes. Na verdade, o sofrimento ou é causado pelo homem em sentido particular, ou pelo homem em geral. Os casos em que Deus causa o sofrimento do homem, é uma justa recompensa pelos seus atos.

2. POR QUE DEUS PERMITE O SOFRIMENTO?

Se Deus não é o responsável pelo sofrimento, por que Ele permite a sua existência? E ainda, por que pessoas aparentemente tão boas passam por sofrimentos tão terríveis? Para respondermos a estas perguntas podemos recorrer ao exemplo do apóstolo Paulo. Até mesmo o grande missionário cristão teve que se deparar com a dolorosa experiência do sofrimento (II Coríntios 12:7-10). Diante da sua dor, a qual ele denomina “espinho na carne”, em um primeiro momento, o apóstolo roga ao Senhor que o liberte de seu sofrimento. Não obstante, Deus faz com que Paulo entenda o propósito daquele sofrimento. Se um Deus justo e bom permite o sofrimento, é lógico pensar que ele tem um propósito para essa experiência dolorosa. No episódio do apóstolo é possível alistar pelo menos quatro propósitos divinos diante do sofrimento.

2.1. Para conservar sua humildade

Em primeiro lugar, Deus permitiu que Paulo vivenciasse aquele estado doloroso para conservar a sua humildade, para que ele não se ensoberbecesse. Conforme o relato bíblico, Paulo havia tido uma visão singular da glória divina. em suas palavras, ele havia sido arrebatado até o terceiro céu. A excelência do conhecimento do qual ele desfrutara poderia despertar a sua soberba, o apóstolo poderia se considerar o mais exaltado de todos os homens por ter experimentado essa magnífica revelação. Sabendo disso, Deus lhe concedeu um espinho na carne, um sofrimento para conservá-lo humilde.

Isto é válido ainda hoje. Deus permite o sofrimento na vida de muitas pessoas para que elas possam reconhecer a sua soberba. Soberba que está, principalmente, no ato de desprezar o autor da vida eterna e viver como se Ele não existisse. Deus deseja que sejamos humildes, reconhecendo a fragilidade de nossa existência e a necessidade de buscarmos e dependermos Dele.

2.2. Por causa da sua graça suficiente

Diz-se que um homem é justo se ele comete atos de justiça, que ele é amoroso porque pratica ações que expressam amor, que é gracioso porque é possível ver em suas ações traços que expressam essa virtude. Ou seja, não é possível atribuir ao homem nenhuma dessas virtudes sem que antes ele tenha praticado ações que possam comprová-las. Esse princípio não se aplica a Deus, uma vez que ele é justo-em-si, amororoso-em-si, gracioso-em-si. Para resumir em uma expressão, Ele é o todo-virtuoso-em-si. Isso significa que Deus é gracioso antes mesmo de praticar qualquer ato gracioso para com o homem, ou para com qualquer outro ser criado. Para ser ainda mais preciso, Ele é gracioso mesmo quando concede o contrário daquilo que o homem lhe pede. O grande problema é que muitos acreditam em uma falsa imagem de Deus: a imagem do deus-de-circo, o deus-palhaço que procura unicamente divertir a platéia, um deus que faz tudo para provocar o riso dos ouvintes. Para sustentar a histeria das gargalhadas, ele cede a todos os apelos do público. Guiados por essa imagem enganosa, muitos são levados a renunciar o em-si de Deus. Só conseguem associar a idéia do deus-bom ao recebimento de determinados benefícios. Elas são incapazes de contemplar o Deus que é, pois a imagem do Deus que dá lhes ofuscou a visibilidade espiritual. Na verdade, eles estão mais preocupados com a dádiva do que com o doador. Com isso, a graça suficiente transforma-se em graça providente.

O exemplo do apóstolo é singularmente instrutivo. Ele nos faz repensar o Deus-em-si, o Deus suficientemente gracioso, mesmo antes de nos conceder qualquer dádiva, ainda quando nos concede o contrário daquilo que lhe pedimos. Infelizmente, para muitos, a graça de Deus só é bastante quando aparece na companhia de um benefício visível, um benefício que possa despertar o riso.

2.3. Por causa do seu aperfeiçoamento

Deus permitiu o sofrimento do apóstolo visando o seu próprio aperfeiçoamento. Mas um Deus que nos aperfeiçoa por meio da dor, não é um Deus cruel, um sádico que se deleita com o sofrimento dos outros? Certamente, a análise desse questionamento demanda muito mais tempo em virtude de sua complexidade. Seja como for, a sua resposta é negativa. Lembremo-nos que Deus não é o responsável direto pelo sofrimento, além disso, a lição que ele tem a nos ensinar é superior ao próprio sofrimento. No exemplo de Paulo, o apóstolo aprendeu que a sua força estava em reconhecer a sua fraqueza. Ao reconhecer a sua fraqueza, ele percebe a necessidade de pôr sua dependência e confiança unicamente em Deus. Se Deus é bondoso como acreditamos e permite o sofrimento em nossas vidas, com certeza, ele tem uma lição bastante elevada a nos ensinar. Quando descobrirmos isto, a nossa reação diante do sofrimento será diferente.

Dentro da ética cristã, só se faz forte aquele que antes se faz fraco. Em outras palavras, o forte é aquele que reconhece a sua fraqueza. Quando pensamos em personagens bíblicos que possam tipificar a força e o poder, nos vêm à mente nomes como Davi, que destruiu o gigante Golias com sua funda, ou Sansão, aquele que matou mil filisteus com uma queixada de jumento. Dificilmente pensamos em José. O preferido de Jacó não foi um guerreiro poderoso, não afugentou exércitos inimigos, não há relatos que ele tenha enfrentado gigantes, ou destruído leões com as próprias mãos. Talvez a cena mais marcante que conservamos dele é aquela em que ele está fugindo com medo de uma única mulher. No entanto, esse frágil rapaz é uma expressão muito mais completa do homem forte. Davi não reconheceu a sua fraqueza e cometeu crimes terríveis, Sansão cometeu o mesmo erro e foi destruído. Mas José permaneceu firme porque reconheceu a sua fraqueza.

2.4. Por causa da sua felicidade

Deus permitiu que o apóstolo vivenciasse o sofrimento visando a sua felicidade, seu contentamento. Não seria contraditório associar a felicidade ao sofrimento? Se considerarmos que existem vários graus de prazeres, vários tipos de felicidade, a resposta é negativa. Há prazeres de duração permanente e prazeres de duração momentânea. Estes últimos são, quase sempre, falsos prazeres que, quando desfrutados, nos impedem de desfrutar prazeres superiores. O próprio Epicuro reconhecia esta verdade ao distinguir os prazeres em repouso dos prazeres em movimento. Para o filósofo grego, era necessário evitar os primeiros para desfrutar da segunda classe de prazeres. Para muitas pessoas, o sono das primeiras horas da manhã é algo extremamente prazeroso. Contudo, uma pessoa que foi aconselhada pelo médico a realizar caminhadas matinais, terá que abrir mão desse prazer em virtude de um prazer maior que é a sua saúde.

Entretanto, a questão nem sempre é tão simples como no exemplo acima. Há muitas pessoas que desejam desfrutar os prazeres inferiores. Quando a sua vontade não é satisfeita, elas sofrerão pela não satisfação desse anseio. Elas não conseguem perceber que a não satisfação de um determinado prazer, embora traga um sofrimento momentâneo, será o caminho para que ele desfrute de prazeres muito mais elevados. Fato que aumenta ainda mais o seu sofrimento. De um sofrimento momentâneo, Deus pode criar uma felicidade permanente. Foi reconhecendo esta verdade tão profunda que o apóstolo declarou: “pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas angústias”. Mas esta não é uma atitude masoquista da parte de Paulo? Seria, se a fonte da felicidade do apóstolo fosse o sofrimento. Entretanto, ele mesmo reconhece que a fonte da sua felicidade é o amor de Cristo. Ou seja, ele não se compraz com o sofrimento, mas no sofrimento. Esta é, sem dúvida, uma grande verdade: por mais contraditório que possa parecer, é possível ser feliz mesmo em meio ao sofrimento. Temos dificuldade de aceitar esta verdade porque a cultura do prazer, na qual vivemos, imprimiu em nós a falsa idéia de que a felicidade é a ausência de todo e qualquer sofrimento. Movidos por um hedonismo barato somos levados a conceber o estado de felicidade como uma antítese absoluta do sofrimento. Mas essa é uma questão que poderá ser desenvolvida em uma outra oportunidade.

CONCLUSÃO

Vivemos em um mundo onde o sofrimento é uma realidade. Mas temos um Deus bondoso, um Deus que age mesmo diante do sofrimento, podendo transformá-lo em bem para o homem. Infelizmente, o próprio bem também é um conceito que tem sido bastante deturpado. O fato é que precisamos confiar em Deus, confiar mesmo quando dói. Quando isto acontece, até podemos ser feridos pelo sofrimento, mas jamais seremos feridos pelo desespero.


* Nota: O leitor desse artigo perceberá sem maiores esforços que ele não apresenta um estudo detalhado sobre as várias modalidades de sofrimento existentes no mundo. Na verdade, o objetivo do autor era apenas fazer algumas considerações muito gerais sobre o assunto. Quem desejar uma discussão mais aprofundada sobre o tema, poderá consultar a obra O problema do sofrimento de C. S. Lewis, publicada pela editora Vida.
Postado por J. Marques

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Jonas, uma radiografia da igreja moderna (1ª Parte)

Jonas, uma radiografia da igreja moderna (1ª Parte)
Jonas 1

Ler Jonas é fazer uma bateria de exames na igreja cristã moderna. O herói do livro lembra bastante as histórias proféticas em 1 e 2 reis que enfocam Elias, Eliseu e outros, contudo deixa a desejar no aspecto da obediência que aqueles demonstraram. O gênero literário pode ser classificado como uma novela ou um conto. Não negamos, contudo, a veracidade e inspiração do livro; apenas cremos que o autor sagrado escolheu essa forma literária para registrar o fato histórico.
Jonas, filho de Amitai 1.1. é certamente uma referência ao profeta do século VIII do reino do norte, descrito de passagem em 2 R 14:25 como um profeta popular que, no contexto do pecado do rei israelita, proclama misericórdia divina e apoio para aquele reino, enquanto Amós nada tinha, exceto criticas, ao seu reinado.
O nome Jonas, filho de amitai, significa “pombo, filho da verdade”. Na bíblia hebraica, essa ave tem duas características: a. afugentada busca refúgio nas montanhas – Ez 7:16, Sl 55:6-8; b. geme e se lamenta quando atormentado – Naum 2:7; Is. 38:14; 59:11.
A história de Jonas começa com a ordem divina de pregar em um país que era considerado inimigo ferrenho de sua pátria. O herói foge para zelar sua honra e seu senso de patriotismo. Deus o encontra no meio de sua fuga e ensina que é impossível esconder-se dEle. A principal preocupação de Deus é com pessoas e não com o nome de um país que era tão mal quanto aquele que não o conhecia.
Deus valoriza a obediência mais que o culto. Em 2 Sm 15:22-23 diz que “obedecer é melhor que sacrificar”. Deus manda adorar, mas também como adorar. Por isso, de nada adianta sacrificar, adorar na igreja, prestar culto e cumprir os regulamentos da religião se o coração não tem disposição para obedecer verdadeiramente as demais ordens dEle.
A maioria dos crentes só obedece a Deus naquilo que não interfere em suas preferências. Se a ordem de Deus passa por cima dos seus interesses então logo descarta. Assim, é comum ver crentes que não vão ao culto porque não gostam “daquele” culto; ou porque já tem atividades demais na igreja ou ainda porque estão muito cansados; Porque não gostam desse ou daquele pastor; Alguns evangelizam somente um tipo de pessoa, pois julgam que outros não podem se converter ou até que não são merecedores da graça de Deus; enfim, há muitas formas de valorizar as preferências acima da ordem de Deus.
Deus deve ser obedecido não levando em consideração o gosto e preferências do homem pecador, mas porque Ele merece ser obedecido. A história de Jonas exemplifica essa verdade.

A descida para o mundo dos mortos.

A ordem divina surpreende o leitor e muito mais o profeta, pois era inédito proclamar uma mensagem ou denúncia a um povo estrangeiro fora das fronteiras israelitas. Jonas é chamado a levantar-se e clamar. Ele por sua vez levanta-se para fugir. Uma relutância típica dos profetas, como Jeremias (1:6) ou Moisés. O que difere dos outros é que sua fuga é da presença do Senhor.
Os profetas eram tidos como criados/mensageiros que deveriam estar na presença do seu senhor (cf. 1 Rs 17:1), Assim como os servos dos reis (e.g. Neemias 2:1-2). Dessa forma a fuga de Jonas é tão ofensiva a Deus.
Nínive e Társis são antípodas/contrastes geográficas. Nínive, a leste é mais tarde a nação que destruiria seu povo – as dez tribos do reino norte. Os assírios eram conhecidos por sua força e crueldade. É a representação do mal antitético à vontade de Deus. Társis ficava em alguma parte do oeste distante e é um lugar onde Javé não é conhecido (Is 66:19). Jonas vê Társis como um refúgio para além do domínio de Javé. Visto que Javé é o criador todo-poderoso, ele situa Társis nos confins do mundo, onde a morte e o caos começam. Para Jonas, Társis pode paradoxalmente representar um lugar agradável e seguro na borda da não-existência.
O narrador descreve a fuga do profeta como uma série de descidas – yarad. Ele desceu a Jope, ao navio e ao fundo do navio. Depois dormiu profundamente, que também tem raiz em yarad. Na sua oração ele descreve seu ingresso no mundo dos mortos – xeol – 2:2-9. A fuga de Jonas da presença de Javé é como uma descida até o mundo inferior.
O termo hebraico yarketei hasefina v 15 – “fundo do navio” – é um contraste como yarketei tsafon ou monte Sião no salmo 48, o refúgio final para Israel contra as nações atacantes. Em Isaias 14:12-19 yarketei é descrito como sendo o poço/abismo onde lúcifer foi jogado – v 15.
Desobedecer a Deus é descer gradativamente ao mundo dos mortos. Lição que foi difícil Jonas compreender, e ainda continua na igreja e no mundo, de modo geral. Milhares de pessoas ainda fazem como Jonas preferem pagar sua passagem e embarcar no expresso yarketei hasefina do que cumprir a vontade estabelecida por Deus.

O encontro com um Deus irado

Deus envia uma tormenta. O salmista diz que ele tem ventos em depósitos (135:7). Ele ajunta os ventos em suas mãos (Pv 30:4). A desobediência sempre traz tempestades dentro da alma, da igreja, da família e da nação.
A tempestade prevalece até o ponto de ameaçar a segurança do barco. A tripulação estava alarmada pelo poder da tempestade, mas Jonas era a única pessoa despreocupada (v 5). Eles estavam com medo. Deus fez que grandes homens e o capitão procurassem socorro. Eles clamaram cada um ao seu Deus. Da mesma forma, muitos não lembram de orar até estar numa situação difícil. “Ao seu próprio deus” i.e. deuses dos países, cidades ou tutelares, padroeiro. Todos acreditam em alguma coisa superior, especialmente quando não existe forças físicas para responder ou atender as necessidades concretas (Is 8:19).
A atividade frenética dos marinheiros salienta a inatividade de Jonas. Uma paralisia da fé. Quando argüido da sua atividade ele omite toda a sua confissão de desobediência. A piedade de Jonas em temer Javé é contrastada com a piedade dos marinheiros – v 16. Como é possível escapar do Deus que criou os céus e o mar, embarcando para o alto mar?

O capitão e a tripulação são retratados com bastante simpatia. Em contraste com Jonas eles empregam todos os meios para continuar vivos: oram aos seus deuses, abandonam as cargas, tiram sortes. Sabem que seus destinos estão nas mãos de alguém maior que eles (v 14). Eles fazem de tudo para salvar a vida de Jonas: o capitão manda-o levantar-se, os marinheiros tentam voltar para a terra firme. Ao descrever a morte Jó diz: “jaz porém o homem e não pode levantar-se, os céus se gastariam antes de ele despertar ou ser acordado de seu sono” 14:12; “assim quem desce ao Xeol não subirá jamais. Não voltará para sua casa” 7:9-10. A ordem do capitão ecoa a ordem divina: levanta-te e invoca o teu Deus. Os marinheiros tentam levar o barco para a terra seca, terra dos vivos.

A hora do julgamento.

O mestre do navio chamou Jonas para orar ao seu deus e se preparar para a vida ou para a morte. Aqueles que dormem na tormenta podem bem ser argüido a se justificar.
Levanta-te, clama o teu Deus – a devoção dos descrentes deve impulsionar a igreja orar. Em tempos de desastres públicos a igreja deve buscar o trono da graça para um bem comum.
O capitão do navio falou de um deus e não vários deuses; cada um clamava ao seu próprio deus, mas ele sabia que somente um poderia responder. Enquanto estivessem vivos, havia uma esperança, e enquanto houver esperança haverá uma sala para oração.
Eles resolveram lançar sortes, pois nenhum deles tomava a iniciativa de declarar algo errado que tivesse feito para desagradar o seu deus. Mas cada um suspeitava um do outro. Os criminosos nunca confessam seus crimes até que não vêem mais desculpas! Então a sorte cai sobre o profeta. É muito provável que naquele navio havia pecadores maiores que Jonas, no entanto a tempestade era por causa do profeta.
O aparente cuidado de Jonas pela vida dos marinheiros no verso 12 deve ser contrariado com o desejo inconsciente de Jonas estar descendo para o mundo dos mortos, um afastamento direto e uma descida do cume da vontade de Deus. Deus manda um grande peixe engolir o profeta rebelde. Nunca o verbo engolir possui uma conotação positiva. Coré e seus seguidores foram engolidos pela terra/Xeol, bem como faraó e seus carros pelo mar – Nm 16:28; Ex. 15:12.
Fim do primeiro ato. O herói é jogado ao mar e engolido por um grande peixe. O profeta vai descrever sua experiência como sendo a de ter sido sepultado vivo. O preço da desobediência sempre é alto. O pecado de Jonas levou-o em uma descida para o mundo dos mortos, e é sempre assim, o pecado jamais nos aproxima de Deus.

Leituras sugeridas

Alter, Robert e Kermode, Frank. Guia literário da Bíblia.
Bíblia Hebraica Stuttgartensia.
Henry, Mathew. Mathew Henry´s Commentary on the whole bible. Vol IV.

Pr. Francimar lima

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O CONCEITO DE TEMPO EM ECLESIASTES 3

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do sol: Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear a tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz (Eclesiastes 3:1-8).


INTRODUÇÃO

Desde que passamos a existir neste mundo vivemos no tempo, mesmo assim, o tempo é uma questão que pouco nos preocupa. Na verdade, a nossa preocupação está direcionada unicamente para os eventos que acontecem nesse tempo. De forma quase paradoxal, a fixação nos eventos não permite que tenhamos tempo para pensar o tempo. Não há dúvida que os eventos acontecem no tempo, mas, às vezes, é preciso deixá-los um pouco de lado para refletir acerca desse importante conceito. Fala-se que o homem é um ser temporal, mas há poucas questões que tão estranhas ao homem como a natureza do tempo. Na verdade, há um paradoxo no que diz respeito ao relacionamento entre o homem e o tempo. O tempo é ao mesmo tempo conhecido e desconhecido para o homem. Estranhamente, ele consegue conciliar dentro de si a vocação para o mistério e a potência do desvelamento. Fala-se que o tempo é passado, presente e futuro, mas não se compreende a natureza da duração, falamos do começo e final do tempo, mas desconhecemos a natureza destes limites, usamos a expressão tempo de Deus sem compreender a relação entre tempo e eternidade. O tempo foi uma preocupação do pregador em seus questionamentos existenciais. Por isso, o sábio procurou entender a sua natureza e o seu sentido na existência humana. Sendo assim, o objetivo desse breve artigo será a discussão do conceito de tempo apresentado pelo pregador no capítulo três de Eclesiastes.

1. CONCEITOS BÁSICOS

1.1. Termos empregados no Antigo Testamento

O Antigo Testamento emprega várias palavras para falara de tempo. O termo zeman é empregado para falar das estações, do movimento sucessivo da natureza, de períodos de tempo previamente determinados, etc. Uma das variações desse termo, zaman, é traduzido como fixo ou determinado. Este é o termo encontrado em Eclesiastes 3. Ri’shá, que aparece apenas em Ex. 36:11, é empregado para falar do tempo em um sentido remoto. Sha’á é o termo empregado para falar de um curto espaço de tempo.

1.2. Definições
Uma das questões que mais tem preocupados os estudiosos é exatamente entender a natureza do tempo. Ao longo da história, os filósofos procuraram compreender e definir o tempo. Platão, filósofo grego do século V a.C. definia o tempo como a imagem móvel da eternidade. Já Aristóteles dizia que o presente é aquilo que separa duas coisas inexistentes: o passado que já deixou de ser e o futuro que ainda não é. Agostinho, um dos maiores pensadores cristãos de todos os tempos como a duração de uma natureza infinita que não pode ser toda simultaneamente Por isso, ele tem a necessidade de fases sucessivas para realizar-se completamente.

2. O CONCEITO DE TEMPO DO PREGADOR

2.1. O tempo enquanto movimento determinado

O mundo é dirigido por leis previamente estabelecidas e a sucessão do tempo obedece a estas leis. Cada evento que acontece no tempo foi determinado a acontecer naquele momento e não em outro. O pregador deixa claro que há alguém exterior ao tempo que o controla e o conduz. Esse alguém só pode ser Deus, visto que, em virtude da sua natureza atemporal, ele é o único que pode controlar o tempo sem ser afetado por ele. O único que não pode ser surpreendido por qualquer evento que aconteça no tempo. Para Deus, todas coisas já existem. Para os seres finitos o real e o potencial são duas modalidades distintas e quase irreconciliáveis de existência, para Deus, entretanto, essa tensão é desfeita. Tudo é real diante Dele.
No versículo 11 do capítulo 3, o pregador parece confirma a determinação do tempo ao afirmar que “tudo fez Deus formoso no seu tempo”. Sendo assim, tudo que acontece em escala temporal, mesmo aquelas coisas aparentemente contraditórias como o sofrimento, a guerra e a morte, não escapam ao controle divino. Deus determinou estas coisas no sentido de que ele decidiu não agir para impedi-las, mesmo tendo o pleno conhecimento de cada uma delas. Para aqueles que acreditam que esse fato representa um insolúvel problema teológico, deve sempre considerar que o pregador está construindo o seu conceito de tempo em um mundo corrompido pelo pecado, onde a existência é cheia de dor, angústia e sofrimento. Neste mundo, os eventos que ocorrem no tempo são tanto bons quanto maus. Alguns poderão taxar de pessimista a visão existencial do pregador. Esse autor, não obstante, prefere denominá-la realista.

2.2. O tempo enquanto movimento teleológico
A seqüência do tempo, bem como os eventos que nele ocorrem não são desprovidos de sentido, mesmo quando não compreendemos estes eventos pelas limitações próprias de nossa mente finita. Cada acontecimento tem o seu lugar no tempo, eles não acontecem de forma absurda e isolados do restante da realidade. Mas que sentido ou propósito pode haver em um tempo onde existem a guerra, a dor, o sofrimento e a morte? Em primeiro lugar, deve ser considerado que o pregador não está legitimando estas coisas. Em segundo lugar, como já foi destacado, ele está construindo o seu conceito de tempo tendo como referência um mundo onde todas estas coisas acontecem. Quando se leva em consideração um mundo marcado pelo pecado é plenamente compreensível a existência do mal. O mal contraria a ordem, mas não a elimina por completo. Em outras palavras, mesmo o absurdo do sofrimento, em um mundo criado por um ser bondoso, não é capaz de aniquilar o caráter teleológico do tempo.
Mas o que dizer quando os eventos ocorridos no tempo não fazem sentido para uma pessoa individual, ou para a humanidade como um todo? Em primeiro lugar, é difícil que um acontecimento não faça sentido para o homem em geral. Eventos que eram completamente inexplicáveis a cem anos atrás, hoje são facilmente compreendidos. Em segundo lugar, ainda que um evento fosse completamente sem sentido para toda a humanidade, ainda poderíamos recorrer a um ser infinito e atemporal, que tem todo o tempo diante de si como um eterno presente, e que poderia perfeitamente explicar este evento. Ele saberia explicar esse evento exatamente porque foi quem determinou o seu lugar no tempo.

2.3. O tempo enquanto movimento limitado
O texto apresentado pelo pregador acerca do tempo é ricamente ornamentado por antíteses. O emprego enfático destas figuras de linguagem é bastante sugestivo, pois mostra que os eventos que ocorrem no tempo são caracterizados pelo princípio e pelo fim. O nascimento é o início da existência e a morte o seu fim, o plantio é o início da semeadura e colheita o seu fim, o choro é início do sofrimento e a alegria o final, o abraço é o início do encontro e o afastamento o final, a fala é o início do diálogo e o silêncio o final, e assim por diante. Com o emprego destas figuras, o pregador quer deixar claro que tudo que existe no tempo possui o seu começo e o seu fim, e a razão disso é muito simples: os eventos que ocorrem no tempo possuem começo e fim porque o próprio tempo possui os seus limites. No sentido rigoroso do termo, sem a idéia de limite, seria impossível falar em tempo. Com isso pode-se concluir que houve um ponto em que o tempo não existia e haverá outro quando ele não mais existirá. Antes de Deus criar, o tempo estava dissolvido na eternidade e, quando Deus recriar o mundo, o tempo será novamente incorporado pela eternidade. O homem é uma criação maravilhosa: a única que possui dentro de si o tempo e a eternidade. Para o pregador, o tempo é formado por uma sucessão de evento onde cada um é o limite do outro, e todos estes eventos reunidos formam os limites do próprio tempo.

2.4. O tempo enquanto movimento seqüencial
Imagine um torcedor que tentasse assistir trinta partidas de futebol ao mesmo tempo. Para ele, as partidas estariam acontecendo ao mesmo tempo. Este amontoado de cenas não faria o menor sentido e ele não conseguiria entender completamente nenhuma das partidas. Essa realidade desconexa seria completamente absurda para ele. Agora imagine como a realidade seria confusa se todas as coisas estivessem acontecendo ao mesmo tempo, se não houvesse uma seqüência lógica no tempo para que os eventos se encaixassem cada um em seu lugar. Se ao mesmo tempo em que ela estivesse nascendo, também estivesse morrendo, se ao mesmo tempo em que estivesse feliz, também estivesse triste, se a sua vitória e a sua derrota fossem reduzidas ao um único ato. Sem dúvida, um mundo assim seria completamente absurdo e seria impossível viver nele. De fato, seria difícil até identificarmos a existência do tempo, pois perderíamos a noção do antes e do depois, do princípio e do fim. Para o pregador, o tempo possui seqüência, cada acontecimento se dá em seu momento adequado. Tudo possui o seu tempo determinado. De fato, não há como existir tempo sem eventos acontecendo dentro de uma seqüência logicamente adequada, dentro de um movimento contínuo e seqüencial.

2.5. O tempo enquanto movimento diversificado
Uma grande diversidade de acontecimentos tem o seu lugar no tempo. Do mesmo modo que seria estranho se todas as coisas estivessem acontecendo ao mesmo tempo, seria desinteressante se apenas o mesmo acontecimento se repetisse indefinidamente no tempo. Em muito pouco ficaríamos entediados com a mesmice e a monotonia transformaria a nossa existência em uma eterna repetição. Pior ainda, se este único acontecimento fosse um fato doloroso, seríamos levados a nos acostumar com o sofrimento e perderíamos a capacidade de contemplar o seu final. O nosso sofrimento seria insuportável se não tivéssemos a certeza de que após o tempo da dor vem o tempo da alegria, que após o tempo da guerra vem o tempo da paz. O tempo é, portanto, um elemento consolador na existência humana marcada pelo sofrimento. Aquele que é capaz de contemplar o tempo em toda a sua dimensão também está apto a projetar o seu sofrimento. Esse movimento, é verdade, não anula a experiência dolorosa, mas torna mais fácil a sua superação.

CONCLUSÃO
Todas estas características do tempo estão relacionadas. Uma vez os acontecimentos que se dão no tempo têm começo e fim, é preciso que haja uma seqüência de eventos no tempo, é preciso que o fim de um seja o início do outro. Disto também se conclui que deve haver diversidade na escala temporal, e se há limites, seqüência e diversidade é impossível que o tempo não tenha propósito. Por fim, se há propósito no tempo, é impossível que não exista um ser fora do tempo que determine tudo que nele acontece, que seja capaz de controlá-lo e faça com que ele caminhe para um fim determinado.
Postado por J. Marques

terça-feira, 10 de junho de 2008

SPURGEON, O CALVINISTA

Spurgeon fora influenciado por sua herança puritana, seu ambiente e sua criação. No entanto, diferente de muitos homens e mulheres que permanecem tão completamente filhos do seu tempo e que praticamente tudo neles pode ser explicado em termos de seu condicionamento cultural, o príncipe dos pregadores pertence àquele grupo seleto que deixa sua marca em seu tempo, que molda seus contemporâneos e exerce uma influência a qual se estende ainda por muitas outras épocas.

A despeito de ter sido um calvinista ferrenho, o grande pregador do Tabernáculo Metropolitano deixava bem claro que usava o termo só por questão de concisão, pois a doutrina chamada “Calvinista”, segundo ele mesmo afirma, não surgiu com Calvino, mas do grande fundador de toda verdade. Ele entendia que o próprio Calvino as tinha aprendido dos escritos de Santo Agostinho e este, sem dúvida alguma, através do Espírito de Deus, de um cuidadoso estudo nos escritos do apóstolo Paulo, o qual, por sua vez, o recebera do Espírito Santo, de Jesus Cristo o grande fundador da dispensação cristã.[1] Portanto, Spurgeon usava o termo não porque concordava com tudo que Calvino tinha dito ou feito, mas porque o grande reformador foi coerente com as doutrinas bíblicas.

O grande pregador batista estava convicto de que não existia na sua época nenhuma outra pessoa que acreditava mais firmemente nas doutrinas da graça do que ele, contudo, gostaria de ser chamado cristão que por qualquer outro nome; mas se alguém lhe perguntasse se ele defendia o ponto de vista doutrinário defendido pela teologia Reformada, ele, sem dúvida alguma, respondia que sim e se regozijava com tal afirmação. Todavia, longe estava do príncipe dos pregadores o imaginar que no céu só haveria cristãos calvinistas, ou que ninguém seria salvo, se não acreditasse naquilo que ele acreditava como calvinista.[2] Spurgeon chega a afirmar em uma de suas pregações que, enquanto detestava muito das doutrinas pregadas por João Wesley, o príncipe dos arminianos, ainda assim tinha por ele uma reverência tal que não tinha por qualquer um outro arminiano; e disse mais a respeito deste: “ele viveu acima do nível normal dos cristãos comuns, e era um daqueles dos quais o mundo não era digno”.[3]

[1] C.H. Spurgeon, Exposition Of The Doctrines Of Grace, p. 4.
[2] C.H. Spurgeon, Sermons On Sovereignty, p. 12.
[3] C.H. Spurgeon, The Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 10, p. 871.
Postado por Elias Lima

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Jesus e a verdadeira interpretação do Antigo Testamento

Jesus e a verdadeira interpretação do Antigo Testamento

Quando o estudioso do Antigo Testamento se depara com a cultura hebraica, através de seus manuais de ética, como o midraxe, logo percebe que é impossível dissociar as leis das suas devidas interpretações dadas pelos rabinos e escolas rabínicas. O que estes manuais fazem é uma espécie de camada protetora que envolve as leis do Antigo Testamento em interpretações, muitas delas esdrúxulas, criadas para absorver os questionamentos, críticas e indisposições para cumprir a lei. Dessa forma, o crente cumpria mais as interpretações do que os mandamentos em si mesmos.
Assim, quando a lei dizia que se devia guardar o sábado, as interpretações “legislavam” sobre os detalhes diários no shabat: quantas léguas podia-se andar? O que fazer se uma galinha botasse um ovo? Se um jumento caísse numa fenda? O que podia cozinhar e o que não? Quando a lei falava sobre repudiar a esposa, as interpretações eram variadas e algumas absurdas, a exemplo do Rabi Akiba que permitia o divórcio caso o marido encontrasse uma mulher mais bonita. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas basta para dizer que a lei do Antigo Testamento havia sido coberta por costumes e tradições com alto teor religioso, na maioria das vezes, incorreto e impraticável.
Quando Jesus veio, as camadas ou cascas foram quebradas e a lei divina foi, verdadeiramente, interpretada e cumprida em sua vida e ministério. Jesus afirma desde o inicio de seu ministério que não veio revogar a lei, mas ainda assim afirma no sermão do monte: “os antigos disseram isso, eu porém vos afirmo”. O que Jesus coloca em xeque não é a lei, mas as interpretações dos rabinos e escolas de fariseus. Os mandamentos morais foram reinterpretados por Cristo. O cunho profundo e mais que literal dado por Jesus demonstra o erro que os antecessores tinham cometido. Para o mestre, matar, adulterar, amar ao próximo, orar, jejuar, dar esmolas são mais que meras atitudes convencionais e pragmáticas, elas ganham um caráter novo: o intencional.

A igreja e a escatologia

Conceitos, aparentemente novos, como a igreja e a escatologia estão, de modo embrionários, nas páginas do Antigo Testamento. “O dia do Senhor” de Joel demonstra que os judeus estão prestes a perder a primogenitura para a igreja, pois aquele dia não seria de salvação apenas para os judeus, mas para todo aquele que invocar o nome do Senhor. Os interpretes do Antigo Testamento eram tão patriotas, quanto o profeta Jonas, que não admitiam seu povo perder a eleição de Deus, e assim iludiram a nação com falsas promessas e interpretações.
Jesus não nega ou mente a respeito de um novo povo detentor das promessas de Deus. Ele afirma claramente que vai edificar a sua igreja, e não restabelecer Israel. Isso, contudo, não significa que a igreja fosse um ensino totalmente novo/inédito; antes tomou forma com a interpretação do nosso bendito salvador. O conceito de igreja está contido no Antigo Testamento, Jesus dá forma e essência a esse ensino.

As intensas perseguições sofridas pelos judeus fizeram com que eles direcionassem a sua escatologia para a esperança de libertação. A literatura apocalíptica, escrita nos tempos de opressão, tem esse tema em comum: Deus iria intervir a qualquer momento para livrar seu povo da dura opressão. Essa escatologia é uma má interpretação de Daniel e Ezequiel. Uma análise tendenciosa aos interesses imediatos do povo.
Jesus dá uma nova interpretação na escatologia, tendo por base Daniel. Evidentemente, o Senhor profetizou verdades alheias ao Antigo Testamento, contudo, a igreja e o fim do mundo já haviam sido anunciadas, de modo incompleto, nas paginas vetero-testamentária, mas interpretadas erradamente pelos leitores e professores da lei. A escatologia de Jesus não é apocalíptica, mas verdadeira, mesmo que para isso ele tenha que dizer palavras duras a respeito do seu próprio povo.

Os milagres

Os milagres de Jesus têm por finalidade revelar que o tempo do reino é chegado. Os milagres, em si mesmos, não eram de um caráter inédito no ministério do Senhor. Alias, o povo de Deus havia presenciado tantos milagres no passado ao ponto de sofrerem quando Javé resolveu cessar os sinais no período inter-testamental. Pode-se perceber que há algumas analogias entre os sinais de Jesus e os milagres do A.T.
A ressurreição de Lázaro assemelha-se a ressurreição do filho da viúva de Sarepta e ao episódio do homem que ressuscitou ao tocar no cadáver de Eliseu; O caminhar sobre as águas por Jesus tem uma fraca analogia com o fato de Eliseu fazer o machado, emprestado de um dos seus discípulos, flutuar, sendo que em ambos os sinais está a capacidade de controlar a água e quebrar a lei da natureza para criar fé nos que vêem e ouvem o acontecimento; A multiplicação de pães e peixes encontra eco nos episódios do maná e das codornizes.
Novamente, os exemplos poder-se-iam multiplicar, no entanto, o que se pretende afirmar é a finalidade dos sinais no ministério de Jesus. O sentido não era apresentar algo inédito, mas cumprir uma profecia em particular: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a por em liberdade os algemados”. Assim, ao dizer que Jesus não trouxe algo exclusivamente novo em relação aos milagres não se está insultando o trabalho árduo do mestre, mas levando em consideração o objetivo que o Senhor levou a sério: usar os milagres para chamar atenção e servir como marco zero para sua igreja.
Por isso, os milagres não eram novidades para um povo que pedia sinais enquanto os gregos clamavam sabedoria. O caráter novo era a manifestação da chegada de uma nova era; o reino havia sido transferido para outro guardião, i.e. a igreja. A chegada dessa nova fase no plano de Deus foi inaugurada com os milagres, mesmo que sempre tenha sido uma realidade na vida do Judeu.

O ensino

A pedagogia de Jesus é, sem sombra de dúvida, o modelo e inspiração para os discípulos de todas as épocas. Entretanto, não é diferente daquela usada na sua época. Observe que o uso de parábolas, enigmas, ditos, exemplos verdadeiros, denúncias foram largamente usadas pelos profetas e professores antes dEle.
O conteúdo dos seus ensinos são novos, como já foi dito, no sentido da correta interpretação. O Senhor Jesus foi audacioso ao ponto de dar sua interpretação sobre os assuntos essenciais da vida, ética, morte, eternidade, diferentes da interpretação vigente. Quando Jesus terminava suas preleções as multidões ficavam maravilhadas, i.e. como se tivessem levado uma grande pancada na cabeça. A razão disso era porque ele ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas, meros repetidores de ensinos impraticáveis e tradicionais.
As mensagens de Jesus foram bem assistidas. Houve caso das multidões passarem dias esperando pelos ensinos de Jesus, outra vez ouviram o mestre da proa de um barco, no apertado de uma casa, enfim em lugares inóspitos e incômodos para hoje, não o era para o auditório do Senhor. O que atraía as pessoas para ouvir ouvi-lo? A quebra com o senso comum. Ele não era um tagarela, repetidor de ensinos de uma escola rabínica, mas tinha autoridade de dar sua própria versão, i.e. a verdadeira, o que ajudava as pessoas em suas reais necessidades.

A igreja moderna e a interpretação de Jesus.

Tendo dito isso, não se quer reduzir a vida e obra de Jesus às interpretações que ele fez do Antigo Testamento. O messias significa a fonte de toda nossa compreensão das escrituras, pois com toda veemência afirma-se que a vida e a obra do messias foram inigualáveis, irreproduzíveis e incomparáveis. O Antigo Testamento nada mais é do que sombra daquilo que haveria de se manifestar em carne, Jesus. Ele tabernaculou entre nós, foi a verdadeira luz e pão da vida, o bom pastor e a porta das ovelhas. Enfim Jesus é o cumprimento perfeito de todas as esperanças de Deus para o seu povo, tanto no passado como para a nova aliança.
Dessa forma, pode-se categoricamente dizer que Jesus não trouxe nada exclusivamente novo em seu ministério. Jesus usa os recursos da antiga aliança para iniciar seu ministério, ele não toma algo extraordinário ou inédito para construir um ministério, mas, ao falar de assuntos conhecidos, dá um caráter novo pela verdade interpretada na sua vida e obra.
A interpretação de Jesus foi tão crucial que o leitor ou pregador moderno jamais pode estudar o Antigo Testamento sem comparar com as palavras de Jesus. Essa interpretação tornou-se a regra para entender o Antigo ou o Novo Testamento.
Seitas e ensinos heréticos estão entrando na igreja moderna pela porta da compreensão errada daquilo que Jesus ensinou. Que o ensino e vida de Jesus continue sendo o modelo para a igreja se comportar diante de um mundo tão mal, que prende e sufoca toda atitude de buscar a Deus.

Pr. Francimar Lima

terça-feira, 13 de maio de 2008

LIÇÕES APRENDIDAS COM GREGOR SAMSA

Gregor Samsa é o protagonista da obra A metamorfose do escritor tcheco Franz Kafka. De acordo com esse clássico da literatura do absurdo, o jovem Gregor, ao despertar certa manhã, descobre que foi transformado em um asqueroso inseto. Ao perceber a estranha mutação, a família de Gregor fica horrorizada e exige que esse ser desprezível fique confinado ao seu quarto para evitar transtornos com a vizinhança. O aparente sentimento de solidariedade da família em relação ao estado do jovem vai se transformando gradativamente em uma atitude de incompreensão, desprezo e hostilidade. Gregor, por sua vez, percebendo-se nesse ambiente indesejado e vendo que o seu aspecto causava repugnância em todas as pessoas à sua volta, permite-se morrer lentamente em seu silencioso e solitário quarto. Com essa trágica e horripilante fábula, Kafka discute o conturbado relacionamento familiar do homem contemporâneo, marcado pela falta de diálogo, incompreensão, solidão e isolamento. Em sentido mais específico, através dessa simbologia, o escritor tcheco revela os conflitos que marcaram o seu relacionamento com seu próprio pai. Relacionamento que, em virtude do autoritarismo do patriarca da família, desenvolveu em Kafka um terrível sentimento de culpa, impotência e medo.

Quando li a obra de Kafka pela primeira vez, cerca de dez anos atrás, lembro-me apenas de ter sido tomado por um imenso sentimento de tristeza e pesar pelo destino trágico do personagem Gregor Samsa. Recentemente, talvez levado pela saudade do meu filho e de minha esposa, resolvi reler o romance kafkaniano. Nessa segunda leitura, não sei se em virtude do meu estado de espírito, propício a uma análise mais intimista e subjetiva, confesso que tive uma experiência singularmente iluminadora. A cada página lida, a minha mente era sempre reportada ao texto de Deuteronômio seguinte: “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (6:6,7). A razão porque a minha mente foi reportada a essa passagem bíblica durante a leitura do romance de Kafka é algo que nem eu mesmo consigo explicar, contudo, a força comunicativa dessa experiência é possível descrever. Já havia lido e pregado sobre esse texto inúmeras vezes, mas confesso que jamais ele tinha causado em mim uma impressão tão profunda e uma percepção tão vívida do seu ensinamento. Levado pela tragédia de Gregor Samsa, eu pude ver uma espécie de metamorfose na referida passagem. O texto, que para mim consistia em conceitos, transformou-se em imagens profundas em minha mente, em figuras de uma nitidez e brilho inigualáveis. Em meus estudos anteriores chegara sempre à conclusão que o texto ensinava a responsabilidade e persistência do pai ante o discipulado do filho, idéia com a qual ainda concordo. Não obstante, depois de ter a figura do pai de Gregor Samsa refletida no mais profundo de minha alma, pude perceber que o texto também ensina a importância do diálogo e do companheirismo entre pai e filho, princípios que, a meu ver complementam de forma maravilhosa o anterior. O texto mosaico, portanto, não mostra apenas a importância do discipulado, mas a importância do discipulado baseado no diálogo sincero e no companheirismo. O pai não deve apenas ensinar o filho, mas estar com ele, andar com ele, viver com ele... Talvez o ensinamento mais profundo, o princípio mais duradouro seja a sua presença na vida do filho. Até para mim, isso parece inexplicável e paradoxal, mas o fato é que eu só compreendi plenamente a urgência desse princípio luminoso depois de ter penetrado a escuridão existencial de Gregor Samsa, para entender a importância do diálogo foi necessário que eu ouvisse o silêncio angustiante do personagem de Kafka. Em outras palavras, depois de contemplar o gemido solitário desse homem-inseto, pude melhor compreender o valor do companheirismo no discipulado em minha tarefa de pai.

Este exemplo nos leva a refletir sobre o lugar da literatura extra-bíblica na vida do cristão, em linhas gerais, sobre o relacionamento entre o cristianismo e a cultura geral. Não há dúvida que estamos falando de uma experiência subjetiva e de caráter reconhecidamente intimista, fato que descarta qualquer pretensão de se tornar em princípio absoluto. Na verdade, não é esse o meu objetivo ao relatar esse fato. Reconheço que é possível que nenhum outro cristão, ao ler o romance de Kafka, tenha meditado sobre um texto bíblico e menos ainda sobre a passagem de Deuteronômio mencionada. Entretanto, essa experiência parece confirmar uma idéia da qual compartilho há algum tempo: em algumas situações, a literatura extra-bíblica nos ajuda na compreensão do texto bíblico e das verdades divinas. Quem poderá negar que a leitura de O Peregrino dará ao cristão uma melhor compreensão de sua saga na cidade da destruição rumo à cidade celestial? Pode ser que alguém não concorde comigo, mas eu compreendi melhor a angústia e desespero do homem sem Deus depois de ler os escritos de Nietzsche e ver os filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman. O desespero de O sétimo selo e o silêncio existencial de Luz de Inverno me tornaram mais sensível a essa classe de pessoas. Acredito que Deus pode empregar esse tipo de conhecimento para nos ensinar grandes lições.

Com essa minha idéia, para evitar ser mal-compreendido, não pretende negar a relevância e eficácia da leitura bíblica na vida do crente, e muito menos sugerir que ele deve substituí-la pela leitura de Kafka, Nietzsche, ou mesmo de John Bunyan. Pretendo muito menos levantar polêmicas gratuitas e fomentar querelas teológicas. Na verdade, o meu propósito é simplesmente demonstrar que não devemos ver a literatura extra-bíblica sempre como um instrumento demoníaco, como algo que nos afasta de Deus, como um conhecimento de deve ser alvo do nosso ódio e repúdio.

Além disso, vivemos em um mundo onde existem outros tipos de conhecimento e, nem que seja apenas por questão de consciência, precisamos conhecê-los. Para descartar determinado conhecimento, o cristão sincero deve primeiro penetrar em sua essência, em suas profundezas. Alguns cristãos costumam invocar Tertuliano para sustentar aquilo que eu denomino “fideísmo burro”, enfatizando o modo como esse apologista desprezou as filosofias do seu tempo em nome da fé cristã. Esquecem, contudo, que o pensador de Cartago, chegou a essa conclusão depois de uma longa análise dos sistemas filosóficos do seu tempo. Ele pode ser chamado de fideísta, mas não de “fideísta burro” – alguém que despreza a priori todo tipo de conhecimento que não seja bíblico. Muitos que sustentam esse ponto vista, incorrem em uma contradição bastante elementar: Pregam o ódio ao conhecimento extra-bíblico, mas costumam usar comentários bíblicos em seus estudos. Deixam de considerar que alguns comentários bíblicos e outras ferramentas de estudo na área teológica escondem muito mais heresias do que as Fábulas de Esopo ou La Fontaine, mais ensinamento anticristão do que um Hamlet de Shakespeare.

Quando observo o exemplo de Cristo, o modo como ele conhecia tão profundamente a doutrina dos fariseus, seus adversários, não tenho como chegar à outra conclusão: o cristão não pode estar isolado da cultura extra-bíblica. Deve dialogar com ela, extrair dela aquilo que possa trazer algum tipo de edificação e, ainda que seja levado a descartar determinados ensinamentos, que o faça somente depois de conhecê-los.

Por fim, pode ser que você jamais tenha uma melhor compreensão do texto bíblico por meio da leitura de uma obra de Kafka, Tolstoi ou Baudelaire, pode ser que você não concorde com nenhuma idéia de Nietzsche, que despreze com todas as forças cada palavra de O Anticristo, que considere o Tratado de ateologia de Michel Onfray um insulto a Deus. Entretanto, como cristão sincero você não pode simplesmente fechar-se para esses conhecimentos como se eles não existissem. Essa fuga banal não é digna de alguém que afirma ter a mente de Cristo, de alguém que foi ordenado a “observar todas as coisas e a reter o que é bom”.
Postado por J. Marques

sexta-feira, 2 de maio de 2008

TRÊS SONETOS SOBRE RAZÃO E FÉ

Fides et ratio

Os dois rios da única nascente
percorrem o leito da existência,
provêm da Divina Sapiência,
e transcendem do solo imanente.

Tem o Ratio o Ato à sua frente,
já o Fides se lança na Potência,
mas em sua infinita confluência,
querem os rios a luz cognoscente.

Caminham anelando o mar do ser,
para nele sua ânsia desaguar,
esta ânsia divina de saber.

Querem os rios verdade encontrar,
e no achar nova busca há de ter,
pois tão denso e infinito é esse Mar.

Belém-PA, agosto de 2007.

Filosofia da fé

No homem, a fagulha projetiva,
Não descansa seu lume reluzente,
Firme está a Potência em sua mente
E na senda imortal à alma aviva.

Essa ânsia ontológica está no Ente,
Em sua busca da aurora progressiva,
Como força que a essência reativa,
E edifica o sentido no ausente.

Pela fé é possível ver o ser,
Descansando em repouso essencial,
Tão longíncuo e embebido de não-ser.

A síntese do Assombro e do real,
Que Deus quis ao homem oferecer
Pra guiar-lhe na busca perenal.

Mauriti-CE, abril de 2008.


O filósofo em busca de Deus

Em sua busca do lume secular,
Percorrendo a insólita caminhada,
A essência do Tudo e o fim do Nada,
Deseja o filósofo encontrar.

Rejeitando a razão petrificada,
E rompendo o descanso tumular,
No Assombro deseja mergulhar,
E ver a resposta ao fim da estrada.

Ao encontrar a Coluna Essencial,
Contemplara Potência Inefável,
Descansa o filósofo no imortal.

Compreende o Mistério impenetrável,
Mesmo que essa busca, ao seu final,
Revele somente o inexplicável.

Teresina-PI, abril de 2008.


Postado por J. Marques