segunda-feira, 22 de março de 2010

LUTERO E A ESCRAVIDÃO DA VONTADE - Conclusão

Nós sabemos que este é um assunto que vem desde a idade média, começado por pelágio, que era uma pessoa eminentemente moral, tornou-se um professor de sucesso em Roma, nos fins do século IV. Britânico por nascimento, era um asceta zeloso. Não se pode dizer com certeza se ele era um monge, mas claramente apoiava ideais monásticas. Ele ressaltava a capacidade de o homem dar os passos iniciais em direção à salvação mediante os seus próprios esforços, sem precisar da graça especial. A pedra fundamental do pelagianismo é a idéia do livre-arbítrio fundamental do homem e sua responsabilidade moral. Ao criar o homem, Deus não o sujeitou, como as demais criaturas, a lei da natureza, mas deu-lhe o privilégio sem igual de cumprir a vontade divina mediante a sua própria escolha. Esta possibilidade de escolher livremente o bem acarreta a possibilidade de escolher o mal. Segundo Pelágio, há três aspectos na ação humana: poder (posse), querer (velle) e a realização (esse). O primeiro vem exclusivamente de Deus; os outros dois pertencem ao homem. Sendo assim, conforme a homem age, merece louvor ou censura. Seja a que for que seus seguidores tenham dito, o próprio Pelágio mantinha o conceito de uma lei divina que proclamava aos homens aquilo que devem fazer e que colocava diante deles a perspectiva de recompensas e castigos sobrenaturais. Se um homem desfruta de liberdade de escolha, é pela expressa generosidade do seu Criador; ele deve usa-la para aquelas finalidades que Deus estabelece.

Em segundo lugar, Pelágio considerava a graça apenas coma uma ajuda externa fornecida por Deus. Não deixa lugar para qualquer ação especial interior de Deus sobre a alma. Com a palavra “graça”, Pelágio realmente quer dizer o livre-arbítrio em si ou a revelação da lei de Deus através da razão, que nos instrui naquilo que devemos fazer e que nos propõe sanções eternas. Visto que essa revelação se obscureceu através dos maus costumes, a graça agora inclui a lei de Moisés e o ensino e exemplo de Cristo. Essa graça é oferecida livremente a todos. Deus não faz acepção de pessoas. E somente pelo mérito que os homens avançam na santidade. A predestinação divina opera de acordo com a qualidade das vidas que Deus prevê que os homens terão. Já Santo Agostinho, sacerdote em hipona, África do Norte (391), que ali estabeleceu um mosteiro e, mais tarde, foi ordenado bispo. Acreditava que a Salvação do ser humano dependia inteiramente do eterno decreto de Deus, e que tanto os que são salvos quanto os que são perdidos são predestinados assim. Deus, segundo Agostinho, trabalha tanto no exterior do homem quanto no seu interior, pois se Deus não o vivificar, tal homem nunca pode, por si só, ser salvo.

Não há dúvidas que Deus é soberano, mas nós não podemos eliminar a responsabilidade humana pela soberania de Deus. É certo que nós não conseguimos conciliar estas duas coisas, pois elas são como duas cordas que puxamos ao mesmo tempo, e que corremos o perigo de puxar mais uma em detrimento de outra. O fato é que até Lutero nesta sua apologia contra o livre-arbítrio, teve que fazer a seguinte consideração:

a nós não compete nos intrometermos na vontade secreta de Deus, pois as coisas secretas de Deus estão inteiramente fora do nosso alcance (1 Tm 6.16). Deveríamos dedicar o nosso tempo considerando o Deus encarnado, o Senhor Jesus Cristo, em quem Deus tornou claro para nós o que deveríamos e o que não deveríamos saber (Cl 2.3). É verdade que o Deus que se tornou carne exclamou: “...quantas vezes quis eu... e vos não o quisestes!” Cristo veio a este mundo a fim de realizar, sofrer e oferecer a todos os homens tudo quanto é necessário a sua salvação. Mas alguns homens, endurecidos por causa da vontade secreta do Senhor, rejeitam-nO (Jo 1.5,11). O mesmo Deus encarnado, entretanto, chora e lamenta-se em face da destruição eterna dos ímpios, ainda que, em sua divina vontade, propositalmente Ele os tenha deixado perecer. Não nos cabe perguntar porquê, mas antes, nos prostrarmos admirados diante de Deus. Neste instante alguns dirão que logo que sou empurrado para um canto, evito enfrentar frontalmente a questão, dizendo que não devemos nos intrometer na vontade secreta de Deus. Entretanto, isso não é invenção minha. Foi dessa maneira que Paulo argumentou em Romanos 9.19,21; e Isaias, antes de Paulo (Is 58.2). E evidente que não devemos procurar sondar a vontade secreta de Deus, sobretudo quando observamos que são justamente os ímpios que são fortemente tentados a fazê-Lo. Nos devemos adverti-los a ficar calados e reverentes. Se alguém quiser levar avante essa forma de inquirição, é bem-vindo a faze-lo; porém, descobrir-se-á lutando contra Deus.

Noutra passagem ele responde a uma suposta pergunta do Por quê Deus não altera a vontade perversa de pessoas como o Faraó? – Ele responde: “Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis” (Rm 11:33).

É nesta vontade secreta de Deus que nós devemos ter cuidado em fazer qualquer afirmação no que tange ou a soberania de Deus ou a responsabilidade humana, pois há vários versículos que falam da responsabilidade do homem, textos como: Gênesis 4:7 “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” Nós não podemos dizer que Deus estava brincando aqui com Caim, é certo, que como Judas não podia mudar aquilo que Deus tinha previsto na eternidade, mas por outro lado, não podemos culpa a Deus pelo que eles optaram em fazer, pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. (Gálatas 6:7). Logo ele é responsável pelo o que faz. Outra passagem que podemos ilustrar isso está em Mateus 26:24, que diz: “O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!” Nós sabemos que Cristo devia vir pois muito tinha sido tido a respeito dELe, que o mesmo morreria e seria sepultado etc. e até foi o próprio Pai que fez isto, ou seja, levando até o calvário o seu próprio filho. Isaías 53:10 “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos.” E no mesmo verso nós podemos ver que é Ele que dá a Sua própria vida como diz João 10:18, “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai.” Apesar de tudo isto, Deus não tira a responsabilidade do ato de Judas, mas diz: “...mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido” .

Sem dúvida, como disse Lutero, estas coisas pertencem a vontade secreta de Deus. Mas algo gostaria de deixar registrado aqui: o fato de eu não acreditar no livre arbítrio, no que diz respeito ao homem poder se salvar – a não ser que Deus aja, senão o mesmo está perdido –, quero deixar claro também a seguinte verdade: Quando todos aqueles pecadores, que aceitaram Jesus, chegarem ao céu, eles dirão: “Foi o Senhor que nos trouxe aqui”; e quando todos aqueles pecadores que rejeitarem a salvação aparecerem no inferno, eles irão dizer: ‘Fomos nós que recusamos a salvação à nós oferecida”. Deus age com misericórdia para com os que são salvos e com justiça para com todos os que perecem.

Soli Deo Gloria

Postado por Elias Lima

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bendita Sociedade
Todos nós somos investidores. Fazemos investimentos num imóvel, num carro, numa poupança, em bolsas de valores, nos estudos das crianças, etc. Não vejo nada de errado nisto. Agora, quanto temos investido na obra missionária? Quanto temos investido na necessidade de um irmão? Paulo recorda aos presbíteros de Éfeso que é mister socorrer aos necessitados e recordar as palavras do Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber (Atos 20:35). Será que acreditamos mesmo nesta bem-aventurança? Os filipenses sim.
O apóstolo Paulo expressa a liberalidade financeira dos irmãos de Filipos de duas formas.
Primeiro, as suas ofertas eram um investimento (“Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação.”4:14)
O verbo “associar” significa partilhar junto, participar em comum. A igreja entrou num empreendimento de “dar e receber”. A igreja deu o que era material para Paulo, e recebeu o que era espiritual (vs.15). Paulo inclusive censura os coríntios por acharem que é demais que o apóstolo recolha o que é material entre eles uma vez que ele semeou o que era espiritual (1Co.9:11; 12-15). O momento da associação dos filipenses foi bem oportuno porque o missionário estava em tribulação.
A igreja em Filipos se associou ao missionário mesmo sendo pequena e pobre. Além disso, ela não se importou se outras igrejas iriam ajudar também. Ela fez a sua parte. Só para Tessalônica, a igreja mandou ofertas duas vezes (15). Isto mostra o cuidado dos filipenses pelo apóstolo e a visão missionária deles, pois Paulo estava pregando em outro lugar.
Ainda falando em um investimento, Paulo diz que aquelas ofertas são investimentos seguros, que resultarão em crédito para os filipenses (vs17). Este verso está cheio de termos comerciais. O primeiro é “donativo”, que é um termo técnico para a exigência de pagamento de juros. O segundo é “fruto”, aqui significando lucro ou juros. O verbo aumentar é um termo bancário regular para crescimento financeiro. Crédito é conta. Em outras palavras, Paulo está dizendo: “Aguardo os juros que serão creditados em vossa conta”.
Algumas pessoas tentam justificar sua negligência em cooperar financeiramente com missões alegando pobreza, ou renda baixa. Isto, contudo, cai por terra quando olhamos para o exemplo dos filipenses. Não há pobreza que justifique a nossa mesquinhez.
Além de investir, gostamos também de nos associar. Seja sócio de um missionário. Partilhe com ele das bênçãos que Deus dá a você. Quando somos abençoados financeiramente, pensamos logo no tipo de investimento que vamos fazer. Naquele momento não esqueça que há muitos missionários e irmãos em necessidade.
Além de um investimento, contribuir com a obra missionária é um sacrifício agradável a Deus (4:18).
O apóstolo utiliza duas expressões. A primeira é “Aroma suave”. Como o bom aroma que subia dos sacrifícos do Antigo Testamento (Lv.1:9,13). A outra é “Sacrifício aceitável e aprazível”. É o tipo de sacrifício que não é rejeitado, como foi o de Saul e dos sacerdotes no tempo de Malaquias.
Em conseqüência da morte de Cristo, não há sacrifícios de animais que podemos oferecer a Deus que sejam aceitáveis. Porém, há sacrifícios que Deus não só aceita, como também se agrada. Devemos oferecer nossos corpos (Rm.12:1); devemos oferecer sacrifício de louvor (Hb1 13:15); devemos oferecer sacrifícios de dinheiro ou posses (Filipenses).
Há algum tempo atrás ouvi uma história de uma mulher que dizia que a carteira de seu esposo ainda não tinha sido alcançada pela graça de Deus. Seria essa também a sua história?
Pr. José Roberto

sexta-feira, 5 de março de 2010

ABORTO: Como A Bíblia Considera Uma Criança Não Nascida?


Certa filha chegou para a mãe e disse: mãe! Eu ultrapassei as barreiras do namoro, e o resultado é que estou grávida.
A mãe assustada com o que a sua filha tão querida e amada dissera, disse: quem é o pai?
A filha disse: é fulano.
Manda chamá-lo aqui, porque eu quero ter uma conversa com ele, disse a mãe.
Quando o pai chegou, a mãe da filha grávida perguntou: como será, você vai assumir a criança?
O pai respondeu: a gente pode conversar melhor, e ver a possibilidade dela abortar.
A mãe da filha grávida, assustada, e alterada disse: você é louco? Como você pode ser capaz de querer cometer um ato tão cruel como este, isso é assassinato. Olha aqui, se você não é homem para assumir o que você fez, eu sou mulher suficiente para criar esta criança, mas um ato desse não será praticado.
A palavra aborto já não assusta mais a maioria das pessoas vivas neste planeta. Houve o tempo quando essa palavra era sinônimo de ódio e desrespeito à vida, quando lábios humanos pronunciavam-na como crime e quando só os homens de comportamento não-humano ousavam usá-la como alternativa para os problemas relacionados à gravidez indesejável.
Atualmente, muitos países no mundo liberaram o aborto e milhares de pessoas o praticam. O aborto já se constitui numa das mais sérias epidemias que acometeram a sociedade humana. Como disse Caio Fábio D’Arújo, o aborto “tem matado mais que guerras e homicídios. Tem destruído mais do que o violento trânsito das ruas das grandes cidades. Tem ceifado mais vidas que o câncer”.
Sem sombras de dúvidas, e de acordo com a constituição de nosso País, o aborto é crime, é um assassinato. E como disse George W. Knight III “o motivo de nossa preocupação, como cristãos, está no fato de ser ela uma criança ainda não nascida cuja vida é aniquilada. É inevitável e apropriado que os cristãos abordem este assunto a partir do ponto de vista divino quanto à vida humana, conforme expresso no sexto mandamento: “Não matarás” (Êx.20:13).
É importante, então, saber como a palavra de Deus considera uma criança não nascida, para termos uma posição, como cristãos, a respeito do aborto.
DEFININDO O ABORTO.
Antes de analisarmos o como a palavra de Deus considera uma criança não nascida, é necessário definirmos o que exatamente é o aborto.
Tecnicamente, abortar é, com ou sem autorização, tirar uma criança do ventre da mãe, ainda viva e deixar morrer, ou depois de ter sido matada ser retirada, com ou sem motivos.
Segundo George W. Knight III, o termo aborto indica “a expulsão de uma criança viva do ventre materno, pela instrumentalidade humana, com o objetivo de que a criança seja exterminada”1.
Aborto é usar “métodos humanos e cruéis” para matar, ou seja, é tirar a vida de uma pessoa inocente, e indefesa.
Abortar é assassinar, e por causa disto é uma ofensa contra Deus. Abortar é pecar.
A BÍBLIA E A CRIANÇA NÃO NASCIDA: Humana ou Sub Humana?
Alguns grupos, e até mesmos cristãos são a favor do aborto por dizerem que o “feto”, ou seja, a criança não nascida é sub humana. Porém, como a Palavra de Deus considera o nascituro? É humano ou não? Ainda há outros que dizem que a partir de um determinado tempo é que o nascituro passa a ser humano. Diante disso, nos perguntamos: quando que uma pessoa se torna realmente uma pessoa. Neste ponto, então, se faz necessário analisarmos algumas passagens que mostram como a Palavra de Deus considera o nascituro.
Êxodo 21:22-25.
"Se homens brigarem, e ferirem uma mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe".
Essa passagem é freqüentemente citada como um dos pontos de apoio da presente questão. Fala a respeito de se ferir uma mulher grávida de sorte que ela aborte. Segue-se, então, a frase tanto na forma negativa quanto na positiva: “porém sem maior dano” e “mas se houver dano”. Com referência à última, então, é dada a lei da igualdade de punição: “então darás vida por vida...”
A lei nesta passagem é que a pessoas que causou algum dano à uma mulher grávida, pagará pelo dano que Fez. Se o dano foi algo simples, ele pagará com algo simples. Se, porém, o dano foi a morte, ele pagará com sua morte.
Neste caso, a questão exegética é se a própria criança está, ou não, incluída nas palavras: “mas se houver dano”. Ou seja, se a morte que o texto se refere, fala também da morte da criança. Se estiver, então esta passagem é uma prova de que a morte de uma criança não nascida é considerada como a morte de um ser humano, o que, na teocracia de Israel do Antigo Testamento, é punível com “vida por vida”. Tal correlação deveria salientar que a criança é considerada como humana, igual a um adulto, em termos de humanidade. “Claro que, não sendo este um aborto premeditado, só se pode concluir que se um aborto acidental foi assim considerado, quanto mais o aborto intencional estará sujeito à pena de morte”2.
Alguém poderia argumentar: se, porém, a criança não está incluída no “dano”, é de outra forma a prova de que o Antigo Testamento considerava a criança menos humana e que o aborto não é uma violação da santidade da vida humana.
Porém, essa passagem não pode ser interpretada assim, porque se a criança não está incluída no “dano”, isso não dá base para dizer que a criança é menos humana, mas apenas indica que o causador do dano não era tido como responsável por uma morte indireta e não intencional.
Mesmo que a criança não esteja incluída no “dano”, não é base para dizer que a criança ainda não é humana.
Salmo 51:5.
"Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe".
Aqui se esclarece a identificação da humanidade da criança, e, ao mesmo tempo, se exclui qualquer tendência para dizer que isso não passa de uma mera licença poética. “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe”. A afirmação de Davi é que ele estava marcado e caracterizado pelo pecado desde o momento da sua concepção no ventre da mãe.
Falar sobre alguém no instante da sua concepção, e fazê-lo nos termo de pecaminosidade, é afirmar a sua humanidade desde o instante da concepção. A pessoas que fala de si mesmo como humano “eu” que ao nascer estava em iniqüidade (v.5a) é a mesma que foi concebida em pecado pela sua mãe.
A iniqüidade e o pecado não são nem o ato sexual da concepção, pois foi Deus quem instituiu o casamento com sexo, nem o ato de nascimento, pois Cristo nasceu como um humano qualquer e não era pecador, pelo contrário, são a pecaminosidade inerente ao salmista, e a todas as pessoas, desde o memento de sua existência como se humano.
Portanto, esta passagem é mais uma prova de que a Palavra de Deus considera uma criança não nascida, como um ser humano, exatamente igual a um ser humano adulto.
Jeremias 1:4-5.
"A mim me veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações".
Esta passagem começa com a afirmação que o Senhor conhecia Jeremias antes mesmo de o formar no ventre materno.
Expressões tais como conhecer, formar, consagrar, que são comumente usadas para seres humanos, foram usadas para Jeremias, antes dele nascer, ainda no ventre. Portanto, essas expressões indicam que Jeremias é considerado, pelo próprio Deus, como ser humano enquanto no ventre.
O fato de que Deus o conhecia ou o escolheu mesmo antes de começar sua existência no ventre materno, não nega o fato de que, o que estava formado no ventre era uma pessoa humana, reconhecida e considerada por Deus como tal.
CONCLUSÃO
Além dessas passagens citadas, há várias outras passagens que mostram como a Palavra de Deus considera uma criança não nascida, o nascituro.
As comprovações das Escrituras não se restringem apenas nessas. A Bíblia é unânime ao considerar o nascituro como ser humano. E ao considerá-lo humano, isso indica que o aborto voluntário é a violação de um dos mandamentos de Deus: “Não matará”.
Não há praticamente, uma passagem que trate direta e abertamente sobre o aborto, proibindo. Com isso, alguns podem até dizer: já que a Bíblia não proíbe, não é errado praticar. Porém, quanto a isso George W. Knight III diz: “na Bíblia, a dispersão de referência quanto a uma determinada questão só vem indicar uma forte e subjacente comprovação ou mesmo concordância com ela”3. Um exemplo disso é a Ceia do Senhor, pois praticamente é omitida nas epístolas, porém, se não fosse o problema em Corinto, não existiria mais nenhuma passagem falando diretamente.
Portanto, a falta de referência explícita quanto ao aborto só pode, também indicar que as Escrituras entendem que ele já foi levado em consideração na proibição geral de homicídio. Pois, se a criança não nascida é considerada pela Palavra de Deus como um ser humano, logo matar uma criança dessas é matar um ser humano, e isso é assassinato, e assassinato é proibido por Deus.
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1. Geroge W. Knight III in Os Puritanos

2. Geroge W. Knight III. Op cit


3. Geroge W. Knight III. Op cit

Postado por Pr. Figueiredo

quinta-feira, 4 de março de 2010

A VOZ QUE CLAMA NO DESERTO

João Batista tornou-se alvo de uma grande festa popular em nosso país. Uma mistura de religião e festa secular, o São João é tudo menos uma lembrança ao primo do nosso Senhor Jesus. A festa joanina ou junina tem a ver com o mês de junho. Toda a tradição de fogueira, balões, namoro, etc não tem relação com o são João Batista da bíblia, mas ao da tradição católica, que é (segundo a lenda) o responsável pelo ano bom de chuva.

João Batista ou João, o batista, deve ser lembrado pela sua entrega total a missões. Ele figura o último dos profetas e o primeiro dos missionários. Jesus chega a afirmar que ele é o maior dos nascidos de mulher, até o reino.

O que a bíblia diz sobre essa pessoa tão singular? Lucas 3:1-20

Os antecedentes de João Batista.

A voz viva da profecia mantivera-se silenciosa desde o último dos profetas do A.T. 400 anos de silêncio.

Ao invés da voz profética, houve duas correntes de vida religiosa: Escribas, onde a vontade de Deus é a obediência às interpretações da lei dada por eles; apocalípticos, os quais acrescentavam à lei suas esperanças de uma salvação nacional em termos apocalípticos.

Muitos movimentos lideraram rebeliões políticas e militares contra Roma naqueles dias.

Outros movimentos resolveram se separar de Jerusalém e de qualquer forma de civilização associada com Roma. Foi assim que surgiu a comunidade de Qumram, uma comunidade legalista e sectarista, regida por altos preceitos e rígida disciplina. É desta comunidade que devemos os manuscritos mais importantes da Bíblia. João teve um grande acesso e influencia nessa e dessa sociedade.

João cresceu em meio a essa confusão religiosa, bem parecida com nossos dias.

Nascimento e educação.

Filho de um sacerdote chamado Zacarias e uma Levita chamada Isabel. Sua mãe era estéril e ambos avançados em dias – Lucas 1:5-23.

Apesar da impossibilidade de ter filhos, eles não desistiram. Oravam sempre!
Deus respondeu a sua oração e enviou um anjo para dar a notícia – v 13.

O menino deveria ser criado na rígida disciplina dos nazireus: não poderiam beber vinho nem bebida forte, pois seria cheio do Espírito Santo; ele converteria muitos dos filhos de Israel; iria adiante do Senhor no poder e espírito de Elias.

Seis meses depois o mesmo anjo Gabriel foi enviar a mensagem de outra gravidez miraculosa a jovem Maria, prima de Isabel (Lc 1:36).

João nasceu e cresceu na dura disciplina ascética. Foi morar no deserto da Judéia onde se vestia com pêlos de camelos e um cinto de couro; incorporou uma dieta a base de mel silvestre e gafanhotos.

A disciplina de João incluía Jejum – Lc 7:33 “pois veio João batista, não comendo pão e bebendo vinho” Mc 2:18 “ora, os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando”.

Além do Jejum a disciplina incluía a oração – Lc 11:1 – “um dos seus discípulos (de Jesus) lhe pediu: Senhor, ensina-nos a orar como também João ensinou aos seus discípulos”.

A pregação de João Batista. Mateus 3:1ss.

O arrependimento e mudança de vida. Para o profeta não somente os gentios/pagãos deveriam se arrepender, mas o povo escolhido de Deus estava precisando de arrependimento e mudança de vida. A mensagem de João foi, portanto, um choque para os religiosos que acreditavam na eleição de seu povo, mas descartavam a necessidade de uma vida santa. (Lucas 3:7-8). João responde a pergunto do povo: “que havemos de fazer?” (Lucas 3:10-14).

A chegada do Reino de Deus. Todo judeu daquela época esperava o estabelecimento do reino. Porém as interpretações eram variadas: a maioria pensava num reino visível, (Lucas 17:21) Os fariseus esperavam um reino político/social, Jesus disse que o reino é marcado pela sua presença; a vinda de Jesus inaugurou a nova era/fase do reino de Deus.

O batismo. João praticava um batismo, que era a imersão do crente na água; um símbolo visível de que a pessoa acreditava na sua mensagem e estava disposta a mudar sua vida. Mateus 3:11-12 - o profeta aproveita para falar de um batismo muito superior: o batismo com o Espírito para o justos e o batismo com fogo para os ímpios.

Jesus o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. (João 1:29) João reconheceu Jesus como o Messias do mundo. Ele sabia que não era o Messias (João 1:19-23). O seu alvo pessoal era promover a glória de Jesus: “convém que ele cresça e que eu diminua” (3:30).

Jesus e João.

A semelhança.

Os primeiros discípulos eram do grupo de João – João 1:35-37. Isso demonstra que a vida e obra de João tinha muita conexão com o estilo que nosso Senhor Jesus escolheu para si.

A pregação de Jesus é uma extensão da mensagem de João: o arrependimento, a chegada do reino, o batismo, etc. – Mt 3:8; Lc 13:1-9.

Ensinou seus discípulos a orar como João – Lc 11:1-4.

Rejeitou a expectativa do povo escolhido sem arrependimento – Mt 3:9. Israel queria um messias diferente daquele que João e Jesus anunciaram.

A diferença.

João é um asceta, Jesus é aberto ao mundo. Jesus foi chamado de glutão e beberrão. Não que Ele fosse, mas comparando com João e os nazireus e a expectativa do messias, Jesus foi interpretado como um bêbado (Mateus 11:18-19).

João fica na expectativa, Jesus é o cumprimento. O povo ainda questionou João a procura do messias, o qual apontou para o verdadeiro Cristo, seu primo.

João fica no âmbito da lei, Jesus inicia o evangelho. João está situado no limiar de duas eras, aquela marcada pelo pecado e regida pela dura lei de Moisés e saudando de longe o cumprimento da nova era marcada pela graça do evangelho de Cristo.

A morte de João Batista.

Falou contra o pecado de Herodes. Mt 14:4-12. O batista era um homem um verdadeiro profeta, que via o pecado como uma ofensa a Deus e que deve ser combatido, mesmo que praticado por um regente pagão e zombador da fé judaica.

Foi lançado na prisão. A tentativa de Herodes era amedrontar o profeta, mas não conseguiu. O rei temeu matar João, com medo de desencadear uma revolta.

Da cadeia João mandou mensageiros a Jesus: Mateus 11:2 – João não ficou em dúvida sobre sua vocação e ministério, mas se Jesus era de fato o Messias, pois ainda não tinha batizado com o Espírito e fogo.

Jesus aproveita para ilustrar a dignidade do reino de Deus: v 11 – João figura o maior e ultimo dos profetas, mas o menor do reino dos céus é maior do que João. O reino está operando no mundo e o menor desta era é maior porque desfruta e conhece bênçãos maiores que as desfrutadas por João: a comunhão pessoal com o messias.

Assim a única festa associada a João batista é da sua morte: decapitação. A festa junina não tem, portanto, qualquer vinculo com João, o batista.

Pr. Francimar Lima

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

LIÇÕES SOBRE O AMOR EM CANTARES: O PODER DO AMOR

As figuras empregadas por Salomão para falar do amor enquanto um vínculo poderoso são ricas em detalhes, algo que, em virtude de sua beleza estilística, desafia a sensibilidade de qualquer poeta. Há no texto, dois grupos de metáforas, cada um expressando um aspecto do poder do amor conjugal. O primeiro grupo – morte, sepultura e fogo – apontam para o poder incontrolável e devastador do amor. Nessa seqüência de figuras há aquilo que os estudiosos da literatura sapiencial denominam paralelismo gradativo. A morte indica o fim da existência, a sepultura refere-se à autenticação pública da morte e o fogo é usado em várias passagens para representar a destruição definitiva dos maus. A destruição, portanto, vai ganhando intensidade na medida em que as figuras são apresentadas. O que nos chama a atenção nesse texto é fato do sábio empregar figuras de poder destrutivo para representar o caráter poderoso do amor conjugal. Tanto a morte quanto a sepultura e o fogo são elementos ligados à destruição das coisas. A morte representa a destruição da existência terrena, a sepultura representa a destruição do corpo e o fogo a perdição final dos homens maus. Por que o sábio lança mão dessas figuras para ilustrar o amor?

Quando olhamos rapidamente as páginas da literatura, observamos que, ao longo da história, os poetas empregaram a figura do sol, do mar, das estrelas e até do próprio Deus para expressar o poder que envolve o amor conjugal. Em meu conhecimento extremamente limitado da literatura mundial, não me lembro de um poeta, além de Salomão e de Camões que afirmou que o amor é um fogo que arde sem se ver, que tenha recorrido às figuras da morte, da sepultura e do fogo para expressar o caráter poderoso do amor. Qual seria a razão do sábio ter empregado um procedimento tão radical? Porque será que ele não diz que o amor é como a flor que nasce em terra seca, como as ondas do mar que marcham incontroláveis ou como o sol que dispersa as trevas noturnas?

Em primeiro lugar, deve ser dito que Salomão não está querendo dizer que o amor conjugal é um sentimento necessariamente destrutivo. Na verdade, ao empregar estas metáforas, ele deseja ressaltar o grande poder que está associado ao amor conjugal. Por isso ele recorre a figuras que possuem um conteúdo expressivo tão forte, tão contundente. Além disso, é como se ele quisesse nos lembrar que o amor, quando vivenciado de forma equivocada, pode ser dotado de um potencial destrutivo. O amor conjugal não é necessariamente destrutivo, mas, em virtude do seu imenso poder é capaz de tornar-se destrutivo, pode causar danos irreparáveis aos amantes que usufruírem-no da forma incorreta. Usado de forma incorreta o amor pode se transformar em ciúme possessivo, em sensualidade, adultério e pornografia. Certamente, os publicitários conhecem esse pode do amor quando exploram de forma apelativa a nudez em suas campanhas publicitárias. Ninguém em sã consciência negará que no amor conjugal há o elemento instintivo e impulsional. Se este elemento não for controlado o poder do amor pode se tornar destrutivo. Na verdade, não controlar esse elemento significa vivenciar o amor conjugal de forma equivocada. Pensemos no exemplo de uma esposa que esconde o uniforme do esposo porque não deseja que ele vá jogar bola com os amigos, ou o esposo que não aceita o fato de sua esposa trabalhar fora, ou mesmo aquele que, em um ato extremo, é capaz de tirar a vida da pessoa que afirma amar. Todos estes exemplos apontam, em maior ou menor grau, para o poder destrutivo do amor conjugal, uma forma equivocada de amor conjugal, para ser mais preciso.

O segundo grupo de metáforas empregado por Salomão é ainda mais forte em seu conteúdo expressivo. Neste trecho ele emprega a figura do fogo em diferentes graus de intensidade. Com isso o autor do Cântico dos cânticos tenciona falar dos graus de poder do amor. O sábio começa a sua seqüência de metáforas comparando o amor a uma brasa. O termo hebraico gahelet empregado nesta passagem aplica-se ao carvão de madeira usado para cozinhar, aquecer e queimar incenso. As brasas ardentes podem aplicar-se figuradamente à destruição do herdeiro único de uma família (II Sm. 14:7), ao caráter destrutivo das contendas (Pv. 26:21) e ao juízo divino (Sl. 120:4; 140:10).

O segundo elemento apresentado no texto é a figura da labareda. As labaredas são do Senhor como se o sábio quisesse enfatizar a procedência divina do amor conjugal e, ao mesmo tempo, o seu caráter sacrificial. A expressão “labaredas do Senhor” nos remete às oferendas que eram queimadas a Deus. Trata-se do fogo que adquiriu maior intensidade. É fácil apagar o fogo de uma brasa, basta que lancemos um pouco de água sobre ela. Às vezes, nem é necessário lançar água sobre ela, basta tirá-la do braseiro. O fogo que assumiu a forma de labareda, entretanto, em virtude de sua maior intensidade, é muito mais difícil de ser apagado. Para termos uma idéia disso basta nos lembrarmos daquelas reportagens sobre incêndios florestais. Sempre que elas ocorrem, os bombeiros têm muita dificuldade para controlá-la e só conseguem fazê-lo depois de gastar muito suor e água.

O terceiro estágio do fogo empregado por Salomão não aparece de forma explícita como os anteriores, mas é possível deduzi-lo através da expressão empregada pelo sábio. Segundo ele, as muitas águas não poderiam apagar o amor nem os rios afogá-lo. Que estágio do fogo nem mesmo as águas de um rio podem apagar? Trata-se do vulcão. Em um verdadeiro espetáculo da natureza, quando os vulcões entram em erupção, as suas larvas são capazes de penetrar as águas do mar e manter acesa a sua chama ardente. No vulcão o fogo atinge o seu mais alto grau de intensidade e calor, intensidade à qual nem mesmo o frio das águas podem deter. Com essa figura o paralelismo gradativo do sábio atinge seu clímax. É fácil apagar o fogo em forma de brasa, quando esse fogo se converte em labaredas a tarefa se torna mais difícil, quanto ele se torna vulcão, é praticamente impossível apagá-lo.

A figura empregada por Salomão fala de uma forma muito profunda sobre os graus de poder do amor. Há momentos em que ele pode ser comparado a uma brasa, às vezes ele ganha a intensidade de uma labareda, às vezes, de um vulcão. Esse princípio possui implicações bastante decisivas para o relacionamento conjugal. A principal delas consiste no fato que, quanto maior for a intensidade do amor, mais difícil será para desfazer o laço conjugal. Casamentos que se desfazem com facilidade é porque o seu amor é apenas uma brasa que pode ser apagada facilmente pelas frias águas dos problemas diários. Quando o amor é como o fogo de um vulcão, nem mesmo os mares de tribulações que se arremessam contra o casal, podem apagar ou destruir o amor. Pelo contrário, ele sempre sai dos problemas mais fortalecido.

Como deve ser o processo gradativo do poder do amor? Muitas pessoas têm a seguinte compreensão do amor conjugal: quando ele começa, na época do namoro , é tão intenso e incontrolável como as larvas de um vulcão. Vem o casamento e ele perde a intensidade inicial e se transforma em uma labareda. Após os dez anos de casamento, às vezes menos, quando passa a lua de mel e surgem os filhos, ele se transforma em uma simples brasa cuja intensidade, nem de longe, lembra aquele ardor inicial. Essa concepção é totalmente equivocada. O verdadeiro amor conjugal realiza o movimento inverso. Ele começa como uma brasa, evolui para uma labareda e depois ganha a intensidade de um vulcão. È claro que não estamos restringindo o amor conjugal apenas a sua dimensão física. Já foi falado que o simples apetite físico que encontra realização no ato sexual é apenas um dois componentes do amor conjugal. Há também neste sentimento sublime um profundo prazer de ordem espiritual. Na verdade, o componente físico tende a perder a intensidade com o passar do tempo. Os casais mais idosos sabem muito bem do que estou falando. A perda de intensidade do componente físico do amor conjugal não significa necessariamente que ele está perdendo a intensidade. Na verdade, na medida em que vai se tornando cada vez mais espiritual, ele vai adquirindo maior intensidade, e, quanto mais espiritual o amor conjugal se torna, maior se torna o seu poder. É verdade que, em virtude dos problemas aos quais o relacionamento conjugal está exposto, o casal passará por momentos em que o fogo do amor terá a sua intensidade diminuída, mas ele não demorará em ser restaurado à sua harmonia inicial.

Postado por J. Marques

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LUTERO E A ESCRAVIDÃO DA VONTADE - PARTE IV

IV. Lutero conclui fazendo o seguinte apelo a Erasmo:


Agora, meu Erasmo, peco-te, por Cristo, que cumpras o que prometeste; pois prometeste ceder ao que ensina algo melhor. Esquece a consideração de pessoas! Admito que és um grande homem e dotado por Deus com muitos dos mais nobres dons, para não falar dos demais, de teu talento, erudição e da eloqüência quase milagrosa. Eu, no entanto, nada tenho e nada sou, a não ser que quase me possa gloriar de ser cristão. Além disso elogio e gabo muito em ti o seguinte: és o único que atacou a questão em si, isso é, a questão essen¬cial, e näo me fatigaste com aqueles assuntos secundários sobre o papado, o purgatório, as indulgências e outras coisas deste tipo que mais são frivolidades do que questões [sérias], pelas quais ate agora quase todos tentaram caçar-me em vão. Tu como único reconheceste o ponto central de toda [controvérsia] e pegaste a coisa pela gravata; por isso te agradeço de coração. Pois com este tema gosto de ocupar-me muito mais, sempre que as circunstâncias e o tempo o permitem. Se aqueles que ate agora me agrediram tivessem feito isso, se ainda o fizessem aqueles que apenas insistem em novos espíritos, em novas revela¬cões, teríamos menos sedições e seitas, e mais paz e concórdia. Mas foi desta maneira que Deus castigou nossa ingratidão por meio de Satanás. Se, porém, não podes tratar desse assunto de forma diferente do que o fizeste na Diatri¬be, desejaria muitíssimo que te satisfaças com teu dom e que te dediques a cul¬tivar, enobrecer, fomentar as ciências e as línguas, como o vinhas fazendo até agora com grande sucesso e louvor. Com este trabalho também prestaste um grande serviço a mim e confesso que te devo muitas coisas, e, por certo, nes¬te sentido, te tenho muita estima e sincera admiração. Deus ainda não quis até agora que estivesses a altura desta nossa causa. Peco-te, porém, entender que nada disso é dito com arrogância. Rogo, porém, que em futuro próximo o Se¬nhor te faça tão superior a mim neste assunto como és superior a mim em to¬das as demais coisas. Pois näo é nenhuma novidade se Deus instrui a Moisés por meio de Jetro e ensina a Paulo por meio de Ananias”. Quando, porém, dizes que seria errar o alvo de longe se tu ignorasses a Cristo, julgo que tu próprio deves ver como está a situação. Pois nem todos irão errar se erramos tu e eu. E Deus que é anunciado admiravelmente em seus santos, para que consideremos santos aqueles que estão mais distantes da santidade. E visto que és humano, pode acontecer com facilidade que não entendas de forma correta ou não examines com suficiente diligência as Escrituras e os ditos dos pais, sob cuja orientação crês alcançar o alvo. Isso o denun¬cia com clareza suficiente o fato de escreveres que não fazes assertivas, mas apenas comparações. Assim não escreve a pessoa que tem uma visão profun¬da do assunto e o entende corretamente. O Senhor, porém, de quem é a causa que defendo, te ilumine e faça de ti um vaso para honra e gloria. Amém.

Postado por Elias Lima

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

LIÇÕES SOBRE O AMOR EM CANTARES: A IDENTIFICAÇÃO

O texto de Cantares 8:6,7, comumente citado em convites de casamento e em cerimônias nupciais, é aquele que melhor define a natureza do amor conjugal em toda a Escritura. Apenas nesse texto são encontrados três os elementos indispensáveis à compreensão do sentido do Eros, termo empregado por C. S. Lewis para identificar o amor conjugal.

O amor conjugal é, antes de tudo, um laço que implica em identificação entre os amantes. Salomão recorre à metáfora do selo para falar da identificação que o amor produz nos cônjuges. Também conhecido como sinete, o selo é empregado desde tempos remotos para indicar a autenticidade de um documento ou mensagem, comprovando assim a identificação entre ela e seu emissor. O selo era uma espécie de confirmação pública de que ele era responsável pelo conteúdo emitido. O exemplo bastante claro dessa prática no Antigo Testamento pode ser encontrado no episódio da morte de Nabote. Nesta ocasião, a rainha Jezabel envia cartas aos anciãos e nobres de Israel, selando-as com o sinete de Acabe (II Re. 21:8). Na Antiguidade, era comum os reis e nobres usarem como selo os seus próprios anéis. Quando os servos eram enviados, por exemplo, a transmitir uma mensagem de seus senhores, eles costumavam levar os anéis para confirmar a identidade entre este comunicado e o seu suposto emissor. Com a presença do anel ninguém ousaria questionar a autenticidade daquela mensagem.

O autor do Cântico recorre à figura do selo exatamente para falar da identificação que existe no amor conjugal. Essa identificação é tão profunda que o sábio extravasa na aplicação da metáfora. O selo não é colocado apenas sobre o braço, mas sobre o coração. O braço, provavelmente um sinônimo poético para mão, representa o componente físico, já o coração, enquanto núcleo da afetividade humana, aplica-se ao elemento espiritual. Isso comprova que há no amor conjugal uma dupla identificação: interna e externa. Para utilizar outros termos, uma identificação espiritual e física ao mesmo tempo. O amor conjugal vai do simples apetite físico ou sexual ao mais elevado prazer espiritual. Sem a identificação física o Eros se transforma em sadismo e sem a identificação espiritual ele se converte em auto-erotismo. Amar é, portanto, identificar-se com a pessoa amada, é desejar que os outros nos vejam através dela. De uma forma misteriosa, o amante utiliza a amada como uma espécie de selo em seu próprio corpo, e o mesmo faz a amada em relação ao amante.

Algumas pessoas costumam empregar um princípio da física segundo o qual os opostos se atraem para falar do amor conjugal. Na verdade, o grande mérito do amor não está em atrair os amantes, mas em manter unidos aqueles que por ele são atraídos, e isso só é possível por meio da identificação. A simples oposição pode ser empregada como força atrativa, mas também pode ser empregada como instrumento de separação. Sem a identificação, portanto, o atrito vira conflito e a oposição vira separação. Isso serve como uma espécie de conselho para aqueles que pretendem partilhar o amor conjugal. É preciso que eles busquem pessoas com as quais possam estabelecer um vínculo de identidade. Se há algum casal que já está partilhando do amor conjugal e não consegue encontrar identificação entre ele e a pessoa amada, ele precisa descobrir o mais rápido possível algo que lhe identifique com a pessoa amada, caso contrário o seu relacionamento estará ameaçado.

O princípio da identificação tem implicações bastante sérias para o relacionamento entre os casais. Em primeiro lugar, ele ensina que aquele que ama desejará sempre associar-se publicamente à pessoa amada. Há uma prática muito comum entre casais de namorados que consiste em imprimir em blusas a foto da pessoa amada. Esta foto é quase sempre acompanhada por frases poéticas e declarações amorosas. O namorado sente-se feliz e até um pouco orgulhoso em poder trajar esta roupa. É como se ele quisesse declarar a todos que está ligado a essa pessoa, que se identifica com ela. A foto da pessoa amada é usada como uma espécie de selo. Infelizmente, esta prática não é vista com a mesma freqüência entre pessoas casadas. Entre casais que já ultrapassaram os dez anos de casamento, a foto da pessoa amada é geralmente substituída pela foto dos filhos. Essa é uma das primeiras evidências que o vínculo de identificação que marca o amor conjugal está se perdendo. No último estágio dessa tendência danosa, o cônjuge sentirá vergonha de associar-se ao seu companheiro, evitará, por exemplo, passear com ela em ambientes públicos ou apresentá-la aos amigos de trabalho. Casais que chegaram a este estágio certamente desconhecem que o amor conjugal é marcado pela identidade entre os amantes. Não sabem que aqueles que são envolvidos por esse sentimento sublime desejarão ardorosamente publicar para todos a sua ligação com a pessoa amada. Desculpem-me a franqueza e o rigor das palavras, mas há muitos esposos que tratam as suas esposas como prostitutas. Não no sentido de que pagam para possuir seus corpos, mas no sentido de que se envergonham dela e querem mantê-las escondidas, ficam embaraçados sempre que precisam comparecer em público com elas. Que fique bastante claro: em um relacionamento dessa natureza os cônjuges desconhecem a essência do amor conjugal, desconhecem o poder desse laço de identificação que une os amantes.

Em segundo lugar, o princípio da identificação implica em valorização. Aquele que ama vê a pessoa amada como algo precioso. Essa consciência muda drasticamente o tratamento dos casais entre si. Para recorrer a uma analogia, que mulher, possuindo um colar de pérolas, desejará que ele fique sempre guardado? Na verdade, ela desejará mostrar a todos a sua joia valiosa, por isso, costuma usá-la em ocasiões importantes. Durante a festa, sempre que as pessoas olham para ela e ficam extasiadas com a beleza do seu colar, ela se sente orgulhosa por ser dona de tal joia. Além disso, ela cuidará do seu colar com todo o empenho, considerando que ele é algo precioso para ela. Essa comparação ilustra bem a ideia do amor conjugal. Quem ama vê a pessoa amada com uma joia preciosa. Por esta razão, cuidará dela com todo empenho e dedicação e ficará feliz sempre que as pessoas puderem perceber que eles se pertencem, que estão indissoluvelmente unidos pelo amor, sentir-se-á importante porque pertence a amada e amada lhe pertence.

Por fim, deve ser acrescentado que é o princípio da identificação que garante a unidade do relacionamento conjugal. Somente por meio dele a metáfora “tornar-se uma só carne”, utilizada para representar o casamento, ganha vida. Sem ele pode ser que haja um ajuntamento entre duas pessoas, nunca a sublime e misteriosa unificação conjugal. Eis a razão porque muitos casais estão vivendo sérias crises conjugais: não é que eles sejam incapazes de amar, a razão é que eles desconhecem as implicações do princípio de identificação que caracteriza o amor.



Postado por J.Marques