sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O DESAFIO DA PREGAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE (Parte 1)

Cedendo lugar ao Pragmatismo

O movimento pragmatista propriamente dito teve origem nos Estados Unidos, no final do século XIX, em torno de quatro figuras fundamentais: Charles Sanders Peirce, William James, Ferdinand Canning Scott Schiller e John Dewey. A orientação pragmatista, contudo, está presente em outras correntes filosóficas. Aparece como tendência no pensamento de Friedrich Nietzsche – em sua teoria sobre a "utilidade e o prejuízo da história para a vida" e na concepção da verdade como "equivalente ao que é útil para a espécie e para sua conservação" – e nos movimentos anti-intelectualistas de Henri Bergson, Maurice Édouard Blondel e Oswald Spengler, já no século XX. A rigor, o pragmatismo americano começou a tomar forma nas reuniões do Clube Metafísico de Boston, que existiu entre 1872 e 1874 e ao qual pertenciam, entre outros, Peirce, James, F. E. Abbot e Chauncey Wright. No entanto, foi só em 1907, com a publicação de uma coleção de preleções intitulada Pragmatismo: Uma Nova Nomenclatura para algumas Velhas formas de Pensar, escritas por William James, que o nome foi dado e moldado à nova filosofia.

A teoria pragmática da verdade sustenta que o critério de verdade está nos efeitos e conseqüências de uma idéia, em sua eficácia, em seu êxito, no que depende, portanto, da concretização dos resultados que se espera obter. Verdadeiro e falso são, portanto, sinônimos de bom e mau, valores lógicos que têm caráter prático e só na prática encontram significado. Aqui temos uma clara rejeição aos absolutos – certo e errado, bem e mal, verdade e erro. O pragmatismo define a verdade como aquilo que é útil, significativo e benéfico. As idéias que não parecem úteis ou relevantes são rejeitadas como sendo falsas, como bem escreveu MacArthur, em seu livro Com Vergonha do Evangelho.

Pois bem, este tipo de filosofia tem adentrado na assim chamada “igreja contemporânea”, onde parece que tudo estar na moda, exceto a pregação bíblica. Rubem Amorese descreve isto muito bem, quando escreveu que o pastor, diante deste quadro e se ele quer seguir o pragmatismo, então precisa estar constantemente atualizado sobre as novas tendências litúrgicas, para poder oferecer aos seus membros o que há de mais moderno e atraente. Em outras palavras, ele precisa manter-se “na crista da onda”, ou seja, se a “onda” é tremer, vamos tremer; se é dente de ouro, vamos possuí-lo; se é palestras sobre marketing; vamos ter várias palestras em busca de técnicas que ajudem no crescimento da igreja; se os jovens gostam de música bem ritmada e pouco compromisso, o caminho então, como um pastor já tem dito: “é o pastor botar um boné na cabeça e transformar o culto num sambão evangélico ou num show de auditório. Hoje, muitos “crentes” (Deus o sabe) querem algo sensacionalista, que possa lhes promover entretenimento, que lhes massageie o ego. È por isso que não poucos pregadores, temem em pregar a palavra tal como ela é, pois temem ofender as pessoas. Então os mesmos estão pregando (quando pregam) uma mensagem sem sabor, e sem o poder e autoridade que vem do alto.

Os membros, deste tipo de igreja, querem pregadores que lhes prometam sucesso e prosperidade. Eles são dirigidos por seus desejos sensuais. Eles querem pular pra cima e pra baixo, correr ao redor e se sentir bem... ou sentir bem acerca de si mesmos. Os ouvintes convidam e entalham os seus próprios pregadores. Se o povo deseja adorar um bezerro, um ministro fazedor de bezerros é facilmente encontrado.

A razão específica porque muitas igrejas contemporâneas abraçam a metodologia pragmática é por que lhes falta qualquer noção da soberania de Deus na salvação dos eleitos. Elas já perderam a confiança no poder de Deus em usar a pregação do evangelho a fim de alcançar incrédulos endurecidos de coração. É por isso que abordam o evangelismo como uma questão de marketing e moldam a sua metodologia de acordo com este.

Postado por Elias Lima

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O REI, O PASTOR E A SULAMITA: ANOTAÇÕES SOBRE O CÂNTICO DA FIDELIDADE

INTRODUÇÃO

Muitas interpretações sobre Cantares já foram realizadas ao longo da história. Os partidários do método alegórico vêem na suposta história de amor entre Salomão e a Sulamita um simbolismo sobre o amor entre Cristo e sua Igreja. O pressuposto que guia essa interpretação é simples: em virtude do seu caráter espiritual, a Bíblia não poderia exaltar a dimensão sensual do amor. Sendo assim, o aparente conteúdo marcado pelo erotismo só poderia ser visto como uma espécie de analogia de uma forma mais elevada de amor. Na verdade, foi esse pressuposto que fez com que o livro de Cantares fosse um dos últimos a ser inserido no cânon do Antigo Testamento. A princípio, ele foi considerado sensual demais para integrar as Santas Escrituras. Esse tipo de interpretação foi predominante no cristianismo medieval, principalmente, por conta da influência dos ideais monásticos. Uma interpretação mais literal afirma que o livro narra de forma poética o relacionamento amoroso entre o rei Salomão e uma jovem identificada como Sulamita. Para o autor desse artigo, a primeira interpretação é absurda e a segunda é incompatível com as informações encontradas no próprio livro. Em outras palavras, a verdadeira história por trás do poema salomônico não se encaixa em nenhuma dessas análises. Para ser franco, por fazer parte do gênero poético, é possível que Cantares não seja baseado em nenhuma história verídica, mas seja apenas fruto da imaginação do poeta que o escreveu. Não obstante, se há uma história por trás do Cântico dos cânticos, ela precisa ser completamente distinta das sugestões apontadas acima. Assim, é necessário que empreendamos uma redescoberta da história que envolve esse clássico poema de amor. Como ponto de partida é preciso que consideremos que existem três personagens na história e não apenas dois como comumente é aceito.

1. A SULAMITA

Uma das questões mais intrigantes no livro diz respeito à identidade de sua protagonista. Ela é designada apenas como Sulamita. Provavelmente, o termo é um adjetivo pátrio, usado para identificar o povo dessa jovem. Assim, ela era chamada Sulamita por ser originária de Sulém. O problema é que em todo o antigo Testamento não há uma única referência a esse povo. Tal fato tem levado alguns estudiosos a sugerir que Sulen seria uma variação de Suném.
Mesmo sendo de origem incerta, o livro apresenta várias informações sobre essa jovem. Que a Sulamita pertencia à nobreza, fica claro pela expressão “filha de príncipe”, a ela dirigida (7:1). Seu colar de pérolas, as substâncias aromáticas com as quais se perfuma e seus trajes requintados também atestam a sua realeza (4:9, 10; 5:3). Além disso, a desejada de Salomão se imagina desfilando em um carruagem diante do seu povo, em uma espécie de cortejo real (6:12), algo inconcebível, não fosse a sua origem nobre. O texto também deixa claro que a Sulamita foi vítima de intrigas criadas por seus irmãos, sendo obrigada por eles a cuidar de vinhas ((1:6). Embora o texto não apresente claramente o que motivou essas intrigas, duas possibilidades podem ser admitidas. Em primeiro lugar, elas podem estar ligadas à sucessão real. O fato da referência ao pai ser omitida ser é uma indicação de que já havia morrido. Se a Sulamita fosse a primogênita, ela poderia casar-se e o trono passaria a seu esposo, o que não seria interessante para os irmãos. Em segundo lugar, pode ser que os irmãos tenham isolado a Sulamita do convício real como uma espécie de punição por algum ato praticado por ela. Talvez em função de um relacionamento com uma pessoa de posição social inferior. Seja como for, o fato é que os irmãos vêem a presença da Sulamita como uma ameaça e querem mantê-la isolada. Só assim poderíamos conceber a idéia de uma princesa trabalhando de sol a sol no árduo trabalho dos vinhedos. Contudo, o texto nos mostra que a Sulamita é retirada desse desgastante trabalho e levada a corte de Salomão (1:4). Provavelmente, para compor o farto harém do monarca israelita. De fato, ela permanecerá nesse lugar durante a maior parte da narrativa. Entretanto, no final do relato nossa protagonista se ausenta do palácio por motivo não esclarecido (6:13), não havendo nenhum indício do seu retorno.

2. SALOMÃO
Claramente, Salomão é um dos protagonistas do poema. A maioria das interpretações considera o rei de Israel como sendo o amado da Sulamita. Não obstante, várias evidências podem ser apresentadas para refutar essa posição. Em primeiro lugar, a narrativa parece indicar que a Sulamita se dirige a duas pessoas bem distintas. Ao rei (1:4, 12) e ao seu amado (1:7, 16; 2:8; 3:1; 5:6, 8). No primeiro caso, o tratamento é apenas respeitoso em virtude da posição de autoridade do monarca, no segundo caso, o termo é sempre acompanhado pela intimidade e paixão que movem os amantes.
Em segundo lugar, a Sulamita deixa claro que o seu amado está lhe seguindo às escondidas. Ele contempla a sua amada por trás das paredes de seu aposento e lhe espreita pelas grades (2:9). Claramente, o amado teme ser surpreendido por alguém. Esse temor é tão evidente que em um dos encontros, o amado foge de forma inesperada (5:5, 6). Provavelmente, por medo da guarda que exercia uma vigilância rigorosa sobre o harém real. Se essa pessoa fosse Salomão, não haveria justificativa para tal temor. Na qualidade de rei e esposo da Sulamita, ele poderia se dirigir aos seus aposentos com toda a confiança, sem a necessidade desses encontros furtivos.
Em terceiro lugar, a Sulamita afirma que tem saudade do seu amado (7:8). Isso nos leva a concluir que os amantes estão separados, ou, pelo menos, não podem se encontrar sempre que desejam. Novamente, esse fato não pode ser aplicado a Salomão. Em geral, os haréns reais ficavam bem próximos ao palácio. Sendo assim, o rei de Israel poderia ver a sua amada diariamente e não havia razão para nutrir por ela saudade, esse sentimento que brota unicamente a partir da ausência e do desencontro.
Uma outra evidência pode ser vista no receio da Sulamita em tornar público o seu relacionamento. Ela sabe que poderá ser alvo do repúdio público em virtude da condição inferior de seu amado (8:1). A jovem deseja que seu amado seja semelhante aos seus irmãos, uma outra forma de dizer que gostaria que ele pertencesse à mesma classe social à qual pertencia. Portanto, o relato parece indicar que o amado é de uma posição social inferior, o que não poderia ser aplicado a Salomão.
Em quinto lugar, em uma de suas fugas noturnas para se encontrar com o seu amado, a Sulamita é surpreendida e espancada pelos guardas do murro (5:5-7). Parece absurdo que os guardas ousem espancar uma das esposas do rei, principalmente, se considerarmos que ela está em busca dele. A não ser que o próprio Salomão, sabendo dos encontros entre a Sulamita e seu amado, tivesse ordenado esse tratamento agressivo.
Aqueles que não concordam com essa linha de interpretação, em geral, fazem o seguinte questionamento: como Salomão poderia ter escrito uma história onde ele mesmo é o vilão? Em primeiro lugar, se considerarmos a inspiração divina do livro, somos levados a crer que o escritor humano foi verdadeiro e imparcial ao registrar cada fato, ainda que esses fatos sejam contra a sua pessoa. A Bíblia não é um tipo de biografia encomenda que exalta somente as virtudes dos seus protagonistas. Em segundo lugar, a hipótese do livro ter sido escrito por uma outra pessoa é completamente aceitável. Isso porque o título “Cântico dos cânticos de Salomão” pode indicar que o rei de Israel foi o autor da obra, mas pode também significar que ele foi apenas o personagem central de uma obra escrita por outro autor.

3. O PASTOR
Mais enigmático do que a identidade da Sulamita é a identidade do seu amado. A não ser que o interpretemos como sendo Salomão. Essa posição, contudo, já foi descartada no tópico anterior. O relato apresenta poucas informações sobre esse personagem, nem mesmo o seu nome ou origem são mencionados. Entretanto, os poucos dados que podem ser encontrados no poema são bastante esclarecedores. O amado da Sulamita é um pastor de ovelhas, alguém de uma condição social bastante humilde (1:7; 2:16; 6:2, 3). Esse fato justificaria a não aprovação desse relacionamento amoroso vivenciado por eles. Provavelmente, o amado não morava tão distante do palácio, fato que pode ser deduzido de suas visitas contínuas à sua amada (2:9; 3:4; 5:2). Em trechos da narrativa a coragem do pastor fica evidente. Ele é capaz de enfrentar os maiores perigos para encontrar-se com a Sulamita e sufocar a sua saudade. O pastor consegue ultrapassar até mesmo a forte segurança do palácio. Em um desses encontros a sua ousadia beira o extremo. Ignorando o perigo, ele vai ao quarto de sua princesa no harém real (5:4, 5). No final, a sua coragem será recompensada pela fidelidade de sua amada (8:10).

CONCLUSÃO

A linha de interpretação exposta neste artigo exige que seja dada uma outra temática ao Cântico dos cânticos. É necessário, portanto, que a fidelidade, e não o amor, seja colocada como centro desse livro. Obviamente o amor está presente neste poema. Não obstante, ele funciona apenas como um palco onde a fidelidade conjugal é exaltada. Levando em consideração as circunstâncias, o autor desse artigo ousa afirmar que em Cantares está uma das mais belas histórias sobre a fidelidade em todos os tempos. A Sulamita “foi um muro”. Que honra prestaríamos ao autor do Cântico se compreendêssemos o sentido dessa metáfora.
Postado por J. Marques

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

REFLEXÕES SOBRE UM INSTANTE

Em vão os vivos tentam explicar a morte. Essa companheira perpétua do homem caído só se dá a revelar aqueles a quem toma pela mão. Somente eles podem compreender o mistério da passagem. Nem mesmo as mais profundas sentenças teológicas ou a mais acurada reflexão filosófica, nem mesmo a suma de todo o conhecimento científico poderão traduzir em sua plenitude esse Instante que, ao lado do nascimento, são os únicos onde toda a existência se encontra. Aquele que está vivo tem a capacidade de compreender a vida, o que morre é capaz de compreender a morte, mas é somente quem morre em Cristo que é capaz de compreender a vida a morte e a vida eterna. Quem atravessa os portais da morte seguro pela mão de Cristo, percebe que esta passagem, embora seja dolorosa para os que ficam, é apenas um Instante entre uma vida incompleta e a vida em sua plenitude. Mas por que razão o Criador permitiu a existência desse breve e indesejado intervalo entre as duas modalidades de vida? Provavelmente, para marcar a grandeza da vida futura em relação à vida presente. É como se Ele quisesse mostrar que o breve desencontro confere mais grandeza ao reencontro, como se estivesse a dizer, cada vez que um cântico embala o funeral de um fiel, que era esse tipo de vida que ele desejava para o homem desde a eternidade.

Felizes são aqueles que vivem em Cristo, pois possuem através de sua fé a capacidade de contemplar a eternidade. Entretanto, ainda mais venturosos são aqueles que já morreram em Cristo, pois, transpondo as barreiras da morte, mergulharam na vida plena para a qual Deus os destinou desde a eternidade. O sábio Salomão afirma que Deus plantou a eternidade no coração do homem. Há dentro dele a centelha do infinito. Paradoxalmente, esse pequeno gérmen ganha vida com a morte. O próprio Cristo explora esse paradoxo ao afirmar que o grão de trigo, ao ser lançado na terra, não ganha vida até que tenha morrido. O Mestre fazia referência à sua própria morte.

Para aquele que descansa em Cristo a morte é apenas um Instante. É somente os que ficam, em virtude da separação causada por esse flagelo da existência, que vivem a realidade da morte, são eles que hão de se deparar com a sua realidade a cada dia, através das lembranças sempre presentes do ente querido. A não ser a dor física, cuja intensidade e duração dependem da situação, quem morre em Cristo, não é afetado pelo sofrimento da morte. São os que ficam que terão que conviver com esta experiência dolorosa. A dimensão desse sentimento será proporcional à intensidade dos laços afetivos que prendem as pessoas envolvidas, mas também será aumentado por uma morte em circunstâncias completamente inesperadas. Pensemos no exemplo de um esposo recém-casado que perde a sua companheira em um acidente de automóvel. Certamente, o seu sofrimento será muito superior àquele experimentado por alguém que perde um colega de trabalho, falecido depois de sofrer durante três anos com um câncer no estômago. Mesmo que a esposa tenha morrido em Cristo e que o esposo compartilhe com ela da mesma esperança, o seu sofrimento será indescritível. Para a esposa, a morte foi apenas um Instante entre uma vida incompleta e uma vida plena, entre o tempo e a eternidade, mas para o esposo essa experiência estará sempre presente, até que ele reencontre a sua amada e toda a separação seja desfeita.

Pensando um pouco mais no exemplo mencionado acima, por que razão o esposo sofre diante da morte da esposa mesmo sabendo que, em virtude de sua esperança cristã, encontrar-se-ão novamente em um nível de vida incomparavelmente melhor? Não há dúvida que o grau de intimidade e cumplicidade entre os cônjuges, os laços afetivos que os unia e as experiências vividas por eles são causas que ajudam a justificar o despertar desse sentimento. A certeza de que a troca de intimidades e sentimentos não será mais possível, de que o percurso das experiências vividas foi interrompido pela morte e de que os olhares não mais trocarão a cumplicidade própria dos casais, enfim, todo esse turbilhão de imagens projeta-se como uma seta no peito do cônjuge que fica, causando-lhe o mais intenso sofrimento. Não obstante, a principal razão desse sentimento doloroso é muito mais profunda. A razão é que o esposo ainda não conhece a morte enquanto um mero Instante, uma vez que ele ainda não a transpôs o seu limiar. Além disso, como ainda está na vida presente, a vida porvir, mesmo em face de sua esperança inabalável, continua sendo uma promessa à qual ele ainda não vivenciou em sua plenitude.

A esperança, no entanto, será de grande valia para o cônjuge que fica, pois é através dela que Deus lhe dará a cada dia o seu consolo. Enquanto ele viver, a morte de sua esposa existirá e, mesmo com o tempo, causar-lhe-á algum tipo de sofrimento. Por isso, ele precisará constantemente desse alento. Infelizmente, o sofrimento não se extingue por completo até que os dois se reencontrem na eternidade. Entretanto, quanto maior for a fé do cônjuge, maior será a sua capacidade de lidar com a dor da separação e melhor habilitado ele estará para transformar o lado doloroso desse desencontro em um sentimento de expectativa pelo reencontro. Além disso, Deus conceder-lhe-á força e sabedoria para compreender o mais elevado conceito de amor, que consiste na busca do maior bem do seu objeto. Pelo fato de ainda estarmos em um mundo onde existe o sofrimento, a realização desse maior bem nem sempre exclui a tristeza de uma das partes, ou de ambas, fato que ocorrerá em relação ao esposo que perde a sua companheira de todas as horas. Contudo, sustentado por sua fé, ele compreenderá que, embora a vida presente de sua esposa fosse um bem divino, em escala de valores, a vida eterna é um bem incomparavelmente maior. Se foi do agrado do Pai celeste conceder a vida plena à sua esposa naquele momento, ainda que diante de lágrimas, ele o compreenderá e será capaz de dizer como apóstolo Paulo: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte”. (II Co. 12:10). Mas de onde ele tira o seu prazer? Do amor de Cristo e da certeza que, diante da eternidade, a morte e a própria vida presente são meros instantes temporais e que, diante dessa nova realidade, todo Instante se perde. Ele sabe, enfim, que, em Cristo, o homem começa a viver quando morre.

Nota: In memorian de Luzivana Fontinele Marinho Freitas à qual, no dia 28 de agosto de 2008, o Senhor concedeu-lhe o dom de compreender a vida, a morte e a eternidade. Além disso, o artigo é uma palavra de consolo para o seu esposo e para todos aqueles que foram privados provisoriamente da sua presença, bem como uma advertência para todos aqueles que pretendem transpor os portais da morte, sem ter a certeza de que isto lhes abrirá o caminho rumo ao trono divino. Agradecemos ao irmão Fandermiller da Cunha Freitas por ter, gentilmente, autorizado a publicação desta reflexão. A nossa oração constante tem sido para que Deus esteja confortando o seu coração, bem como a cada um dos familiares dessa querida irmã.


No amor do Eterno:

Elias Lima
Francimar
J. Marques
J. Roberto
J. Figueiredo

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ENSAIO SOBRE O ESQUECIDO CÂNTICO DA VINHA

“Teve Salomão setecentas mulheres princesas e trezentas concubinas” I Re. 11:3.

A Sulamita foi uma das princesas de Salomão. Na verdade, ela foi praticamente obrigada a aceitar essa condição. Com toda a sua grandeza e fama, o filho de Davi conquistou muitas mulheres. Não obstante, aquela a qual ele mais amou, não foi capaz de conquistá-la. Mas por que razão Salomão não pôde conquistar o coração dessa princesa? Simplesmente porque ela já o havia entregado a outro. O felizardo era um jovem pastor a quem ela amava com todas as suas forças e com quem tinha feito juras de amor eterno. O primeiro encontro entre o filho de Davi e a Sulamita foi em uma vinha onde esta trabalhava. O rei de Israel ficou encantado com a beleza quase angelical daquela jovem e amou-a desde o primeiro encontro. Com seu olhar envolvente a Sulamita arrebatou o coração de Salomão. Mas o que fazia uma princesa trabalhando arduamente em um vinhedo?

“Os filhos de minha mãe se indignaram contra mim e me puseram por guarda de vinhas, a vinha, porém, que me pertence não a guardei” Ct. 1:6.

A nossa heroína havia sido forçada por seus irmãos a realizar essa tarefa desgastante depois que o seu romance com um pobre pastor de ovelhas havia sido descoberto. O trabalho era ao mesmo tempo uma punição e uma forma dos irmãos exercerem uma vigilância sobre a jovem, considerando que os vinhedos reais eram guardados de forma bastante rigorosa. Quem tentasse penetrá-los, poderia ser surpreendido pela guarda. Com essa medida, os irmãos pretendiam separar a Sulamita do seu amado, em virtude do abismo social que separava os amantes. O romance não se adequava às convenções sociais da época. A medida não surtiu efeito, pois os jovens, movidos por sua paixão, continuaram a se encontrar e a embalar o seu amor à sombra das videiras. A cada pôr-do-sol, os jovens se encontravam e, sentados sobre as folhagens do vinhedo (1:16), prometiam fidelidade ao outro. Entretanto, tramas sem fim espreitavam o caminho dos amantes, a fim de colocar à prova a resistência do seu amor.

“O rei me introduziu nas suas recâmaras” Ct. 1:4.

Sabendo que a Sulamita ainda continuava a se encontrar às escondidas com seu pastor e percebendo que Salomão ficara encantado com a sua beleza, os irmãos resolveram entregá-la ao rei de Israel em uma espécie de acerto diplomático. Com isso, além de colocarem fim ao romance proibido entre ela e o tal pastor, garantiam uma aliança com o poderoso monarca de Israel. Assim, a contragosto, a nossa heroína foi levada à corte, ficando confinada ao harém real. Agora os amantes estavam separados. A lembrança dos encontros amorosos entre as árvores do vinhedo acalentava a dolorosa saudade que agora os consumia em silêncio (7:10). Contudo, mesmo a despeito da distância física, as suas almas continuavam unidas, e os jovens começaram a maquinar estratagemas a fim de que seu amor não fosse derrotado. Movidos pela paixão e pela fidelidade mútua, os dois estavam dispostos a enfrentar os maiores perigos para continuarem juntos.

“As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, seria de todo desprezado” Ct. 8:7.

Salomão teve inúmeras mulheres, mas por nenhuma ele nutriu um sentimento tão profundo como a paixão arrebatadora que sentiu pela Sulamita. Mas logo o rei de Israel começou a perceber que aquele sentimento não era recíproco. Maior que a indiferença com a qual a jovem lhe tratava era apenas a tristeza expressa em seus lábios. A dolorosa separação havia furtado o sorriso radiante da Sulamita e a todos era evidente a sua infelicidade. O rei de Israel tentou de todas as formas conquistar o amor da bela moça. Ofertou-lhe os presentes mais preciosos, tudo aquilo que o dinheiro podia comprar ele ofereceu à sua amada. Mas tudo foi em vão. O amor dessa bela jovem não tinha preço. Ela já tinha oferecido gratuitamente ao seu pastor. O rei promoveu uma grande festa para todos os nobres da corte e exigiu que a Sulamita se assentasse ao seu lado (1:12). Certamente, todas as mulheres de Salomão gostariam de ter recebido essa honraria. Mas nem mesmo esse reconhecimento público foi capaz de mudar o coração da princesa. O seu amor era tão forte que ela seria capaz de rejeitar até mesmo toda a fortuna do rei de Israel e toda a glória que isso poderia acarretar.

“Mal os deixei, encontrei logo o amado da minha alma; agarrei-me a ele e não o deixei ir embora, até que o fiz entrar em casa de minha mãe e na recâmara daquela que me concebeu” Ct. 3:4.

O pastor não havia esquecido a Sulamita. Todas as noites ele circulava pelos arredores do palácio em busca da sua amada e, cada vez que a jovem percebia a presença dele, o seu coração se enchia de alegria e esperança. Ela era tomada de um desejo quase incontrolável de correr para os seus braços, ainda que para isso tivesse que pular as altas muralhas do palácio. Em uma noite, sabendo que seu amado estava à sua espera, a Sulamita resolveu correr o risco para desfrutar de um encontro com ele fora das muralhas do castelo. Para conseguir passar pela guarda que vigiava a entrada do palácio, a jovem precisava de uma boa desculpa. Afirmou que estava à procura do seu amado. Certamente, os guardas pensaram que ela estava se referindo a Salomão, por isso, permitiram a sua passagem tranquilamente. Mas ao chegar fora dos muros, a Sulamita percebeu com tristeza que o seu pastor não estava mais ali. Provavelmente, fugira temendo ser descoberto pelos guardas. A jovem saiu à procura do seu amado, encontrando-o em seguida. Naquela noite, embalados pelo amor, os jovens sufocaram a saudade e reataram o laço de fidelidade que os unia.

“Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade, espancaram-me e feriram-me; tiraram-me o manto os guardas do muro” Ct. 5:7.

Depois do primeiro encontro, a Sulamita sempre encontrava uma forma de sair dos seus aposentos no harém real para encontrar-se com o seu pastor. Os encontros entre os jovens começaram a se tornar mais freqüentes, até que Salomão os descobriu. Tentando surpreender os amantes, o rei reforçou a segurança no harém e nos arredores do palácio e ordenou que a jovem fosse punida com violência e o pastor fosse morto, caso fossem flagrados em seus encontros furtivos. Um dia a Sulamita não compareceu ao local habitual de encontro no horário determinado, fato que preocupou o seu pastor. À medida que o tempo passava e ela não chegava, aumentava a ansiedade do jovem. Então, em uma atitude ousada, dessas que só podem ser justificadas por um ardente amor, ele resolveu ultrapassar as muralhas do castelo e ir até os aposentos da sua amada no harém. A batida do pastor na porta logo foi percebida por ela, mas o barulho também chamou a atenção dos guardas e o jovem teve que fugir para não ser surpreendido e morto. Quando a Sulamita saiu dos seus aposentos, exalando o seu perfume, o seu pastor já se retirara. Quase desesperada, ela foi ao local de sempre para tentar encontrá-lo, contudo, no caminho, foi surpreendida pelos guardas do muro. A jovem foi ferida, espancada e levada acorrentada à presença de Salomão (5:2-8). Mesmo a despeito de sua indiferença e sabendo que o seu coração pertencia a outro, o grande rei de Israel continuava cada vez mais fascinado por aquela bela princesa. O rei estava enfurecido, afinal de contas, aquela a quem ele tanto amava, dedicava todo o seu amor a um humilde pastor. Salomão não conseguia aceitar que uma princesa rejeitasse a companhia de um rei para se entregar a um homem do povo. Mas o filho de Davi ainda conservava lapsos da sabedoria divina e decidiu agir com misericórdia em relação à Sulamita. Mais que isso, percebendo que ela era sua prisioneira e não sua esposa, resolveu deixá-la livre.

“Volta, volta, ó Sulamita, volta, volta para que nós te contemplemos” Ct. 1:13.

A Sulamita ainda permaneceu no harém por algum tempo, mas ela não era mais vigiada, pois Salomão lhe concedera liberdade. Com esse gesto, o rei de Israel tentava uma última estratégia para ganhar o coração de sua amada. Entretanto, ele conhecia o risco que corria com essa medida. Poderia ser que o coração da Sulamita fosse tocado por esse gesto nobre da parte do rei, mas ela também poderia empregar a sua liberdade para fugir do palácio e se entregar definitivamente ao seu amado. O que Salomão temia não demorou a acontecer. Em uma noite em que o rei não se encontrava no palácio - tinha ido visitar a rainha de Sabá -, a Sulamita saiu do palácio para não mais voltar e foi ao encontro do seu amado. Ao ser comunicado da fuga de sua amada ao seu retorno, o desespero do rei de Israel foi tremendo. Recolheu-se ao seu leito e não apareceu em público durante dias. Durante muito tempo a dor da perda consumia os seus pensamentos, fato comprovado em uma canção que ele compôs dedicada a sua amada. O título dessa canção, “Volta, volta, ó Sulamita”, era uma súplica comovente do rei para que sua amada retornasse e ele pudesse contemplá-la novamente.

“Eu sou um muro, e os meus seios como suas torres; sendo eu assim, fui tida por digna da confiança do meu amado” Ct. 8:10.

A Sulamita saiu do palácio e correu para os braços do seu amado para saciar o amor há muito sufocado. O reencontro no jardim foi emocionante e os beijos não queriam ter fim, pois o próprio amor que os movia era interminável. Tendo por testemunhas as romeiras e as cabras que pastavam próximo, o pastou exaltou em versos líricos a fidelidade inabalável de sua amada. “Jardim fechado és tu, minha irmã, noiva minha, manancial recluso, fonte selada”, sussurrou o jovem ao ouvido da Sulamita (4:12), demonstrando que, mesmo diante de todas as investidas de Salomão, ela conservara a sua pureza. “Vem depressa, amado meu, faze-te semelhante ao gamo ou ao filho da gazela, que saltam sobre os montes aromáticos” (8:14), a princesa respondeu ao seu amado. Os dois dormiram abraçados sobre a relva e, pela manhã, o pastor colheu figos, passas, maçãs, mel e leite para alimentar a sua amada.

“Teve Salomão uma vinha em Baal-Hamom; entregou-a a uns guardas, e cada um lhe trazia pelo seu fruto mil peças de prata” Ct. 8:11.

Salomão jamais esqueceu a Sulamita, o rosto angelical dessa jovem que ele encontrara entre as videiras jamais saiu de sua mente. Tamanha era a fixação por ela que o rei de Israel resolveu plantar uma vinha bem próximo onde encontrara a sua amada pela primeira vez. Para ali ele sempre ia a fim de lamentar a ausência daquela a qual ele mais amou. Todas as tardes, o rei caminhava solitário por entre as videiras e se imaginava compartilhando com a Sulamita aquelas doces uvas. Diz uma antiga tradição que em seu leito de morte o grande rei de Israel rogou a presença da Sulamita para que o seu belo rosto fosse a última imagem contemplada por ele em vida. A jovem atendeu ao pedido de Salomão e o rei descansou feliz. O seu corpo foi sepultado na vinha, bem perto onde ele vira a Sulamita pela primeira vez.

* Nota explicativa: À primeira vista, o leitor poderá considerar esse artigo tanto pretensioso quanto fictício, uma vez que ele contraria a interpretação de Cantares usualmente aceita: a tradicional idéia do rei Salomão e sua amada Sulamita. Na verdade, o autor sempre considerou essa posição problemática à luz do conteúdo do livro. Ela deixava muitas questões sem respostas. Esse fato serviu de motivação para a busca de uma proposta alternativa. Assim, embora alguns possam considerar essa interpretação fantasiosa, deve ser acrescentado que ela é fruto de um estudo bastante rigoroso, baseado nos dados da obra. Em artigos posteriores, o autor publicará um resumo dessa análise. Por hora, o seu objetivo é apenas desafiar os leitores a mergulharem no Cântico dos cânticos e analisarem o seu conteúdo sem idéias pré-concebidas. Na verdade, se os leitores não compactuarem com seu pensamento, mas forem incitados ao estudo criterioso do livro, o autor terá alcançado o seu principal objetivo.
Postado por J. Marques

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Recordações da casa dos mortos Jonas 2 (2ª parte)

O título se refere a obra do escritor russo Dostoiévski, uma descrição de seus anos presos nas gélidas prisões da Sibéria. Experiência semelhante foi a de Jonas. Ao invés de alguns anos amarrado pelos pés e obrigado a trabalhar, Jonas viveu, ou melhor, morreu por três dias e três noites na barriga de um peixe. A narrativa do capitulo 2 de Jonas é descrita como ser enterrado vivo. Isso já aconteceu várias vezes; desenterrar um cadáver e descobrir que foi enterrado vivo, pois o corpo está virado ou com a roupa rasgada ou ainda arranhado. Como será acordar e saber que está debaixo de 7 palmos dentro de uma caixa de madeira do tamanho do seu corpo, vestido com a melhor roupa, imprensado com tantas rosas e flores exalando um agradável cheiro “insuportável”.Jonas retrata o capítulo 2 nesses termos, só que ao invés de 7 palmos abaixo da terra, uma caixa de madeira e flores, ele esteve a “mil léguas submarinas”, numa espaçosa, gelatinosa e gosmenta barriga de um grande peixe, sentindo o cheiro de algas e restos de animais em decomposição. Acompanhe essa dramática descrição.
Palavras que descrevem o desespero de Jonas
Angústia no v 2. Ele expressou isso com as seguintes palavras: angústia, ventre do abismo. Palavras que expressam angústia e desespero: v 3 “a corrente das águas me cercou”; “as ondas e grandes ondas de Deus passaram por cima de mim” – v 4; “as águas me cercaram até a alma”; “abismo me rodeou”; “as algas se enrolaram na minha cabeça” – v 5; “desci até aos fundamentos dos montes” – v 6 “os ferrolhos se fecharam”.Jonas reconhecia sua situação de incapacidade em fazer algo por si mesmo. É nessas condições que o humilde se vê. Todos possuem suas angústias, mas somente aquele que é humilde reconhece; o pecador tenta se enganar encontrando soluções paliativas para seu problema. Cf Lm 3:7; Sl 42:7 “Cercou-me de um muro, e já não posso sair; agravou-me com grilhões de bronze”; “Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim”. Jonas faz coro com Davi no salmo 18:6 “Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei por socorro ao meu Deus. Ele do seu templo ouviu a minha voz, e o meu clamor lhe penetrou os ouvidos”.O que podemos fazer (com forças humanas) no ventre de um grande peixe? Absolutamente nada! Contudo, há pessoas que lutam e se rebatem no emaranhado da vida. Os nossos problemas não serão resolvidos por nossa capacidade, inteligência, ou força, mas pelo poder de Deus. O servo de Eliseu: “que faremos” em 2 Rs 6.
Solidão v 3-6a. O que Davi falou figuradamente, Jonas experimentou literalmente. V 5 cf. Sl 69:1 – “Salva-me, ó Deus, porque as águas me sobem até a alma” Jonas sente como se estivesse rodeado de um abismo, a impressão é de alguém numa queda livre sem ter em que se agarrar.O profeta fujão desceu até as últimas conseqüências de seu pecado. A ponto de pensar que tinha sido desamparado até por Deus – Is 40: 27; 49: 14. “O meu caminho está encoberto ao Senhor, e o meu direito passa despercebido ao meu Deus?”; “O senhor me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim”. Desceu em um abismo tão profundo que achava que não pudesse ser achado por Deus.Jonas se apega a uma promessa firmada entre Deus e o rei Salomão no v 4b cf. 1 Rs 8:38 – “qualquer que orar voltado para o templo Deus ouviria sua oração”, a idéia era, não como a dos mulçumanos que oram voltados para Meca, centralizar a presença de Deus no templo, onde Deus figuradamente morava.
Esse sentimento centralizador prejudicou muitas pessoas que passaram a ver o templo como algo mágico e que obrigava Deus abençoar mesmo se o ofertante não tivesse puro – Jeremias condena essa falsa espiritualidade, 7:4, 9-11. “Não confieis em palavras falsas, dizendo: templo do Senhor, Templo do Senhor é este”... A casa de Deus havia se tornada num covil de salteadores, i.e. refúgio para homens pecadores impenitentes. Mas haviam aqueles que encontravam no templo apenas uma maneira de visualizar um pouquinho da imensidão de Deus, e receber seu favor.
Idolatria v 8. Quem deixa de orar ao verdadeiro Deus perde sua única esperança. Aqueles que adoram e oram a outros deuses não obtém respostas; como os marinheiros que estavam se perdendo cada vez mais, 1:5a.Aqueles que oram a outros deuses desertam da misericórdia de Javé. 2 Rs 17:15 “Rejeitaram os estatutos e a aliança que fizeram com seus pais, como também suas advertências com que protestara contra eles; seguiram os ídolos, e se tornaram vãos, e seguiram as nações que estavam em derredor deles, das quais o Senhor lhes havia ordenado que não as imitasse” ; Jeremias 10:8-11.Jonas também havia praticado idolatria: sua vontade própria. Contudo agora confessa, arrepende-se e busca misericórdia.
Palavras que falam do cuidado de Deus
Deus ouve – v 2. Deus sempre ouve a todos aqueles que clamam – Jó 36:13-14 “Os ímpios de coração amontoam para si a ira; e, agrilhoados por Deus não clamam por socorro. Perdem a vida na sua mocidade e morrem entre os prostitutos cultuais”. O peixe poderia ser um empecilho para Jonas não clamar por socorro. Alguns se sentem desesperados a ponto de acharem que não há salvação.V 2 “Ele respondeu... tu ouviste a minha voz”. Nem sempre a resposta de Deus é positiva ao que pedimos, mas temos certeza que Deus sempre ouve.Deus graciosamente aceita a oração de Jonas – v 7b “subiu a ti minha oração, no teu santo templo”. A idéia é que Deus se agradou da oração de Jonas.Richard Dawkins, em “Deus um delírio” ironiza o fato de Deus poder ouvir nossos pensamentos e orações ao mesmo tempo que controla o universo, contudo ele esquece da grandeza desse Deus, que não pode ser medido por uma mente limitado e finita como a nossa. Deus age. Jeová não é um Deus de meras palavras, mas de constante atividade. Ele não apenas escuta, mas também age.Deus tirou o profeta da angústia. A oração do humilde reconhece que Deus é soberano tanto nas coisas boas como nas ruins. v 6 “fizeste subir da sepultura a minha vida, alma”.Deus deu nova vida ao profeta. V 6 “fizeste subir da sepultura a minha vida”. A experiência de quem passa por um livramento de Deus é como se tivesse nascido de novo.
Palavras que descrevem a salvação de Deus
Nos versículos 7-10 Jonas se debruça sobre o tema da salvação de Deus. O profeta consegue vê a salvação de Deus de duas formas: Preventiva e Redentiva.
Salvação preventiva de Deus – v 3 “pois me lançaste no profundo”. i.e. Deus é o causador daquele situação de angustia e solidão que o profeta estava sentindo.Jonas diz que quando sua alma desfalecia, lembrou no seu íntimo de Deus. V 7. essa lembrança ressurge suas esperanças de livramento. Se tirarmos Deus do mundo perderemos toda e qualquer possibilidade de esperança; não teremos a quem recorrer nas horas tristes e escuras da vida. A salvação redentiva de Deus – v 6b.
Deus é o nosso salvador e de todo aquele que ele se agrade salvar - v 9. Salmo 3:8 “Do Senhor é a salvação”; 67:19, 20 “Deus é a nossa salvação”, “O nosso Deus é o Deus libertador”. Paulo diz que Deus é o “salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis”.
Palavras que expressam o livramento vindo de Deus: “fizeste subir da sepultura a minha vida” – v 6. Deus Falou ao peixe e este vomitou Jonas na praia.Deus tem o controle sobre toda criatura. Ele preparou esse animal para engolir e depois vomitar Jonas na praia. Ele fez isso várias vezes no A.T: as pragas, a jumenta de Balaão, os leões da cova que Daniel foi lançado, os corvos que alimentaram Elias, O leão que espedaça o profeta desobediente em Juízes.
Conclusão


Não podemos ter outra atitude diante desse Deus senão nos curvar a Ele em oração e humildade reconhecendo-O como nossa fonte de livramento e salvação.

Postado por Pr. Francimar lima

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Spurgeon e Sua Conversão

Apesar de ter ouvido desde criança o plano da salvação pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz do Calvário, e de ter lido muitos livros de excelentes escritores puritanos, Spurgeon ainda não tinha nascido de novo. A luz do evangelho estava lá em seu coração, mas permanecia tão cego que não podia vê-la.

Sem dúvida alguma, os familiares de Spurgeon foram os primeiros a lançar a boa semente em seu coração, em especial sua querida mãe, pois além de instruir seus filhos no caminho do Senhor, ela orava pela salvação dos mesmos. Uma destas muitas orações que fazia pelos seus filhos, o próprio Charles Spurgeon lembra em particular de uma, que lhe penetrou a consciência e moveu seu coração, e da qual, segundo ele, nunca esqueceria até mesmo quando os cabelos se tornassem brancos. Sua oração foi assim: “Ah, Senhor, se os meus filhos permanecerem em seus pecados, não será por falta de conhecimento que perecerão; e se eles não se entregarem a Ti, minha alma de pronto testificará contra eles no dia do julgamento”.[1]
Seguramente, foi necessário que o Senhor mesmo interviesse e desvendasse a mensagem do Evangelho para ele. E foi exatamente isso que o Senhor Jesus fez, quando Charles tinha 15 anos e meio, no dia 6 de janeiro de 1850, enquanto fazia uma visita em Colchester. Ele testifica como isto aconteceu em sua vida:

Quando estava preocupado com minha alma, resolvi que iria a todos os lugares de adoração na cidade onde vivia, para que pudesse encontrar o caminho da salvação. Estava disposto a fazer qualquer coisa, e ser qualquer coisa, se Deus tão somente perdoasse meu pecado. Fui a todas as capelas, e a todo lugar de adoração; mas por um longo tempo foi tudo em vão. Não culpo, no entanto, os pastores [...]. Posso honestamente dizer que não houve uma só vez que fui sem orar a Deus, e tenho certeza que não havia um ouvinte mais atento em todos aqueles lugares que eu, pois almejava e desejava saber como poderia ser salvo. Às vezes fico pensando que poderia estar nas trevas e no desespero até agora, se não tivesse sido a bondade de Deus ao enviar uma nevasca, no domingo de manhã, enquanto estava indo a certo lugar de oração. Quando não pude mais ir adiante, desci a rua ao lado e cheguei a uma pequena capela Metodista primitiva. Naquela capela deveria haver uma dúzia ou quinze pessoas […]. O pastor não tinha vindo àquela manhã; suponho tenha sido a nevasca. Porém, um homem de aparência muito magra, um sapateiro, ou alfaiate, ou qualquer coisa desse tipo, subiu ao púlpito a fim de pregar. Tá certo que os pregadores devem ser instruídos, mas este homem realmente não o era [...]. O texto era: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.”
[2] [...] Depois que tinha pregado pouco mais de dez minutos, já estava no fim da sua pregação, quando olhou para mim sob a galeria [...], fixou seus olhos em mim como se conhecesse todo o meu coração, e disse: “Jovem, você parece tão miserável!”. Bem, eu parecia; mas não estava acostumado a ouvir estas declarações de púlpito sobre minha aparência pessoal antes. No entanto, foi um bom sopro que derrubou a casa. Ele continuou: “e você sempre será miserável – miserável na vida, e miserável na morte, se você não obedecer a meu texto; mas se você obedecer-lhe agora, neste momento, você será salvo”. Então, erguendo as mãos, bradou como só um metodista primitivo pode fazer: “Jovem, olhe para Jesus Cristo! Olhe! Olhe! Olhe! Você não tem nada a fazer senão olhar e viver!”. Eu vi de uma vez o caminho da salvação. Não recordo de mais nada que aquele homem simples disse, pois fiquei tomado com aquele pensamento. Como quando a serpente de bronze foi levantada, e o povo somente olhava e ficava curado, assim foi comigo. Eu estava esperando fazer cinqüenta coisas, mas quando eu ouvi aquela palavra “Olhe!”, que palavra fascinante ela pareceu a mim. Oh! Eu olhei até quase não poder tirar os olhos! Então a nuvem se foi, as trevas foram retiradas, e naquele momento eu vi o Sol.[3]

Anos mais tarde Spurgeon expressaria sua gratidão a Deus, não somente pelos bons livros que havia lido, mas principalmente por aquele homem que nunca tinha recebido qualquer treinamento para o ministério, que estava nos seus afazeres durante a semana, mas que não se intimidou ante aquele desafio de substituir o seu pastor naquela manhã de domingo. Ele declarou: “Os livros foram bons, mas o homem foi melhor”.
[4]

Em carta, escrita de Newmarket ao seu querido pai, em 30 de janeiro de 1850, pouco depois de sua conversão, Spurgeon fala da alegria de ser salvo pelo Senhor Jesus, da comunhão que gozava com Ele através da oração e da leitura de Sua palavra e da certeza de que aquilo que foi implantado em seu ser, não viera de si mesmo, mas do Espírito Santo.

Ele abriu os meus olhos! Agora O vejo, posso firmemente crer nEle para minha salvação eterna.[...] Quão doce é a oração! Ficaria sempre engajado nela. Quão maravilhosa é a Bíblia! Nunca a amei tanto antes; ela é para mim como alimento indispensável. Sinto que não tenho qualquer partícula de vida espiritual em mim, salvo a que foi posta pelo Espírito. Sinto que não posso viver se Ele partir. Tremo e temo em entristecê-Lo. Temo que a indolência ou o orgulho me vençam, e assim, desonre o evangelho pela negligência da oração, da leitura das Escrituras, ou em pecar contra Deus.
[5]


[1] C.H. Spurgeon’s Autobiography, vol 1, p. 71.
[2] Isaías 45:22
[3] C.H. Spurgeon’s Autobiography, vol 1, pp. 112-114.
[4] Ibid., p. 113.
[5] Ibid., p. 123.
Postado por Elias Lima

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Orando Com Fé!

INTRODUÇÃO

Atualmente são ouvidos os nítidos gritos dos pregadores do evangelho da prosperidade, alegando que muitas pessoas ainda não estão rodeadas de bens porque não têm orado com fé. Para eles a oração com fé é a garantia irrefragável de que tudo o que uma pessoa pede a Deus há de receber. Chegam ainda a dizer que a maioria das enfermidades é resultado da falta de fé.

Pode-se concordar com tudo isso ou o evangelho da prosperidade está sustentada em solo frágil? Na verdade a pergunta a se fazer neste ponto seria Jesus em algum momento de sua vida ensinou acerca disso em discurso direto ou mesmo em alguma situação que tenha passado em sua vida? Quando Cristo falou sobre a relação entre oração e fé foi semelhante ao que é pregado pela prosperidade?

Não há espaço aqui para tratar todos os textos dos quais podem ser tiradas algumas lições acerca do assunto em pauta. Porém, quando se trata da relação entre oração e fé um texto se apresenta de forma brilhante. A narrativa feita pelo evangelista Mateus do diálogo entre Jesus e a mulher cananéia, como tem sido conhecida, apresenta um conceito bem interessante sobre a relação entre oração e fé. Este texto, portanto, pode responder os questionamentos supracitados.


TEXTO BÍBLICO - Mateus 15:21-28

Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada. Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: Despede-a, pois vem clamando atrás de nós. Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me! Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.

Deve haver neste ponto um espaço para a elucidação do texto. Alguém poderia questionar se este texto está realmente falando ou ensinando sobre oração. É certo que o texto fala de fé, e segundo a avaliação do próprio Cristo esta era uma fé grande. Deve-se também desde já ser declarado que não é o propósito do presente artigo expor exaustivamente o texto, mas simplesmente ao ponto de responder os questionamentos feitos no inicio.

A oração é, segundo o conceito bíblico geral, dirigir-se a Deus como um ato de adoração confiando a Ele as necessidades. Não é encontrada no texto em questão a palavra oração, contudo, a idéia, conforme anteriormente definida, é expressamente percebida na atitude da mulher cananéia dirigindo-se veementemente a Cristo, confiando a Ele as suas necessidades e expressando tamanha fé, ao ponto de despertar a admiração do próprio Cristo.

Não há a princípio uma base gramatical para afirmar que o texto aqui se trata de oração. Contudo, também não há necessidade de muito esforço para entender que o texto relata qualificadamente um ato de oração, além disso, deve-se admitir pela leitura do texto que a atitude da mulher cananéia em relação a Cristo é definidamente a atitude de alguém que dirige-se a Deus confiando-lhe suas necessidades, e isto é oração.

Alguém ainda poderia questionar o fato da mulher não ter um relacionamento genuíno com Deus por não pertencer à nação de Israel, “ao povo de Deus”, e, portanto, seu clamor não ser uma oração, pois, segundo o ensino bíblico Deus não ouve a pecadores. Contudo, em relação a isto, alguns fatos precisam ser considerados.

Primeiramente, o fato de uma pessoa não pertencer genuinamente ao povo de Deus não exclui a possibilidade dela orar, aqui não entra em mérito a questão de Deus ouvir ou não, mas a possibilidade da pessoa orar. Quando Deus não ouve (atende) não é porque a pessoa na orou, ou clamou, mas é porque alguma coisa está impedindo que Deus a atenda, no caso, a santidade de Deus repugnando o pecado, e isto, tanto em relação a uma pessoa que não é do povo de Deus, como também em relação a uma pessoa do povo de Deus que está vivendo no erro. Muito ainda poderia ser dito acerca disto, tal como o fato de que é inerente à natureza humana clamar, mesmo sem um íntimo conhecimento, ao Deus que a criou, além de outras questões que o tempo e o propósito não permitem mencionar e analisar.

Em segundo lugar, o texto fornece base suficiente para concluir que aquela mulher mesmo não sendo israelita era da nação escolhida, pois acreditava na pessoa de Jesus como o Messias. Ela usa a expressão “Filho de Davi” quando clama, e isto indica que de alguma forma ela acreditava e esperava o cumprimento da promessa messiânica feita a Davi. Além disso, em todas as vezes que ela dirige-se a Cristo usa o título “Senhor” que no entendimento do povo que esperava o cumprimento das promessas messiânicas referia-se a Deus ou Jeová. Crer no Messias, na Bíblia é sinônimo de salvação. Quando Jesus diz “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” está falando sobre sua missão imediata, e não sobre a possibilidade da mulher ter ou não um relacionamento de salvação com Deus através do Messias. Talvez alguém possa argumentar que isto é forçar o texto a dizer algo que não é, mas muitos dos leitores deste artigo devem admitir que não são da casa de Israel, contudo, são salvos.

Todos estes fatos revelam que o clamor da mulher constitui-se numa oração dirigida a Deus na pessoa de Jesus Cristo. Mesmo que o escritor bíblico queira enfatizar o desespero da mulher com a expressão “clamava”, que traz a idéia de um grito movido pelo desespero frente a uma profunda necessidade, a maneira como ela dirige-se a Cristo indica um ato de oração.

Porém, repetidos clamores, submissão ao senhorio de Cristo, e a grande fé da mulher, segundo o texto não garantiu que ela imediatamente fosse atendida, nem tão pouco, que recebesse algo além de suas necessidades. Por maior que foi a sua fé, ela não conseguiu manipular a Cristo. E isto responde às colocações feitas inicialmente, de que a oração com fé não é a garantia de que a pessoa estará rodeada de bens, ou prosperará indefinidamente. Na verdade os pregadores da prosperidade têm afirmado estes absurdos por causa da má compreensão da definição de fé que eles têm. Segundo o autor de Hebreus “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem”, um pouco mais à frente ele diz que “sem fé é impossível agradar a Deus”, e no mesmo verso ele mostra o motivo “porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”. Diante destas declarações pode-se dizer que a fé é a certeza de que Deus pode fazer o que é impossível, trazendo aquilo que não é, e mostrando aquilo que não se vê. Não é por outro lado a certeza de que a pessoa pode realizar o irrealizável, mas somente Deus pode assim agir. Portanto orar com fé não é orar com a certeza de que se pode realizar determinada obra, mas com a certeza de que Deus pode agir favoravelmente. Contudo por maior que seja a fé, a decisão de ser favorável ainda é de Deus, pois, Deus não é manipulado pela fé, por mais intensa que ela seja.

Diante de tudo disso, uma pergunta deve ser feita para partir para o passo seguinte: quais são, na verdade, os benefícios da fé?


RECONHECENDO A FONTE DO SUPRIMENTO

Ao invés da fé levar a Deus a agir de determinada forma, leva a pessoa que exerce a fé a tomar algumas atitudes. Como já foi dito a fé não manipula a Deus, mas leva a própria pessoa a tomar atitudes importantes e necessárias na oração. Uma dessas atitudes é reconhecer que a única fonte que supre as suas necessidades por mais profundas que sejam é Deus. Jesus admite que a fé daquele mulher era grande exatamente pelo fato de que em momento algum ela duvidou que estivesse clamando à pessoa errada.

O texto mostra claramente que a mulher reconhece que Cristo é o Senhor, aquele que é e que mantém a existência de todas as coisas. Ela dentro da comparação que Cristo faz chama a si mesma de Cachorrinho, demonstrando que tem necessidades que não podem ser supridas por sua própria capacidade, e neste ponto a sua fé mostrou a ela mesma como era incapaz de resolver seus próprios problemas. Por fim ela não para de pedir, porque vê em Cristo o único que pode suprir suas necessidades que de tão profundas levaram-na a gritar. Tudo isto ela fez porque era grande a sua fé.

A lição que pode ser tirada deste ponto é que a oração com fé leva o homem a reconhecer que Deus é o único que pode realizar o que humanamente é impossível, que somente Deus é a fonte do suprimento de toda e qualquer necessidade, e que Deus é “Tudo” e o homem é nada, Deus é forte e o homem é fraco, Deus é Todo Poderoso e o homem é tão impotente qual um cachorrinho indefeso.


PERSEVERANDO FRENTE AO DESESTÍMULO

Outro benefício da fé na oração é levar a pessoa a perseverar frente aos desestímulos. Jesus admira a fé da mulher cananéia também pelo fato dela ter perseverado no seu clamor mesmo diante de suas desencorajadoras colocações. Primeiramente, diante do clamor que exaltava a sua pessoa, Jesus guardou silencio, talvez para mostrar que se ela desistisse após pedir uma única vez, não era verdadeira a expressão de louvor que saiu de seus lábios. Fé pequena e coração endurecido levam as pessoas a desistirem de clamar por suas necessidades. Quando a pessoa desiste mostra que tudo o que ela fez durante a primeira tentativa era apenas um ato de hipocrisia e não uma demonstração de fé. Se a mulher tivesse desistido frente ao silêncio de Cristo, se constataria que o louvor acompanhado do clamor não era verdadeiro. Em segundo lugar Ele diz “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, isto já seria motivo suficiente para uma pessoa de fé minúscula interromper o seu clamor, o que não foi o caso com a mulher cananéia. Muito pode ser dito acerca desta sua atitude, mas para o propósito fica em foco o fato dela não ter desistido mesmo ouvindo o que não queria ouvir, mas adorou a Cristo. Por fim, Jesus ainda diz “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”, ao que a mulher acha resposta. Jesus já sabia da grandeza da fé dela , mas faz estas provas para que ela revelasse o quanto confiava no poder de Deus e nele esperava sem desistir.

As coisas não param por aí, no meio do que Cristo falou também aparecem no cenário os discípulos, que querendo livrar-se dos importunos clamores da mulher mandam Cristo despedi-la. Contudo mesmo diante disto ela não desistiu. A aplicação destes fatos fica por conta, é claro, de cada leitor, mas o principio é que aquele que ora com fé não desiste, porém, persevera frente ao desestímulo.


RECEBENDO O SUFICIENTE PARA AS NECESSIDADES

O terceiro e último beneficio da oração com fé é reconhecer que o aquilo que Deus dá é suficiente para suprir as necessidades, por mais profundas que sejam. No diálogo com Jesus a mulher reconhece que aquilo que o Senhor desse, mesmo que fossem as migalhas, para ela era suficiente. Ela não está depreciando o que Deus dá, quando denomina de migalhas. Pelo contrário, visto que ela reconhecia estar na posição de um cachorrinho, as migalhas eram tudo do que ela precisava. É logo em seguida à declaração de que as migalhas lhes seriam suficientes que Jesus elogia a intensidade de sua fé.

A grandeza da fé não estar em viver rodeado de bens, mas em viver com todas as necessidades supridas. As pessoas que oram com fé reconhecendo que mesmo o pouco é suficiente para suas necessidades, e por isso pedem o pouco, terão tudo o que necessitam. Muitos bens não é sinal de muita fé, e sim muitas necessidades supridas.


CONCLUSÃO

Finalmente, orar com fé é levar a si mesmo a confiar indefinidamente no poder e na bondade de Deus, reconhecendo-O como única fonte de seu suprimento, perseverando frente ao desestímulo, e reconhecendo que o que recebe é suficiente para o suprimento de todas as necessidades. Ore com fé e leve-se para mais perto de Deus.
J. S. Figueiredo

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Bem-aventurados os misericordiosos

Você tem guardado mágoa de alguém? Que nota você daria para sua capacidade de perdoar os outros? Gostaria de convidá-lo para meditar sobre este tema- o perdão.
No ensino do Sermão do monte, Jesus disse em sua quinta bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mt.5:7)
Idéia: Precisamos exercer misericórdia para sermos realmente felizes.
Por que precisamos exercer misericórdia?

I- Precisamos exercer misericórdia porque já recebemos misericórdia de Deus.

A. A parábola do credor incompassivo ( Mt.18).

Depois da pergunta de Pedro, Jesus o surpreende com um número “absurdo” 70X7=490. Para mostrar a Pedro que aquilo não era muito à vista da misericórdia de Deus, Jesus conta a parábola. “Certo rei resolveu ajustar contas com seus servos. Um deles devia a soma astronômica de dez mil talentos, uma soma tão absurda que uma vida inteira de trabalho não seria suficiente para pagar. Ordenou-se que o devedor fosse vendido com a família a fim de saldar pelo menos parte da dívida. Então, o devedor rogou por misericórdia, pedindo um tempo para pagar. Mais que isso, o seu senhor perdoou-lhe a dívida. O devedor, porém, lembrou-se de que outro servo lhe o, exigiu devia uma pequena soma de 100 denários. Agarrou-o e, quase o estrangulando, pediu que lhe pagasse a dívida. O pobre homem caiu aos seus pés, implorando paciência e garantindo que pagaria a dívida integralmente. Ele, porém, colocou aquele pobre homem na prisão. Quando o rei descobriu o que aquele servo devedor fizera, mandou chamá-lo. Então lhe disse: servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, ter misericórdia (compadecer-te) do teu conservo como eu me compadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos até que lhe pagasse toda dívida. Só para você ter uma idéia, um talento era equivalente a 6.000 denários, e um denário era o valor da diária de um trabalhador. Note então a diferença: Aquele que foi perdoado da dívida de 60.000.000 denários não perdoou uma dívida de 100 denários.

B. Aplicando: Você já experimentou a misericórdia de Deus? Sua conta com ele já foi perdoada? Então negar perdão ao seu próximo é esquecer da misericórdia alcançada. A ofensa que você sofrer não chega nem perto daquela que você cometeu e comete contra Deus. Contudo, o Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno (Sl.103:8). O refrão do Salmo 136 repete 26 vezes:”Porque a sua misericórdia dura para sempre.”
Na oração que Jesus ensinou aos discípulos, o pedido de perdão a Deus é colocado paralelamente ao perdão concedido a um devedor. Aquele que perdoa é quem melhor aprecia o perdão divino. Conseqüentemente, quem experimenta o perdão divino não achará um fardo grande perdoar alguém tantas vezes for necessário. Note que nesta oração o perdão não é ordenado, mas colocado como uma prática – como nós temos perdoado aos nossos devedores.

C. Exortanto os colossenses, o apóstolo Paulo diz:”Perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.” (Cl.3:13). Palavras semelhantes ele diz aos efésios: “Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmia, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou. Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef.4:31-32, 5:1). Como Deus teve misericórdia de nós, nos tornamos seus filhos e, como filhos, precisamos imitar o nosso Pai. Jesus imitava seu Pai. Na crucificação Ele disse: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).

Precisamos ser misericordiosos para sermos realmente felizes

II- Porque exercer misericórdia é nossa obrigação. (Lucas 17:3-11)

A. Mesma situação da parábola do credor incompassivo, porém com outra aplicação. Lucas registra a reação dos apóstolos, que foi pedir o aumento da fé a Jesus para perdoarem tantas vezes. Jesus, então, declara-lhes que não é preciso uma grande fé para deslocar uma planta e transplantá-la ao mar.

B. Jesus ordena o perdão (Vs.3,4). O exemplo é dado para mostrar que aquele que perdoa não está fazendo nada além do que é sua obrigação (vs.10). Ele não tem nenhum motivo para se gloriar. É um servo inútil.

C. A misericórdia de Deus é livre. Ele tem misericórdia de quem Ele quiser (Romanos 9:14-18), mas aquele que foi alcançado pela misericórdia de Deus tem a obrigação de ser misericordioso.

D. Aplicação: Não estamos dizendo que um ofensor mereça perdão, e sim que o ofendido tem a obrigação de perdoar assim como Deus o perdoou. Então, quando não somos misericordiosos, estamos deixando de fazer nossa obrigação. Somos menos do que servos inúteis. Que situação!

Precisamos ser misericordiosos para sermos realmente felizes

III-Porque exercer misericórdia é uma expressão de amor (Bom samaritano Lc.10:25-37)

A. Misericórdia aqui foi a ajuda prestada pelo samaritano a alguém que ele não conhecia. Toda a questão começou quando o intérprete da lei perguntou quem era o seu próximo. Isto porque o segundo princípio mais importante da lei era amar o próximo como a si mesmo. Quando o samaritano usou de misericórdia para com o viajante, ele estava mostrando amor ao seu próximo.

B. Exemplo de Jesus -Mateus 9:36 – “Compaixão”.
Jesus censurou a falta de misericórdia dos fariseus (Mt.23:23) “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas.” Estes homens podiam violar o sábado para tirar um boi ou uma ovelha que caiu num poço, mas repreendiam Jesus porque curava pessoas no sábado (Lc.14:1-6; Mt.12:9-14). Realmente a misericórdia deles passava longe.

C. Aplicação: Você tem tido esta compaixão pelos perdidos? E quanto aos necessitados? Quantas vezes você despediu alguém de mãos vazias, sendo que você podia ajudar?

A RECOMPENSA DOS MISERICORDIOSOS

A felicidade dos misericordiosos está no fato de que eles receberão misericórdia também. Na oração dominical, Jesus disse: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt.6:14-15)

CONCLUSÃO:

Conta-se a história de um professor de religião que pediu a seus alunos que levassem batatas e um saco plástico para a aula e escrevessem nas batatas o nome de cada pessoa de quem sentiam mágoas e ressentimentos. Uma batata para cada nome.

Pediu também para colocar dentro do saco plástico e guarda-lo na mochila, junto com seus livros e cadernos.
A tarefa consistia em levar as batatas a todos os lugares onde fossem, por tempo indeterminado, até que o professor os autorizasse a se livrar delas.

Naturalmente, elas foram apodrecendo. Além do peso, logo, também, o mal cheiro começou a incomodar os alunos, até o ponto em que não agüentaram mais.

-Professor, por favor, não dá mais. Podemos jogar esse lixo fora?
-Sim, podem jogar as batatas fora, mas, se junto com elas vocês também não jogarem fora toda a mágoa e ressentimentos que elas representam, o peso e o mau cheiro não sairá de seus corações.
Postado por José Roberto

quarta-feira, 30 de julho de 2008

POR QUE SOFREMOS?


INTRODUÇÃO

Quando nos deparamos com a dolorosa experiência do sofrimento, este é, sem dúvida, o último questionamento que vem às nossas mentes. Seja a dor física causada por uma enfermidade ou acidente, ou a dor emocional causada pela perda de um ente querido, o que menos queremos é refletir acerca deste assunto. Na maioria das vezes, procuramos encontrar um “bode expiatório”, no qual possamos lançar a culpa pela nossa dor. Deus é sempre o “bode expiatório” predileto das pessoas. “Por que Deus permite que eu passe por este sofrimento”? De uma forma mais filosófica, “como um Deus que é, ao mesmo tempo, sumamente bom e todo-poderoso, pode permitir o sofrimento de suas criaturas?” A aparente impossibilidade de responder a esse questionamento, tem levado alguns à negação da existência de Deus, desde os tempos antigos. Epicuro foi o primeiro a questionar a existência de Deus com base nesse argumento. O sofrimento, aliado a ausência de uma resposta que o justifique, tem levado muitas pessoas ao desespero. A esta altura, talvez o leitor desse artigo faça o seguinte questionamento: “E que sofrimento não conduz ao desespero”? Mesmo sendo difícil, é possível evitar o desespero diante do sofrimento. Em outras palavras, é possível manter o equilíbrio mesmo quando dói. Para isto, é necessário que compreendamos duas verdades básicas acerca do sofrimento.

1. QUEM É O CULPADO PELO NOSSO SOFRIMENTO?

A primeira coisa que precisamos entender é que Deus não é o culpado pelo nosso sofrimento. Um Deus bondoso, jamais poderia alegrar-se com a dor de suas criaturas. A não ser que queiramos acreditar em uma espécie de “deus-escorpião”, que sente prazer em cravar seu peçonhento ferrão em sua fêmea. A Bíblia nos ensina que Deus criou o homem para experimentar a felicidade perpétua, colocando-o em um lugar onde não existia o mal, o sofrimento e a dor. Entretanto, o homem decidiu voluntariamente renunciar a felicidade que Deus lhe propusera ao violar a determinação divina. Sendo assim, o homem é o responsável direto pelo seu próprio sofrimento, foi ele quem rejeitou a sua felicidade (ler Gênesis 3). Mas o que dizer das catástrofes naturais? Na verdade, a maioria das catástrofes naturais são causadas por homens particulares. A natureza reage de forma violenta contra os maus tratos que recebe desses homens. Aquelas catástrofes que não podem ser atribuídas a homens particulares, são atribuídas ao homem em geral por conta do seu pecado. O pecado de Adão, representante da humanidade, também trouxe conseqüências drásticas para o mundo natural, a sua transgressão também afetou o equilíbrio da perfeita natureza criada por Deus. Mas há uma última objeção a essa idéia: o que dizer do sofrimento enquanto um mecanismo divino para a punição dos homens? Na verdade, essa punição é a justiça de Deus em virtude dos atos pecaminosos do homem. Se não concebermos a idéia de um Deus que pune o culpado e inocenta o justo, seríamos também obrigados a suprimir a própria idéia de Deus e a idéia de justiça. Eliminar a idéia de justiça seria ir contra todos os grandes códigos éticos da história. Mas Deus não poderia administrar a sua justiça sem a necessidade do sofrimento? A resposta pode ser afirmativa. Deus poderia exercer sua justiça sem a necessidade do sofrimento em um mundo onde não existisse o pecado. O homem, em sua maldade, não aceita sem resistência a justiça de Deus, e esta tensão é a própria essência do sofrimento. Para usar as palavras de C. S. Lewis, “abdicar de uma vontade própria inflamada e intumescida por anos de usurpação, é um tipo de morte”. Em um mundo onde a vontade do homem pudesse se harmonizar com a divina, Deus poderia exercer sua justiça sem a necessidade de infligir nenhum sofrimento ao homem.

Portanto, é um equívoco atribuir todo o sofrimento humano a Deus, como se ele fosse o monstro malvado dos contos infantis que se diverte em atormentar as criancinhas inocentes. Na verdade, o sofrimento ou é causado pelo homem em sentido particular, ou pelo homem em geral. Os casos em que Deus causa o sofrimento do homem, é uma justa recompensa pelos seus atos.

2. POR QUE DEUS PERMITE O SOFRIMENTO?

Se Deus não é o responsável pelo sofrimento, por que Ele permite a sua existência? E ainda, por que pessoas aparentemente tão boas passam por sofrimentos tão terríveis? Para respondermos a estas perguntas podemos recorrer ao exemplo do apóstolo Paulo. Até mesmo o grande missionário cristão teve que se deparar com a dolorosa experiência do sofrimento (II Coríntios 12:7-10). Diante da sua dor, a qual ele denomina “espinho na carne”, em um primeiro momento, o apóstolo roga ao Senhor que o liberte de seu sofrimento. Não obstante, Deus faz com que Paulo entenda o propósito daquele sofrimento. Se um Deus justo e bom permite o sofrimento, é lógico pensar que ele tem um propósito para essa experiência dolorosa. No episódio do apóstolo é possível alistar pelo menos quatro propósitos divinos diante do sofrimento.

2.1. Para conservar sua humildade

Em primeiro lugar, Deus permitiu que Paulo vivenciasse aquele estado doloroso para conservar a sua humildade, para que ele não se ensoberbecesse. Conforme o relato bíblico, Paulo havia tido uma visão singular da glória divina. em suas palavras, ele havia sido arrebatado até o terceiro céu. A excelência do conhecimento do qual ele desfrutara poderia despertar a sua soberba, o apóstolo poderia se considerar o mais exaltado de todos os homens por ter experimentado essa magnífica revelação. Sabendo disso, Deus lhe concedeu um espinho na carne, um sofrimento para conservá-lo humilde.

Isto é válido ainda hoje. Deus permite o sofrimento na vida de muitas pessoas para que elas possam reconhecer a sua soberba. Soberba que está, principalmente, no ato de desprezar o autor da vida eterna e viver como se Ele não existisse. Deus deseja que sejamos humildes, reconhecendo a fragilidade de nossa existência e a necessidade de buscarmos e dependermos Dele.

2.2. Por causa da sua graça suficiente

Diz-se que um homem é justo se ele comete atos de justiça, que ele é amoroso porque pratica ações que expressam amor, que é gracioso porque é possível ver em suas ações traços que expressam essa virtude. Ou seja, não é possível atribuir ao homem nenhuma dessas virtudes sem que antes ele tenha praticado ações que possam comprová-las. Esse princípio não se aplica a Deus, uma vez que ele é justo-em-si, amororoso-em-si, gracioso-em-si. Para resumir em uma expressão, Ele é o todo-virtuoso-em-si. Isso significa que Deus é gracioso antes mesmo de praticar qualquer ato gracioso para com o homem, ou para com qualquer outro ser criado. Para ser ainda mais preciso, Ele é gracioso mesmo quando concede o contrário daquilo que o homem lhe pede. O grande problema é que muitos acreditam em uma falsa imagem de Deus: a imagem do deus-de-circo, o deus-palhaço que procura unicamente divertir a platéia, um deus que faz tudo para provocar o riso dos ouvintes. Para sustentar a histeria das gargalhadas, ele cede a todos os apelos do público. Guiados por essa imagem enganosa, muitos são levados a renunciar o em-si de Deus. Só conseguem associar a idéia do deus-bom ao recebimento de determinados benefícios. Elas são incapazes de contemplar o Deus que é, pois a imagem do Deus que dá lhes ofuscou a visibilidade espiritual. Na verdade, eles estão mais preocupados com a dádiva do que com o doador. Com isso, a graça suficiente transforma-se em graça providente.

O exemplo do apóstolo é singularmente instrutivo. Ele nos faz repensar o Deus-em-si, o Deus suficientemente gracioso, mesmo antes de nos conceder qualquer dádiva, ainda quando nos concede o contrário daquilo que lhe pedimos. Infelizmente, para muitos, a graça de Deus só é bastante quando aparece na companhia de um benefício visível, um benefício que possa despertar o riso.

2.3. Por causa do seu aperfeiçoamento

Deus permitiu o sofrimento do apóstolo visando o seu próprio aperfeiçoamento. Mas um Deus que nos aperfeiçoa por meio da dor, não é um Deus cruel, um sádico que se deleita com o sofrimento dos outros? Certamente, a análise desse questionamento demanda muito mais tempo em virtude de sua complexidade. Seja como for, a sua resposta é negativa. Lembremo-nos que Deus não é o responsável direto pelo sofrimento, além disso, a lição que ele tem a nos ensinar é superior ao próprio sofrimento. No exemplo de Paulo, o apóstolo aprendeu que a sua força estava em reconhecer a sua fraqueza. Ao reconhecer a sua fraqueza, ele percebe a necessidade de pôr sua dependência e confiança unicamente em Deus. Se Deus é bondoso como acreditamos e permite o sofrimento em nossas vidas, com certeza, ele tem uma lição bastante elevada a nos ensinar. Quando descobrirmos isto, a nossa reação diante do sofrimento será diferente.

Dentro da ética cristã, só se faz forte aquele que antes se faz fraco. Em outras palavras, o forte é aquele que reconhece a sua fraqueza. Quando pensamos em personagens bíblicos que possam tipificar a força e o poder, nos vêm à mente nomes como Davi, que destruiu o gigante Golias com sua funda, ou Sansão, aquele que matou mil filisteus com uma queixada de jumento. Dificilmente pensamos em José. O preferido de Jacó não foi um guerreiro poderoso, não afugentou exércitos inimigos, não há relatos que ele tenha enfrentado gigantes, ou destruído leões com as próprias mãos. Talvez a cena mais marcante que conservamos dele é aquela em que ele está fugindo com medo de uma única mulher. No entanto, esse frágil rapaz é uma expressão muito mais completa do homem forte. Davi não reconheceu a sua fraqueza e cometeu crimes terríveis, Sansão cometeu o mesmo erro e foi destruído. Mas José permaneceu firme porque reconheceu a sua fraqueza.

2.4. Por causa da sua felicidade

Deus permitiu que o apóstolo vivenciasse o sofrimento visando a sua felicidade, seu contentamento. Não seria contraditório associar a felicidade ao sofrimento? Se considerarmos que existem vários graus de prazeres, vários tipos de felicidade, a resposta é negativa. Há prazeres de duração permanente e prazeres de duração momentânea. Estes últimos são, quase sempre, falsos prazeres que, quando desfrutados, nos impedem de desfrutar prazeres superiores. O próprio Epicuro reconhecia esta verdade ao distinguir os prazeres em repouso dos prazeres em movimento. Para o filósofo grego, era necessário evitar os primeiros para desfrutar da segunda classe de prazeres. Para muitas pessoas, o sono das primeiras horas da manhã é algo extremamente prazeroso. Contudo, uma pessoa que foi aconselhada pelo médico a realizar caminhadas matinais, terá que abrir mão desse prazer em virtude de um prazer maior que é a sua saúde.

Entretanto, a questão nem sempre é tão simples como no exemplo acima. Há muitas pessoas que desejam desfrutar os prazeres inferiores. Quando a sua vontade não é satisfeita, elas sofrerão pela não satisfação desse anseio. Elas não conseguem perceber que a não satisfação de um determinado prazer, embora traga um sofrimento momentâneo, será o caminho para que ele desfrute de prazeres muito mais elevados. Fato que aumenta ainda mais o seu sofrimento. De um sofrimento momentâneo, Deus pode criar uma felicidade permanente. Foi reconhecendo esta verdade tão profunda que o apóstolo declarou: “pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas angústias”. Mas esta não é uma atitude masoquista da parte de Paulo? Seria, se a fonte da felicidade do apóstolo fosse o sofrimento. Entretanto, ele mesmo reconhece que a fonte da sua felicidade é o amor de Cristo. Ou seja, ele não se compraz com o sofrimento, mas no sofrimento. Esta é, sem dúvida, uma grande verdade: por mais contraditório que possa parecer, é possível ser feliz mesmo em meio ao sofrimento. Temos dificuldade de aceitar esta verdade porque a cultura do prazer, na qual vivemos, imprimiu em nós a falsa idéia de que a felicidade é a ausência de todo e qualquer sofrimento. Movidos por um hedonismo barato somos levados a conceber o estado de felicidade como uma antítese absoluta do sofrimento. Mas essa é uma questão que poderá ser desenvolvida em uma outra oportunidade.

CONCLUSÃO

Vivemos em um mundo onde o sofrimento é uma realidade. Mas temos um Deus bondoso, um Deus que age mesmo diante do sofrimento, podendo transformá-lo em bem para o homem. Infelizmente, o próprio bem também é um conceito que tem sido bastante deturpado. O fato é que precisamos confiar em Deus, confiar mesmo quando dói. Quando isto acontece, até podemos ser feridos pelo sofrimento, mas jamais seremos feridos pelo desespero.


* Nota: O leitor desse artigo perceberá sem maiores esforços que ele não apresenta um estudo detalhado sobre as várias modalidades de sofrimento existentes no mundo. Na verdade, o objetivo do autor era apenas fazer algumas considerações muito gerais sobre o assunto. Quem desejar uma discussão mais aprofundada sobre o tema, poderá consultar a obra O problema do sofrimento de C. S. Lewis, publicada pela editora Vida.
Postado por J. Marques

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Jonas, uma radiografia da igreja moderna (1ª Parte)

Jonas, uma radiografia da igreja moderna (1ª Parte)
Jonas 1

Ler Jonas é fazer uma bateria de exames na igreja cristã moderna. O herói do livro lembra bastante as histórias proféticas em 1 e 2 reis que enfocam Elias, Eliseu e outros, contudo deixa a desejar no aspecto da obediência que aqueles demonstraram. O gênero literário pode ser classificado como uma novela ou um conto. Não negamos, contudo, a veracidade e inspiração do livro; apenas cremos que o autor sagrado escolheu essa forma literária para registrar o fato histórico.
Jonas, filho de Amitai 1.1. é certamente uma referência ao profeta do século VIII do reino do norte, descrito de passagem em 2 R 14:25 como um profeta popular que, no contexto do pecado do rei israelita, proclama misericórdia divina e apoio para aquele reino, enquanto Amós nada tinha, exceto criticas, ao seu reinado.
O nome Jonas, filho de amitai, significa “pombo, filho da verdade”. Na bíblia hebraica, essa ave tem duas características: a. afugentada busca refúgio nas montanhas – Ez 7:16, Sl 55:6-8; b. geme e se lamenta quando atormentado – Naum 2:7; Is. 38:14; 59:11.
A história de Jonas começa com a ordem divina de pregar em um país que era considerado inimigo ferrenho de sua pátria. O herói foge para zelar sua honra e seu senso de patriotismo. Deus o encontra no meio de sua fuga e ensina que é impossível esconder-se dEle. A principal preocupação de Deus é com pessoas e não com o nome de um país que era tão mal quanto aquele que não o conhecia.
Deus valoriza a obediência mais que o culto. Em 2 Sm 15:22-23 diz que “obedecer é melhor que sacrificar”. Deus manda adorar, mas também como adorar. Por isso, de nada adianta sacrificar, adorar na igreja, prestar culto e cumprir os regulamentos da religião se o coração não tem disposição para obedecer verdadeiramente as demais ordens dEle.
A maioria dos crentes só obedece a Deus naquilo que não interfere em suas preferências. Se a ordem de Deus passa por cima dos seus interesses então logo descarta. Assim, é comum ver crentes que não vão ao culto porque não gostam “daquele” culto; ou porque já tem atividades demais na igreja ou ainda porque estão muito cansados; Porque não gostam desse ou daquele pastor; Alguns evangelizam somente um tipo de pessoa, pois julgam que outros não podem se converter ou até que não são merecedores da graça de Deus; enfim, há muitas formas de valorizar as preferências acima da ordem de Deus.
Deus deve ser obedecido não levando em consideração o gosto e preferências do homem pecador, mas porque Ele merece ser obedecido. A história de Jonas exemplifica essa verdade.

A descida para o mundo dos mortos.

A ordem divina surpreende o leitor e muito mais o profeta, pois era inédito proclamar uma mensagem ou denúncia a um povo estrangeiro fora das fronteiras israelitas. Jonas é chamado a levantar-se e clamar. Ele por sua vez levanta-se para fugir. Uma relutância típica dos profetas, como Jeremias (1:6) ou Moisés. O que difere dos outros é que sua fuga é da presença do Senhor.
Os profetas eram tidos como criados/mensageiros que deveriam estar na presença do seu senhor (cf. 1 Rs 17:1), Assim como os servos dos reis (e.g. Neemias 2:1-2). Dessa forma a fuga de Jonas é tão ofensiva a Deus.
Nínive e Társis são antípodas/contrastes geográficas. Nínive, a leste é mais tarde a nação que destruiria seu povo – as dez tribos do reino norte. Os assírios eram conhecidos por sua força e crueldade. É a representação do mal antitético à vontade de Deus. Társis ficava em alguma parte do oeste distante e é um lugar onde Javé não é conhecido (Is 66:19). Jonas vê Társis como um refúgio para além do domínio de Javé. Visto que Javé é o criador todo-poderoso, ele situa Társis nos confins do mundo, onde a morte e o caos começam. Para Jonas, Társis pode paradoxalmente representar um lugar agradável e seguro na borda da não-existência.
O narrador descreve a fuga do profeta como uma série de descidas – yarad. Ele desceu a Jope, ao navio e ao fundo do navio. Depois dormiu profundamente, que também tem raiz em yarad. Na sua oração ele descreve seu ingresso no mundo dos mortos – xeol – 2:2-9. A fuga de Jonas da presença de Javé é como uma descida até o mundo inferior.
O termo hebraico yarketei hasefina v 15 – “fundo do navio” – é um contraste como yarketei tsafon ou monte Sião no salmo 48, o refúgio final para Israel contra as nações atacantes. Em Isaias 14:12-19 yarketei é descrito como sendo o poço/abismo onde lúcifer foi jogado – v 15.
Desobedecer a Deus é descer gradativamente ao mundo dos mortos. Lição que foi difícil Jonas compreender, e ainda continua na igreja e no mundo, de modo geral. Milhares de pessoas ainda fazem como Jonas preferem pagar sua passagem e embarcar no expresso yarketei hasefina do que cumprir a vontade estabelecida por Deus.

O encontro com um Deus irado

Deus envia uma tormenta. O salmista diz que ele tem ventos em depósitos (135:7). Ele ajunta os ventos em suas mãos (Pv 30:4). A desobediência sempre traz tempestades dentro da alma, da igreja, da família e da nação.
A tempestade prevalece até o ponto de ameaçar a segurança do barco. A tripulação estava alarmada pelo poder da tempestade, mas Jonas era a única pessoa despreocupada (v 5). Eles estavam com medo. Deus fez que grandes homens e o capitão procurassem socorro. Eles clamaram cada um ao seu Deus. Da mesma forma, muitos não lembram de orar até estar numa situação difícil. “Ao seu próprio deus” i.e. deuses dos países, cidades ou tutelares, padroeiro. Todos acreditam em alguma coisa superior, especialmente quando não existe forças físicas para responder ou atender as necessidades concretas (Is 8:19).
A atividade frenética dos marinheiros salienta a inatividade de Jonas. Uma paralisia da fé. Quando argüido da sua atividade ele omite toda a sua confissão de desobediência. A piedade de Jonas em temer Javé é contrastada com a piedade dos marinheiros – v 16. Como é possível escapar do Deus que criou os céus e o mar, embarcando para o alto mar?

O capitão e a tripulação são retratados com bastante simpatia. Em contraste com Jonas eles empregam todos os meios para continuar vivos: oram aos seus deuses, abandonam as cargas, tiram sortes. Sabem que seus destinos estão nas mãos de alguém maior que eles (v 14). Eles fazem de tudo para salvar a vida de Jonas: o capitão manda-o levantar-se, os marinheiros tentam voltar para a terra firme. Ao descrever a morte Jó diz: “jaz porém o homem e não pode levantar-se, os céus se gastariam antes de ele despertar ou ser acordado de seu sono” 14:12; “assim quem desce ao Xeol não subirá jamais. Não voltará para sua casa” 7:9-10. A ordem do capitão ecoa a ordem divina: levanta-te e invoca o teu Deus. Os marinheiros tentam levar o barco para a terra seca, terra dos vivos.

A hora do julgamento.

O mestre do navio chamou Jonas para orar ao seu deus e se preparar para a vida ou para a morte. Aqueles que dormem na tormenta podem bem ser argüido a se justificar.
Levanta-te, clama o teu Deus – a devoção dos descrentes deve impulsionar a igreja orar. Em tempos de desastres públicos a igreja deve buscar o trono da graça para um bem comum.
O capitão do navio falou de um deus e não vários deuses; cada um clamava ao seu próprio deus, mas ele sabia que somente um poderia responder. Enquanto estivessem vivos, havia uma esperança, e enquanto houver esperança haverá uma sala para oração.
Eles resolveram lançar sortes, pois nenhum deles tomava a iniciativa de declarar algo errado que tivesse feito para desagradar o seu deus. Mas cada um suspeitava um do outro. Os criminosos nunca confessam seus crimes até que não vêem mais desculpas! Então a sorte cai sobre o profeta. É muito provável que naquele navio havia pecadores maiores que Jonas, no entanto a tempestade era por causa do profeta.
O aparente cuidado de Jonas pela vida dos marinheiros no verso 12 deve ser contrariado com o desejo inconsciente de Jonas estar descendo para o mundo dos mortos, um afastamento direto e uma descida do cume da vontade de Deus. Deus manda um grande peixe engolir o profeta rebelde. Nunca o verbo engolir possui uma conotação positiva. Coré e seus seguidores foram engolidos pela terra/Xeol, bem como faraó e seus carros pelo mar – Nm 16:28; Ex. 15:12.
Fim do primeiro ato. O herói é jogado ao mar e engolido por um grande peixe. O profeta vai descrever sua experiência como sendo a de ter sido sepultado vivo. O preço da desobediência sempre é alto. O pecado de Jonas levou-o em uma descida para o mundo dos mortos, e é sempre assim, o pecado jamais nos aproxima de Deus.

Leituras sugeridas

Alter, Robert e Kermode, Frank. Guia literário da Bíblia.
Bíblia Hebraica Stuttgartensia.
Henry, Mathew. Mathew Henry´s Commentary on the whole bible. Vol IV.

Pr. Francimar lima