sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

LIÇÕES SOBRE O AMOR EM CANTARES: O PODER DO AMOR

As figuras empregadas por Salomão para falar do amor enquanto um vínculo poderoso são ricas em detalhes, algo que, em virtude de sua beleza estilística, desafia a sensibilidade de qualquer poeta. Há no texto, dois grupos de metáforas, cada um expressando um aspecto do poder do amor conjugal. O primeiro grupo – morte, sepultura e fogo – apontam para o poder incontrolável e devastador do amor. Nessa seqüência de figuras há aquilo que os estudiosos da literatura sapiencial denominam paralelismo gradativo. A morte indica o fim da existência, a sepultura refere-se à autenticação pública da morte e o fogo é usado em várias passagens para representar a destruição definitiva dos maus. A destruição, portanto, vai ganhando intensidade na medida em que as figuras são apresentadas. O que nos chama a atenção nesse texto é fato do sábio empregar figuras de poder destrutivo para representar o caráter poderoso do amor conjugal. Tanto a morte quanto a sepultura e o fogo são elementos ligados à destruição das coisas. A morte representa a destruição da existência terrena, a sepultura representa a destruição do corpo e o fogo a perdição final dos homens maus. Por que o sábio lança mão dessas figuras para ilustrar o amor?

Quando olhamos rapidamente as páginas da literatura, observamos que, ao longo da história, os poetas empregaram a figura do sol, do mar, das estrelas e até do próprio Deus para expressar o poder que envolve o amor conjugal. Em meu conhecimento extremamente limitado da literatura mundial, não me lembro de um poeta, além de Salomão e de Camões que afirmou que o amor é um fogo que arde sem se ver, que tenha recorrido às figuras da morte, da sepultura e do fogo para expressar o caráter poderoso do amor. Qual seria a razão do sábio ter empregado um procedimento tão radical? Porque será que ele não diz que o amor é como a flor que nasce em terra seca, como as ondas do mar que marcham incontroláveis ou como o sol que dispersa as trevas noturnas?

Em primeiro lugar, deve ser dito que Salomão não está querendo dizer que o amor conjugal é um sentimento necessariamente destrutivo. Na verdade, ao empregar estas metáforas, ele deseja ressaltar o grande poder que está associado ao amor conjugal. Por isso ele recorre a figuras que possuem um conteúdo expressivo tão forte, tão contundente. Além disso, é como se ele quisesse nos lembrar que o amor, quando vivenciado de forma equivocada, pode ser dotado de um potencial destrutivo. O amor conjugal não é necessariamente destrutivo, mas, em virtude do seu imenso poder é capaz de tornar-se destrutivo, pode causar danos irreparáveis aos amantes que usufruírem-no da forma incorreta. Usado de forma incorreta o amor pode se transformar em ciúme possessivo, em sensualidade, adultério e pornografia. Certamente, os publicitários conhecem esse pode do amor quando exploram de forma apelativa a nudez em suas campanhas publicitárias. Ninguém em sã consciência negará que no amor conjugal há o elemento instintivo e impulsional. Se este elemento não for controlado o poder do amor pode se tornar destrutivo. Na verdade, não controlar esse elemento significa vivenciar o amor conjugal de forma equivocada. Pensemos no exemplo de uma esposa que esconde o uniforme do esposo porque não deseja que ele vá jogar bola com os amigos, ou o esposo que não aceita o fato de sua esposa trabalhar fora, ou mesmo aquele que, em um ato extremo, é capaz de tirar a vida da pessoa que afirma amar. Todos estes exemplos apontam, em maior ou menor grau, para o poder destrutivo do amor conjugal, uma forma equivocada de amor conjugal, para ser mais preciso.

O segundo grupo de metáforas empregado por Salomão é ainda mais forte em seu conteúdo expressivo. Neste trecho ele emprega a figura do fogo em diferentes graus de intensidade. Com isso o autor do Cântico dos cânticos tenciona falar dos graus de poder do amor. O sábio começa a sua seqüência de metáforas comparando o amor a uma brasa. O termo hebraico gahelet empregado nesta passagem aplica-se ao carvão de madeira usado para cozinhar, aquecer e queimar incenso. As brasas ardentes podem aplicar-se figuradamente à destruição do herdeiro único de uma família (II Sm. 14:7), ao caráter destrutivo das contendas (Pv. 26:21) e ao juízo divino (Sl. 120:4; 140:10).

O segundo elemento apresentado no texto é a figura da labareda. As labaredas são do Senhor como se o sábio quisesse enfatizar a procedência divina do amor conjugal e, ao mesmo tempo, o seu caráter sacrificial. A expressão “labaredas do Senhor” nos remete às oferendas que eram queimadas a Deus. Trata-se do fogo que adquiriu maior intensidade. É fácil apagar o fogo de uma brasa, basta que lancemos um pouco de água sobre ela. Às vezes, nem é necessário lançar água sobre ela, basta tirá-la do braseiro. O fogo que assumiu a forma de labareda, entretanto, em virtude de sua maior intensidade, é muito mais difícil de ser apagado. Para termos uma idéia disso basta nos lembrarmos daquelas reportagens sobre incêndios florestais. Sempre que elas ocorrem, os bombeiros têm muita dificuldade para controlá-la e só conseguem fazê-lo depois de gastar muito suor e água.

O terceiro estágio do fogo empregado por Salomão não aparece de forma explícita como os anteriores, mas é possível deduzi-lo através da expressão empregada pelo sábio. Segundo ele, as muitas águas não poderiam apagar o amor nem os rios afogá-lo. Que estágio do fogo nem mesmo as águas de um rio podem apagar? Trata-se do vulcão. Em um verdadeiro espetáculo da natureza, quando os vulcões entram em erupção, as suas larvas são capazes de penetrar as águas do mar e manter acesa a sua chama ardente. No vulcão o fogo atinge o seu mais alto grau de intensidade e calor, intensidade à qual nem mesmo o frio das águas podem deter. Com essa figura o paralelismo gradativo do sábio atinge seu clímax. É fácil apagar o fogo em forma de brasa, quando esse fogo se converte em labaredas a tarefa se torna mais difícil, quanto ele se torna vulcão, é praticamente impossível apagá-lo.

A figura empregada por Salomão fala de uma forma muito profunda sobre os graus de poder do amor. Há momentos em que ele pode ser comparado a uma brasa, às vezes ele ganha a intensidade de uma labareda, às vezes, de um vulcão. Esse princípio possui implicações bastante decisivas para o relacionamento conjugal. A principal delas consiste no fato que, quanto maior for a intensidade do amor, mais difícil será para desfazer o laço conjugal. Casamentos que se desfazem com facilidade é porque o seu amor é apenas uma brasa que pode ser apagada facilmente pelas frias águas dos problemas diários. Quando o amor é como o fogo de um vulcão, nem mesmo os mares de tribulações que se arremessam contra o casal, podem apagar ou destruir o amor. Pelo contrário, ele sempre sai dos problemas mais fortalecido.

Como deve ser o processo gradativo do poder do amor? Muitas pessoas têm a seguinte compreensão do amor conjugal: quando ele começa, na época do namoro , é tão intenso e incontrolável como as larvas de um vulcão. Vem o casamento e ele perde a intensidade inicial e se transforma em uma labareda. Após os dez anos de casamento, às vezes menos, quando passa a lua de mel e surgem os filhos, ele se transforma em uma simples brasa cuja intensidade, nem de longe, lembra aquele ardor inicial. Essa concepção é totalmente equivocada. O verdadeiro amor conjugal realiza o movimento inverso. Ele começa como uma brasa, evolui para uma labareda e depois ganha a intensidade de um vulcão. È claro que não estamos restringindo o amor conjugal apenas a sua dimensão física. Já foi falado que o simples apetite físico que encontra realização no ato sexual é apenas um dois componentes do amor conjugal. Há também neste sentimento sublime um profundo prazer de ordem espiritual. Na verdade, o componente físico tende a perder a intensidade com o passar do tempo. Os casais mais idosos sabem muito bem do que estou falando. A perda de intensidade do componente físico do amor conjugal não significa necessariamente que ele está perdendo a intensidade. Na verdade, na medida em que vai se tornando cada vez mais espiritual, ele vai adquirindo maior intensidade, e, quanto mais espiritual o amor conjugal se torna, maior se torna o seu poder. É verdade que, em virtude dos problemas aos quais o relacionamento conjugal está exposto, o casal passará por momentos em que o fogo do amor terá a sua intensidade diminuída, mas ele não demorará em ser restaurado à sua harmonia inicial.

Postado por J. Marques

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LUTERO E A ESCRAVIDÃO DA VONTADE - PARTE IV

IV. Lutero conclui fazendo o seguinte apelo a Erasmo:


Agora, meu Erasmo, peco-te, por Cristo, que cumpras o que prometeste; pois prometeste ceder ao que ensina algo melhor. Esquece a consideração de pessoas! Admito que és um grande homem e dotado por Deus com muitos dos mais nobres dons, para não falar dos demais, de teu talento, erudição e da eloqüência quase milagrosa. Eu, no entanto, nada tenho e nada sou, a não ser que quase me possa gloriar de ser cristão. Além disso elogio e gabo muito em ti o seguinte: és o único que atacou a questão em si, isso é, a questão essen¬cial, e näo me fatigaste com aqueles assuntos secundários sobre o papado, o purgatório, as indulgências e outras coisas deste tipo que mais são frivolidades do que questões [sérias], pelas quais ate agora quase todos tentaram caçar-me em vão. Tu como único reconheceste o ponto central de toda [controvérsia] e pegaste a coisa pela gravata; por isso te agradeço de coração. Pois com este tema gosto de ocupar-me muito mais, sempre que as circunstâncias e o tempo o permitem. Se aqueles que ate agora me agrediram tivessem feito isso, se ainda o fizessem aqueles que apenas insistem em novos espíritos, em novas revela¬cões, teríamos menos sedições e seitas, e mais paz e concórdia. Mas foi desta maneira que Deus castigou nossa ingratidão por meio de Satanás. Se, porém, não podes tratar desse assunto de forma diferente do que o fizeste na Diatri¬be, desejaria muitíssimo que te satisfaças com teu dom e que te dediques a cul¬tivar, enobrecer, fomentar as ciências e as línguas, como o vinhas fazendo até agora com grande sucesso e louvor. Com este trabalho também prestaste um grande serviço a mim e confesso que te devo muitas coisas, e, por certo, nes¬te sentido, te tenho muita estima e sincera admiração. Deus ainda não quis até agora que estivesses a altura desta nossa causa. Peco-te, porém, entender que nada disso é dito com arrogância. Rogo, porém, que em futuro próximo o Se¬nhor te faça tão superior a mim neste assunto como és superior a mim em to¬das as demais coisas. Pois näo é nenhuma novidade se Deus instrui a Moisés por meio de Jetro e ensina a Paulo por meio de Ananias”. Quando, porém, dizes que seria errar o alvo de longe se tu ignorasses a Cristo, julgo que tu próprio deves ver como está a situação. Pois nem todos irão errar se erramos tu e eu. E Deus que é anunciado admiravelmente em seus santos, para que consideremos santos aqueles que estão mais distantes da santidade. E visto que és humano, pode acontecer com facilidade que não entendas de forma correta ou não examines com suficiente diligência as Escrituras e os ditos dos pais, sob cuja orientação crês alcançar o alvo. Isso o denun¬cia com clareza suficiente o fato de escreveres que não fazes assertivas, mas apenas comparações. Assim não escreve a pessoa que tem uma visão profun¬da do assunto e o entende corretamente. O Senhor, porém, de quem é a causa que defendo, te ilumine e faça de ti um vaso para honra e gloria. Amém.

Postado por Elias Lima

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

LIÇÕES SOBRE O AMOR EM CANTARES: A IDENTIFICAÇÃO

O texto de Cantares 8:6,7, comumente citado em convites de casamento e em cerimônias nupciais, é aquele que melhor define a natureza do amor conjugal em toda a Escritura. Apenas nesse texto são encontrados três os elementos indispensáveis à compreensão do sentido do Eros, termo empregado por C. S. Lewis para identificar o amor conjugal.

O amor conjugal é, antes de tudo, um laço que implica em identificação entre os amantes. Salomão recorre à metáfora do selo para falar da identificação que o amor produz nos cônjuges. Também conhecido como sinete, o selo é empregado desde tempos remotos para indicar a autenticidade de um documento ou mensagem, comprovando assim a identificação entre ela e seu emissor. O selo era uma espécie de confirmação pública de que ele era responsável pelo conteúdo emitido. O exemplo bastante claro dessa prática no Antigo Testamento pode ser encontrado no episódio da morte de Nabote. Nesta ocasião, a rainha Jezabel envia cartas aos anciãos e nobres de Israel, selando-as com o sinete de Acabe (II Re. 21:8). Na Antiguidade, era comum os reis e nobres usarem como selo os seus próprios anéis. Quando os servos eram enviados, por exemplo, a transmitir uma mensagem de seus senhores, eles costumavam levar os anéis para confirmar a identidade entre este comunicado e o seu suposto emissor. Com a presença do anel ninguém ousaria questionar a autenticidade daquela mensagem.

O autor do Cântico recorre à figura do selo exatamente para falar da identificação que existe no amor conjugal. Essa identificação é tão profunda que o sábio extravasa na aplicação da metáfora. O selo não é colocado apenas sobre o braço, mas sobre o coração. O braço, provavelmente um sinônimo poético para mão, representa o componente físico, já o coração, enquanto núcleo da afetividade humana, aplica-se ao elemento espiritual. Isso comprova que há no amor conjugal uma dupla identificação: interna e externa. Para utilizar outros termos, uma identificação espiritual e física ao mesmo tempo. O amor conjugal vai do simples apetite físico ou sexual ao mais elevado prazer espiritual. Sem a identificação física o Eros se transforma em sadismo e sem a identificação espiritual ele se converte em auto-erotismo. Amar é, portanto, identificar-se com a pessoa amada, é desejar que os outros nos vejam através dela. De uma forma misteriosa, o amante utiliza a amada como uma espécie de selo em seu próprio corpo, e o mesmo faz a amada em relação ao amante.

Algumas pessoas costumam empregar um princípio da física segundo o qual os opostos se atraem para falar do amor conjugal. Na verdade, o grande mérito do amor não está em atrair os amantes, mas em manter unidos aqueles que por ele são atraídos, e isso só é possível por meio da identificação. A simples oposição pode ser empregada como força atrativa, mas também pode ser empregada como instrumento de separação. Sem a identificação, portanto, o atrito vira conflito e a oposição vira separação. Isso serve como uma espécie de conselho para aqueles que pretendem partilhar o amor conjugal. É preciso que eles busquem pessoas com as quais possam estabelecer um vínculo de identidade. Se há algum casal que já está partilhando do amor conjugal e não consegue encontrar identificação entre ele e a pessoa amada, ele precisa descobrir o mais rápido possível algo que lhe identifique com a pessoa amada, caso contrário o seu relacionamento estará ameaçado.

O princípio da identificação tem implicações bastante sérias para o relacionamento entre os casais. Em primeiro lugar, ele ensina que aquele que ama desejará sempre associar-se publicamente à pessoa amada. Há uma prática muito comum entre casais de namorados que consiste em imprimir em blusas a foto da pessoa amada. Esta foto é quase sempre acompanhada por frases poéticas e declarações amorosas. O namorado sente-se feliz e até um pouco orgulhoso em poder trajar esta roupa. É como se ele quisesse declarar a todos que está ligado a essa pessoa, que se identifica com ela. A foto da pessoa amada é usada como uma espécie de selo. Infelizmente, esta prática não é vista com a mesma freqüência entre pessoas casadas. Entre casais que já ultrapassaram os dez anos de casamento, a foto da pessoa amada é geralmente substituída pela foto dos filhos. Essa é uma das primeiras evidências que o vínculo de identificação que marca o amor conjugal está se perdendo. No último estágio dessa tendência danosa, o cônjuge sentirá vergonha de associar-se ao seu companheiro, evitará, por exemplo, passear com ela em ambientes públicos ou apresentá-la aos amigos de trabalho. Casais que chegaram a este estágio certamente desconhecem que o amor conjugal é marcado pela identidade entre os amantes. Não sabem que aqueles que são envolvidos por esse sentimento sublime desejarão ardorosamente publicar para todos a sua ligação com a pessoa amada. Desculpem-me a franqueza e o rigor das palavras, mas há muitos esposos que tratam as suas esposas como prostitutas. Não no sentido de que pagam para possuir seus corpos, mas no sentido de que se envergonham dela e querem mantê-las escondidas, ficam embaraçados sempre que precisam comparecer em público com elas. Que fique bastante claro: em um relacionamento dessa natureza os cônjuges desconhecem a essência do amor conjugal, desconhecem o poder desse laço de identificação que une os amantes.

Em segundo lugar, o princípio da identificação implica em valorização. Aquele que ama vê a pessoa amada como algo precioso. Essa consciência muda drasticamente o tratamento dos casais entre si. Para recorrer a uma analogia, que mulher, possuindo um colar de pérolas, desejará que ele fique sempre guardado? Na verdade, ela desejará mostrar a todos a sua joia valiosa, por isso, costuma usá-la em ocasiões importantes. Durante a festa, sempre que as pessoas olham para ela e ficam extasiadas com a beleza do seu colar, ela se sente orgulhosa por ser dona de tal joia. Além disso, ela cuidará do seu colar com todo o empenho, considerando que ele é algo precioso para ela. Essa comparação ilustra bem a ideia do amor conjugal. Quem ama vê a pessoa amada com uma joia preciosa. Por esta razão, cuidará dela com todo empenho e dedicação e ficará feliz sempre que as pessoas puderem perceber que eles se pertencem, que estão indissoluvelmente unidos pelo amor, sentir-se-á importante porque pertence a amada e amada lhe pertence.

Por fim, deve ser acrescentado que é o princípio da identificação que garante a unidade do relacionamento conjugal. Somente por meio dele a metáfora “tornar-se uma só carne”, utilizada para representar o casamento, ganha vida. Sem ele pode ser que haja um ajuntamento entre duas pessoas, nunca a sublime e misteriosa unificação conjugal. Eis a razão porque muitos casais estão vivendo sérias crises conjugais: não é que eles sejam incapazes de amar, a razão é que eles desconhecem as implicações do princípio de identificação que caracteriza o amor.



Postado por J.Marques

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Mundo, a Rede que nos Prende

Os mosteiros surgiram para dar uma opção aos que queriam consagrar-se a Deus e afastar-se do mundo. A disciplina do monasticismo era a mais severa da idade média. Os monges lutavam contra a natureza, degradando o homem até torná-lo numa máquina, abandonando o conflito no mundo. Os monges eram conhecidos como amantes de Deus, servos de Deus, renunciadores, atletas de Cristo, indicando os extremos de renúncia e rigor na disciplina da autoconsagração.

O filme “o nome da rosa” conta um pouco da rotina dos mosteiros da idade média. Mas destaca uma falha crucial do sistema monástico: a disciplina rigorosa não estava mudando os monges. No meio do claustro e afastado das mulheres, que era o grande causador do mal na idade média, ou de qualquer outro contato com o mundo físico, ainda assim os monges estavam se envolvendo com pecados escandalosos, típicos do mundo do qual eles procuram distância.

Essa dura realidade, acontecida há 500 anos atrás não é diferente do que ocorre hoje. Tentar fugir do mundo não nos garante que o seu espírito tenha sido tirado de nós. A solução pra uma vida de sucesso com Deus não depende do quanto ausente estejamos dos lugares (estádios, shopping, praia, praça) ou me abstenha das coisas materiais do mundo (televisão, computador, internet, carro), mas o quanto eu ame o Senhor.

Fugir do mundo físico não significa viver para Deus. Jesus disse que não tiraria seus discípulos do mundo, mas que os guardaria do mal – João 17. Enquanto vivermos nesse mundo estaremos em guerra contra três arquiinimigos: o mundo, a carne e o diabo.

Se é verdade a frase: “para derrotar o inimigo é importante conhece-lo” então faremos grandes avanços se estudarmos esses inimigos, na tentativa de conhece-los para derrota-los.

O mundo é uma rede que nos prende.

João é quem mais usa a palavra. Das 185 ocorrências ele usa 105, sendo 78 no evangelho, 24 nas cartas e 3 no apocalipse. Vamos perceber o significado do mundo em João e Paulo:

O mundo no sentido literal.

O universo – a totalidade de tudo que existe – João 17:5; Rm. 1:20; Ef 1:4; 1 Cor. 3:22; 8:4, 5. Foi considerada como “muito bom” em gênesis. A terra onde vivemos, o cenário da história – onde os homens nascem e morrem – João 16:21; 1 João 3:17; 1 Tm 6:7.

O mundo no sentido figurado.
 A totalidade da sociedade humana – João 1:29; 3:16; 2 cor. 1:12. “Todos os homens” são chamados de mundo. Sistema de valores alienado de Deus, que orienta o pensamento dos homens em oposição a Ele. Esse é o sentido que a bíblia mostra como inimigo do cristão. Possui certas características:

O mundo possui um curso/modo de pensar – Ef 2:2 “Peripateo” “andar” – os filósofos que andavam enquanto pensavam. O mundo também tem sua própria forma de pensar, seu curso. Esse curso/trajetória do mundo foi iniciada com Adão (Romanos 5:12), mas todos são responsáveis diante de Deus (Romanos 3:19). Por isso o mundo/criação anseia pela libertação do pecado – Romanos 8:20-22.

O mundo possui uma sabedoria – 1 Coríntios 1:20ss. Paulo estava pregando o evangelho da maneira de Deus para filósofos e judeus, os quais queriam que o evangelho fosse anunciado do modo do mundo: sinais e sabedoria (filosofia). Paulo insiste que não vai comprometer a pregação para agradar os sábios segundo o mundo, mas vai anunciar segundo a sabedoria de Deus. Em 1 Coríntios 3:18-20 a sabedoria do mundo é fútil, vazia, vaidade.

O mundo possui um espírito/conselho – 1 Coríntios 2:12. Os princípios do mundo, que incluem as especulações humanas, as tradições e até mesmo a religião, são contrárias a Deus.

O mundo possui sua própria religião – Gálatas 4:3; Colossenses 2: 8, 20. “Os rudimentos do mundo” – Paulo está corrigindo um ensinamento falso; a expressão se refere as primeiras coisas aprendidas, ao ABC da fé, mas que deveriam ser abandonadas quando a lição fosse totalmente repassada. Aqueles cristãos não queriam abandonar a circunsição e outros ensinamentos que não eram mais necessários à fé cristã, isso escravizava os cristãos a práticas mundanas. A religião do mundo mantém os homens em uma escravidão ao asceticismo e ao legalismo, que podem ter a aparência de sabedoria e promover uma espécie de devoção e autodisciplina, contudo, é perniciosa a fé autêntica.

Lições:

Fuja do curso do mundo – A bíblia exorta o crente a viver buscando as coisas do alto. O cristão não andará segundo os pensamentos do mundo.

Fuja da sabedoria do mundo – Não despreze a sabedoria de Deus mesmo que as vezes possa parecer loucura.

Fuja do conselho/espírito/religião do mundo – As tradições, as especulações, e até a religião do mundo sempre levarão o homem para longe de Deus.


Postado por Pr. Francimar Lima
Casa Nova, BA

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Lutero e a Escravidão da Vontade - Parte III


II. Lutero mostra o que Erasmo ensinava


Pela definição de Erasmo sobre o livre-arbítrio, Lutero mostra a ele que sua definição não é clara e que Erasmo precisava explicar tal definição para que a mesma se tornasse clara, pois Erasmo definiu o “livre-arbítrio” da seguinte forma: “Compreendo o Livre-arbítrio como o poder da vontade humana mediante o qual uma pessoa pode aplicar ou afastar-se das coisas que conduzem à eterna salvação” Com base nesta definição, Lutero mostra que o que Erasmo esta fazendo é o mesmo que os pelagianos fizeram. Só que Erasmo ultrapassou o conceito que os pelagianos tinham do livre-arbítrio, pois os pelagianos distinguiam em duas partes o “livre-arbítrio” – o poder de compreender a diferença entre as coisas e o poder de escolher entre elas. Com sua definição, Erasmo estava criando um meio livre-arbítrio, pois o seu “livre-arbítrio” teria o poder de escolher coisas eternas, embora seja totalmente incapaz de entende-las.

Mais adiante Lutero explica a má interpretação que Erasmo fez de Mateus 23:37 dizendo; “ agora chegamos aos seus textos “comprobatórios” do Novo Testamento. Você salienta o trecho de Mateus 23.37: “Jerusalém! Jerusalém! ... quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” Você argumenta que, se tudo acontece precisamente conforme Deus deseja, então Jerusalém poderia replicar com justa causa: “Por que desperdiças as tuas lágrimas? Se não tinhas a intenção que déssemos ouvidos aos profetas, então por que os enviaste? Por que nos consideras responsáveis, quando Tu decidiste aquilo que deveríamos fazer ? ” Porém, conforme eu já disse, a nós não compete nos intrometermos na vontade secreta de Deus, pois as coisas secretas de Deus estão inteiramente fora do nosso alcance (1 Tm 6.16). Deveríamos dedicar o nosso tempo considerando o Deus encarnado, o Senhor Jesus Cristo, em quem Deus tornou claro para nós o que deveríamos e o que não deveríamos saber (Cl 2.3). É verdade que o Deus que se tornou carne exclamou: “...quantas vezes quis eu... e vos não o quisestes!” Cristo veio a este mundo a fim de realizar, sofrer e oferecer a todos os homens tudo quanto é necessário a sua salvação. Mas alguns homens, endurecidos por causa da vontade secreta do Senhor, rejeitam-NO (Jo 1.5,11). O mesmo Deus encarnado, entretanto, chora e lamenta-se em face da destruição eterna dos ímpios, ainda que, em sua divina vontade, propositalmente Ele os tenha deixado perecer. Não nos cabe perguntar porquê, mas antes, nos prostrarmos admirados diante de Deus. Neste instante alguns dirão que logo que sou empurrado para um canto, evito enfrentar frontalmente a questão, dizendo que não devemos nos intrometer na vontade secreta de Deus. Entretanto, isso não é invenção minha. Foi dessa maneira que Paulo argumentou em Romanos 9.19,21; e Isaias, antes de Paulo (Is 58.2). E evidente que não devemos procurar sondar a vontade secreta de Deus, sobretudo quando observamos que são justamente os ímpios que são fortemente tentados a fazê-Lo. Nos devemos adverti-los a ficar calados e reverentes. Se alguém quiser levar avante essa forma de inquirição, é bem-vindo a faze-lo; porém, descobrir-se-á lutando contra Deus.

III. Lutero mostra o que ele pensava acerca dos ensinos de Erasmo


Lutero acreditava que Erasmo procurava infundir medo em seus oponentes, reunindo um grande número de textos bíblicos que supostamente davam apoio à idéia do “livre-arbítrio”. Mas os mesmos não passavam de uma manipulação do texto, ou seja, Erasmo torcia os textos para dizerem aquilo que ele acreditava, não aquilo que realmente o texto dizia. Lutero afirmava que Erasmo criara uma nova maneira de perder de vista o significado óbvio de um texto. Na ânsia de defender o “livre-arbítrio”, Lutero diz que Erasmo acabava dizendo toda sorte de coisas contraditórias, especialmente sobre a presciência de Deus. Como por exemplo, na explicação de Romanos 9:15-33, a estava atormentando terrivelmente a mente de Erasmo. Lutero, então, passa a esclarecer-lo dando-lhe um exemplo: “ Deus sabia de antemão que Judas Iscariotes haveria de ser um traidor, por conseguinte, Judas tinha de ser um traidor. Judas não tinha capacidade de agir de outro modo. Obviamente, Judas agiu espontânea e livremente, em harmonia com sua própria natureza. Deus sabia de antemão que Judas estava predisposto a agir e trouxe a ação dele a cena, no momento determinado. Em nada lhe ajuda falar sobre a chamada presciência humana, porquanto ela fica muito aquém da presciência perfeita de Deus. Sabemos, por exemplo, quando um eclipse acontecerá. Mas tal eclipse não acontece porque o previramos. Porém, quando Deus prevê alguma coisa, ela acontece porque Ele assim previra. Se você não aceita isso, mina todas as ameaças e promessas de Deus. Você nega o próprio Deus. Em dado momento, você teve o bom senso de admitir que Paulo ensina que Deus quer aquilo que prevê, e que aquilo obrigatoriamente acontece. Mas então, você estraga tudo, dizendo que acha isso difícil de aceitar. Assim, tenta escapar dessa conclusão, afirmando que Paulo não explicou o ponto, mas somente repreendeu quem estava argumentando com ele (Rm 9.20). Não é essa a forma de manusear os textos sagrados. Um exame do texto mostrará que Paulo explica a questão. De fato, não teria havido razão alguma para a reprimenda, se näo houvesse pessoas argurnentando contra a sua explanação. Paulo cita Êxodo 33.19: ‘Farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer’. Em Seguida, o apóstolo explica que os atos divinos de misericórdia ou de endurecimento não dependem, em coisa alguma, da vontade do homem, mas, exclusivamente, do próprio Deus. Paulo deixou claro que a presciência de Deus determina as ações realizadas pelos homens. Naturalmente, se tentarmos provar tanto a presciência de Deus como o “livre-arbítrio” humano, ao mesmo tempo, teremos problemas — como tentar demonstrar que certo algarismo é, ao mesmo tempo, um nove e um dez! A repreensão de Paulo é para aqueles que se ofendem com a palavra clara que ninguém é possuidor de “Livre-arbítrio”, e de que todas as coisas dependem exclusivamente da vontade de Deus. É este o momento para adorar a majestade do Senhor, em Sua imponência e notáveis julgamentos e dizer: “...faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10)

Lutero dizia ainda que Erasmo se utilizava de um bom número de ilustrações que descreviam a cooperação do homem com as operações divinas. Por exemplo: “o agricultor faz a colheita, mas é Deus que a dá”. É obvio, dizia Lutero, que tenho plena consciência da cooperação do homem com Deus, mas isso nada prova a respeito do ‘livre-arbítrio”. Deus é onipotente. Ele exerce total controle sobre tudo quanto Ele mesmo criou. E isso inclui os ímpios, os quais, a semelhança daqueles a quem Deus justificou e transportou para o seu reino, cooperam com Deus neste mundo. Todos os homens precisam seguir e obedecer aquilo que Deus intenciona que eles façam. O homem em nada contribuiu para a sua própria criação. E, uma vez criado, o homem não faz qualquer contribuição para permanecer dentro da criação de Deus. Tanto a sua criação como a sua continua existência são inteira responsabilidade do soberano poder e bondade de Deus, que nos criou e preserva sem qualquer ajuda nossa.

Antes de ser renovado, para fazer parte da nova criação do reino do Espírito, o homem em nada contribui para preparar-se para essa nova criação e reino. Por semelhante modo, quando ele é recriado, em coisa alguma contribui para ser conservado nesse reino. Somente o Espírito de Deus tanto nos regenera quanto nos preserva, sem qualquer ajuda de nossa parte. E como Tiago diz: “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18). Tiago está falando a respeito da nova criação. Não obstante, Deus não nos regenera sem que tenhamos consciência do que está sucedendo, porque Ele nos recria e preserva precisamente com esse propósito: que venhamos a cooperar com Ele.E o que e atribuído ao “livre-arbítrio” em tudo isso? Que resta para o “livre-arbítrio” ? Nada! Absolutamente nada!


Postado por Elias Lima

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

BREVE REFLEXÃO SOBRE O ANO PASSADO

E a vida eterna é esta: que conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste. Jo. 17:3

Quando for arrancada do calendário na parede a última página, quando o relógio, em sua cadência monótona, completar o seu último giro, quando os fogos ecoarem nos céus e produzirem um espetáculo multicor, quando as mãos se apertarem e os corpos trocarem o seu calor, então, o ano presente será confrontado com o seu final. Nostalgicamente, ele será depositado na imobilidade do passado e juntar-se-á aos outros anos passados, semelhante a um defunto que é recolhido à inércia e frialdade da terra. Ele também habitará na companhia silente dos anos cadavélicos, dois anos que em seu presente brilharam como uma chama tênue.

Quando o último instante for rasgado como um véu, o ano presente estará confinado à memória daqueles que dele quiserem lembrar. Será recordado com desprezo ou ternura, com remorso ou saudade, com decepção ou encanto. A verdade é que ele será uma espécie de fantasma a ocupar as nossas divagações noturnas, nada, além disso. Desejaremos que essa pálida sombra se perpetue nas encruzilhadas íngremes de nossa memória ou que desapareça por completo. Infelizmente, nada do que pudermos desejar mudará aquilo que ele foi para nós. No exato momento em que o ano presente se transforma em ano passado, o homem perde o seu controle sobre ele. De fato, é ele que passa a exercer controle sobre o homem. Quando estava diante de nós poderíamos dominá-lo, agora, distante, ele nos domina.

Pobre ano presente que agora não passa de ano passado. Talvez, a única coisa que o conforte seja a certeza de que o mesmo destino inexorável aguarda o ano futuro. Um dia ele também será depositado no insaciável sepulcro das eras e transformar-se-á em ano passado. Será tragado pelo abismo silencioso do tempo, essa imagem móvel da eternidade, como dizia Platão.

Mas, é possível romper essa realidade assombrosa e impedir que o ano passado seja apenas ano passado. Para aqueles que se dedicaram ao conhecimento, principalmente, o conhecimento das coisas divinas, cada ano passado possui a virtude do infinito. Certamente, para muitos que se ocuparam apenas com trivialidades, o ano passado será apenas ano passado. Não para aqueles que consagraram todo o seu ser à descoberta dos mistérios celestes, para aqueles que tentaram romper o véu do desconhecido. Para estes, o ano passado nem poderá ser considerado como tal. Ele é uma centelha da eternidade que se mostrou na dimensão do tempo. Nessa diminuta fração da existência tal homem foi capaz de perceber a plenitude do eterno, pois soube trilhar o caminho do infinito.

O homem do tempo, poderíamos também chamá-lo homem do imediato, transforma o que existe de eterno nele em uma modalidade do tempo. Para ele existe apenas o passado, o presente e o futuro, que será presente e perder-se-á nas encruzilhadas silenciosas do passado. Esse pobre homem não consegue encontrar a relação entre estas três as dimensões nem possui a virtude para transformá-las em eternidade. Por isso, no instante da passagem, se for sincero com sua própria existência, a única coisa que ele tem a fazer é lamentar o ano passado. A eterna e insaciável incompletude causar-lhe-á angústia e decepção, a estranha sensação de uma existência incompleta. A passagem é o instante em que ele será confrontado com a falta de sentido e propósito em sua vida.

O homem da eternidade, por outro lado, vive o eterno ainda que esteja confinado às dimensões do tempo. Ele possui a virtude para transformar o passado em presente, em futuro, em eterno. Diferente da maioria dos homens, ele aprendeu a dominar os anos, sejam presentes sejam passados. Ele não teme a imagem fantasmagórica que ficará em sua mente quando o ano presente silenciar. Por fim, no instante da passagem, nada ele tem a lamentar, apenas será tomado por certa tristeza ao ver que para muitas pessoas o ano que finda será apenas ano passado, uma espécie de fantasma que irá assombrar as noites de seus anos futuros.


Postado por J. Marques

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Lutero e a Escravidão da Vontade - Parte II


Romanos 3:9 “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado


Precisamos permitir que Paulo explique o seu próprio ensinamento. Diz ele em Romanos 3:9 “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados a vista de Deus, como tambem são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus, os quais pensavam que não eram servos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios tem-se mostrado capazes de desvencilharem-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem. Essa escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus.

Romanos 3:19 “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus

Neste trecho, Paulo declara que toda boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá argumentar contra o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor —nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontaneamente para Ele. Se alguém disser: “Tenho uma capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus”, esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada, mas tal idéia contradiz as Escrituras. Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar de tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que de maneira alguma procuram guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e merecem ser punidos por Deus.

Romanos 3:20 “visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.”

Aqui Lutero refuta o argumento feito por Erasmo a favor do “livre-arbítrio”, pois segundo ele a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Lutero responde: “Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: “Se nada podemos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?” A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz Paulo, em Romanos 3.20: “...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz a morte, ao inferno e a ira de Deus. A lei só pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusiva¬mente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão nem o “livre-arbítrio” podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o “livre¬-arbítrio” precisam da luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Gálatas 3. 19: “Qual, pois, a razão de ser da lei?” Entretanto, a resposta de Paulo a sua própria pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do “livre-arbítrio”. Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pessoa de Cristo.

Romanos 10:20 “E Isaías a mais se atreve e diz: Fui achado pelos que não me procuravam, revelei-me aos que não perguntavam por mim.”

Acredito que, aqui está uns dos argumentos mais forte de Lutero que ele usou, baseado na palavra de Deus. Ele começa dizendo: “Em Romanos 10:20, Paulo cita de Isaias 65:1: ‘Fui buscado pelos que não perguntavam por mim; fui achado por aqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome, eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui’. E conclui. Paulo reconhecia, por sua própria experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua furiosa cólera contra ela. Diz Paulo, em Romanos 9.30,3 1, que os judeus, que envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, foram alvos da misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do “livre-arbítrio” do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios receberam a salvação. A graça é gratuita¬mente ofertada a quem não a merece, nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo dentre os homens tenha tentado empreender.”

João 6:44 “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.

É nesta passagem, que Lutero mostra o que Jesus Cristo diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. Lutero argumenta dizendo que Isso não deixa qualquer espaço para o “livre-arbítrio”. E ele mostra como o Senhor Jesus passou a explicar como alguém é trazido pelo Pai:“Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim” (v. 45). A vontade humana, por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do Evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que Ele opere em seus corações. De fato, sem a operação interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que a segui-Lo.

Postado por Elias Lima

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Cidade de Deus e a Cidade dos homens

Durante a segunda guerra mundial os judeus e os povos conquistados pelos nazistas ficaram confinados a lugares subumanos, chamados guetos. Alguns filmes (como o pianista, a vida é bela, a lista Schindeler) poderiam dar uma boa visão da vida nos guetos. Ali os prisioneiros de guerra viviam a mercê do exército conquistador; suas casas, empregos, filhos ou filhas, tudo estava a disposição dos alemães. Eles viviam sem informações e sem esperanças. Ali era necessário aprender a ser quem eles não eram, sem poder expressar um mísero sentimento ou pensamento contrário aos seus algozes.


O cristianismo moderno parece viver nos guetos. A igreja está tomando o caminho combatido pela maioria dos reformadores, o isolacionismo. Os crentes mais se parecem reféns do mundanismo que sal e luz. Por causa desse separatismo exagerado, a igreja começa formar os seus guetos, ou seja, formar sua própria cultura, porém influenciada pelo mundo. O crente é advertido a não ouvir música mundana pois há estrelas evangélicas; não precisamos ir ao cinema pois temos a alternativa de filmes evangélicos; não devemos ler tal e tal livro pois precisamos ler a Bíblia e livros evangélicos. Dessa forma a igreja se torna um trampolim para a maioria de artistas não vocacionados na tentativa de ganhar fama e dinheiro.

Mas será que a atitude da igreja de viver nos guetos é normal? Os crentes devem continuar reféns da nossa sociedade moribunda? O que significa o conceito de separação nas sagradas escrituras e qual sua relevância para a igreja hoje?

Deus fez tudo perfeito (Gn. 1:31) sem a distinção do sagrado e secular. O trabalho era veículo da construção do reino de Deus pelo avanço da cultura e de uma civilização piedosa (Gn. 2:15). Não havia evangelismo. A família foi a instituição perfeita para expressar amor e união entre marido e mulher e receber os filhos como benção do Senhor (Gn. 1:28).


A queda trouxe mudanças em tudo. O trabalho deixou de ser feito com prazer para ser “fadiga e dor”. A benção da família ficou ofuscada pela maldição do parto doloroso; o marido e a mulher ficaram como rivais, disputando a liderança do lar; guerra entre marido e mulher, entre a semente da mulher e serpente, (Gn. 3:14-20). A família e o casamento não eram mais sagrados visto que a “casa dos ímpios” e a “casa dos justos” se distinguem. Deus removeu o paraíso para o céu, Gn. 3:24.

Ao ser expulso da cidade de Deus, o homem vive tentando construir sua própria cidade.

A construção da cidade dos homens.

Eva exclamou de alegria ter concebido “um varão, o Senhor”, i.e. o messias que restauraria a paz entre o homem e Deus Gn. 4:1-2. No entanto, este foi o assassino de seu irmão por querer agradar a Deus do seu jeito (4:4-5). Deus requeria sacrifícios assim como Ele fizera no jardim para os seus pais – Adão e Eva. Caim não se arrependeu, mas se irou com Deus. Caim não seria o messias, antes o pai de uma geração que odiaria Deus.

Deus preserva a Vida de Caim, mesmo que ele entendia a necessidade de ser vingado (4:14), foi amaldiçoado por Deus (4:11). Deus livrou Caim para edificar uma cidade (v.17). Os habitantes dessa cidade seriam: (a) criadores de gado ou nômades– v. 20; (b) peritos na música – v. 21; (c) peritos em ferro – v. 22; (d) o primeiro polígamo – v. 23; (e) artistas – v. 23.

A cidade dos homens é audaciosa e desafiadora de Deus – 11:1-9. Os homens estavam proibidos de entrar no Éden ou estabelecer um céu na terra. Babel era um prédio religioso. Assim como o pai da cidade dos homens recusou o meio correto para salvação, os construtores da torre recusaram confiar na promessa de Deus. No verso 4 e 8 fala do interesse dos construtores era edificar uma cidade. Ainda hoje a cidade dos homens prefere confiar na tecnologia a confiar nas mãos potentes de Deus. Os homens queriam subir e Deus preferiu “descer” (11:5). Hoje, com o auxilio do iluminismo, esquecemos que a salvação vem de Deus (Jonas 2:9) e assim confundimos que a construção terrena não é a reconstrução do paraíso. Todos impérios fracassaram nessa investida: Roma, Alemanha, EUA. Jesus diz: “o meu reino não é deste mundo” João 18:36.

A reconstrução da cidade de Deus.

A cidade de Deus não era mais edificada com árvores, rios e animais, mas com pessoas que estivessem dispostas a “invocar o nome do Senhor” – Gn. 4:25-26. Adão já buscava o Senhor através dos sacrifícios ensinados por Deus. Caim e Abel possuíam um princípio de invocar o Senhor, mas com Enos a invocação é plena e completa. Os seus descendentes passam a buscar o Senhor diferentes de Adão, Caim e Abel.

Os cidadãos dessa nova sociedade estão sujeitos a queda e ao fracasso espiritual – Gn. 6:1ss. Mas sempre restará um grupo perseverante nos caminhos de Deus – Gn. 6:29; 6: 8-10; 12:1. e.g. Noé e Abraão.


A cidade de Deus está no céu, mas os seus cidadãos estão na cidade dos homens. Até o dia de voltarmos para esta cidade, devemos usar nossa posição para honrar a Deus na liderança secular, e.g. Daniel e José não procuraram transformar seus cargos em catalisadores de transformação de reino humano em teocracia Bíblicas como Israel foi (ou Calvino em Genebra e os Anabatistas radicais em Münster, Alemanha). Pelo contrario, seguiram sua vocação no mundo com excelência e diligencia, ganhando respeito daqueles regentes estrangeiros e melhorando as vidas daqueles sobre quais exerciam autoridade (1 Ts. 4:11). Os crentes são santos por pertencerem a Cristo e não por estar numa esfera da igreja; contudo, vivem no âmbito profano ou comum. Espera-se a diferença na sua crença e procedimento, atitudes e estilo de vida; mas, não se espera que os crentes convertam o ambiente secular em sagrado. e.g. Daniel e José tomavam decisões baseado nas leis babilônicas e egípcias e não judaicas.

Diante de tudo isso, como o cidadão da cidade de Deus deve viver na cidade dos homens?

Como operários do grande mosaico de Deus. Todo nosso trabalho deve ser feito para a glória de Deus. 1 Ts. 4:11; assim como o mosaico é feito de pedaços geometricamente diferentes, também a obra de Deus. Não está na obra de Deus somente quem trabalha na igreja, mas todo que considera e dedica seus afazeres parte de sua adoração a Deus, 1 cor. 10:31; Col. 3:23.

Como proclamadores das virtudes de Deus. 1 Pe. 2:9-10; 3:15.

Como peregrinos. Há um grande risco de viver em dois mundos: ser monges eremitas ou se misturar com as alfarrobas do mundo. Deus não nos chamou para o isolacionismo nem para o mundanismo, porém para ser sal da terra e luz do mundo. Um dos grandes desafios do cristão é viver numa sociedade totalmente diferente de sua real pátria. Abraão peregrinou pela fé porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador Hebreus 11:9-10.

Nas palavra do hino “a bela cidade”:

Tenho lido da bela cidade,
construída por Cristo nos céus;
é murada de jaspe luzente
e juncada com áureos troféus
e no meio da praça eis o rio do vigor e da vida eternal;
mas metade da glória celeste jamais se contou ao mortal


Tenho lido das belas muralhas
que Jesus foi no céu preparar,
onde os crentes fiéis para sempre mui felizes irão habitar.
Nem tristeza nem dor nem gemidos entrarão
na mansão paternal;
mas metade da glória celeste jamais se contou ao mortal

Tenho lido das vestes brilhantes
das coroas que os santos terão
quando o pai os chamar e disser-lhes:
Recebei o eternal galardão.
Tenho lido que os santos na glória
pisarão ruas de ouro e cristal;
mas metade da glória celeste jamais se contou ao mortal

Postado por Francimar

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Lutero e a Escravidão da Vontade - Parte I

Introdução

“A escravidão da vontade”, de onde o resumo “Nascido Escravo” foi tirado, foi escrita por Martinho Lutero como reação aos ensinamentos de Desidério Erasmo. O qual era um humanista, pois acreditava que os homens podem conquistar a salvação, ao invés de dependerem exclusivamente de Jesus Cristo – em Sua morte e ressurreição. Erasmo nasceu entre 1466–1469 em Rotterdam, na Holanda. Ele foi monge agostiniano durante sete anos, e isto aconteceu antes de viajar para Inglaterra, onde fora motivado a aprofundar seu conhecimento do grego, chegando a produzir um texto crítico do Novo Testamento grego (1516). Rejeitava os métodos fantasiosos de interpretação das Escrituras, bem como as superstições dos mestres da Igreja Católica Romana. Erasmo sempre preferia uma abordagem simples do ensinamento Cristão aos complicados e pormenorizados métodos dos teólogos profissionais. Ele evitava as controvérsias, e, por longo tempo, não procurou tratar publicamente sobre o conceito do “livre-arbítrio”. No verão de 1523, contudo, Ulrico Von Hutten, outro humanista alemão, forçava Erasmo a se posicionar. Acusava-o de fugir a posicionamentos claros em relação à Reforma e de estar-se distanciando dela.


O posicionamento de Erasmo veio com uma clareza em nada esperada por Lutero. Em princípios de Setembro de 1524, Erasmo de Roterdã publicou sua “Diatribe sobre o livre arbítrio”. Nela posicionou-se abertamente contra uma afirmação central da teologia de Lutero: “sua antropologia. Desafiando desta forma a solicitação de Lutero para que não fizesse tal coisa. Depois da publicação, Erasmo escreveu a Henrique VIII nestes termos: “Os dados foram lançados. O livreto sobre o ‘livre-arbítrio’ acaba de ver a luz do dia”. Tal livreto agradou ao papa e ao Sacro Imperador Romano, e foi elogiado por Henrique VIII. Com essa publicação Lutero teve que se posicionar. Para ele estava claro que a questão era fundamental, mas seria difícil responder a tão indouto livro de douto autor. Lutero sabe, porém, que não poderá esquivar-se de resposta. Amigos instam-no para tanto. As primeiras reações de Lutero apareceram no prefácio à tradução do Eclesiastes, na sua opinião um escrito contra o livre-arbítrio. Em pregação de 9 de outubro de 1524, descreve a impotência do ser humano aprisionado pelo diabo: “Tu és cavalo, o diabo te cavalga.” Só Cristo pode libertar do poder do diabo. Em carta a Espalatino, de 1º de novembro de 1524, confessa que, enojado, não conseguira ler mais do que duas páginas do livro de Erasmo. A resposta , porém, a ser dada a Erasmo, tem que esperar, por várias razões, por exemplo a Guerra dos Camponeses e o próprio casamento de Lutero com Catarina de Bora. Mas por fim foi a pedido de sua esposa que vai, finalmente, elaborar a resposta a Erasmo, O texto é publicado em 31 de Dezembro de 1525.

Em muitos sentidos, porém, a discussão entre Lutero e Erasmo não passou de episódio, pois não provocou o debate das massas, mas colocou-o no centro da discussão da intelectualidade. Essa discussão não foi concluída. Em seu centro está a concepção humanista e reformatória do ser humano.

I. Lutero mostra o que a Bíblia ensina sobre o livre-arbítrio

Romanos 1:18 “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça

Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça.” Se todos os homens possuem “livre-arbítrio”, ao mesmo tempo em que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se dai que o “livre-arbítrio” os está conduzindo a uma única direção — da “impiedade e da iniqüidade”. Por¬tanto, em que o poder do ‘”1ivre-arbítrio” os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o “livre-arbítrio”, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus. Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não se¬guir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, “contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a entender que algumas pessoas não “detêm a verdade pela injustiça”. Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia a impiedade de todos os homens. Além do mais, notemos o que Paulo escreveu ime¬diatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se pára Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis di¬vinas em seus mínimos detalhes, mas isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus.

Lutero mostra com base nesse versículo que quanto mais o “livre-arbítrio” se esforça, tanto piores tornam-se as coisas, e que ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-se a eles, e que se fosse possível ao “livre-arbítrio” dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! E que nem os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1:21; 2:23,28,29) não conseguiram aproxima-los nem um pouco sequer da fé em Cristo.

Postado por Elias Lima

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Spurgeon e Seu Pensamento sobre Israel e a Igreja

Embora o príncipe dos pregadores tenha afirmado que era um calvinista, porque acreditava que João Calvino fora coerente com as doutrinas bíblicas, Ele, no entanto, não seguia tudo aquilo que o grande reformador e a maioria dos calvinistas históricos acreditavam, isto é, no que tange a Escatologia. Isto fica evidente, através de uma leitura nos escritos e nos sermões de Spurgeon, os quais demonstram claramente que ele era um pré-milenista histórico. O herdeiro dos puritanos, diferente daqueles (os puritanos), acreditava que o Senhor Jesus Cristo inaugurará a era do milênio com o Seu advento, o qual também reinará pessoalmente com os Seus santos sobre a terra durante aquele período. Acreditava também que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos, porém, não simultaneamente, mas sim, separadas, primeiro a dos justos, antes do milênio e depois a dos injustos, após os mil anos.[1]

Na história da Igreja pode-se perceber que os maiores teólogos da igreja, tais como: Agostinho, Lutero e Calvino, não eram pré-milenistas, e sim, amilenistas. Santo Agostinho, de quem Spurgeon acreditava ter Calvino aprendido as doutrinas bíblicas, é comumente aceito como aquele que silenciou o pré-milenismo e passou a defender uma interpretação amilenista do capítulo 20 de Apocalipse, ou seja, interpretou os mil anos como a era da Igreja.[2] O próprio Calvino foi completamente contra qualquer conceito de um reino terreno de Cristo de mil anos literais:



Mas um pouco adiante seguiam os chiliasts, que limitavam o reino de Cristo a mil anos. Agora sua ficção é ingênua demais para necessitar ou valer a pena uma refutação. E o Apocalipse, do qual eles indubitavelmente tiraram um pretexto para seu erro, não os apóia, pois o número “mil” não se aplica à bem-aventurança eterna da igreja, mas somente às várias turbações que esperavam a igreja, enquanto ainda trabalhando na terra. Pelo contrário, as Escrituras proclamam que não haverá fim nem para a felicidade do eleito, nem para a punição do ímpio (Mt. 25:41, 46).[3]


Esta visão está implícita nos credos históricos primitivos do Cristianismo. Ela foi sustentada pelos maiores teólogos da Igreja. Teólogos Reformados mais recentes também têm esposado esta visão: Abraham Kuyper, H. Bavinck, Louis Berkhof, Anthony A. Hoekema, Jay E. Adams, William Hendricksen dentre outros.[4] Além do mais, esta é a posição das Confissões Reformadas.


Porém, é bom ressaltar que Spurgeon, como pré-milenista histórico que era, não entendia uma separação entre Israel e igreja, como os pré-milenistas modernos vêem hoje. Isto fica bem claro em um de seus sermões pregados em Hebreus 13:8, cujo título é Jesus Christ Immutable (Jesus Cristo Imutável). Veja o que ele diz:


Distinções foram feitas por certos homens excessivamente sábios (medidos pela estimativa de si mesmos), entre o povo de Deus que viveu antes da vinda de Cristo, e aqueles que viveram posteriormente. Temos até ouvido afirmações de que aqueles que viveram antes da vinda de Cristo, não pertencem à igreja de Deus! Nós nunca sabemos o que vamos ouvir depois, e talvez seja uma mercê que estas absurdidades são reveladas de cada vez, a fim de que sejamos capazes de aturar a sua estupidez sem morrer de admiração. Cada filho de Deus em todo lugar está no mesmo patamar; o Senhor não tem alguns filhos que ama mais, alguns que são da geração de segundo grau, e outros que Ele dificilmente cuida. Estes que viram o dia de Cristo antes que o mesmo chegasse, tinham uma grande diferença quanto àquilo que eles sabiam, e talvez na mesma medida uma diferença quanto àquilo que desfrutavam enquanto na terra em sua meditação sobre Cristo; mas eles todos foram lavados no mesmo sangue, todos redimidos com o mesmo preço de resgate, e feitos membros do mesmo corpo. Israel no pacto da graça não é o Israel natural, mas todos os crentes de todas as eras. [5]




[1] C.H. Spurgeon, The Saint & His Savior, p. 154. V. tb. C. H. Spurgeon, The Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 10, p. 350; vol. 11, p. 307; vol. 36, p. 317; vol. 39, p. 169; vol. 50, p. 169; vol. 56, p. 39; C. H. Spurgeon, The Treasury Of David, vol. 3, p. 903.


[2] Martyn Lloyd-Jones. Grandes Doutrinas Bíblicas, p. 248. A passagem chave sobre o Milênio defendida por Santo Agostinho, pode ser encontrada em: AGOSTINHO, The City of God. In: Schaff (ed). Augustine: City of God, Christian Doctrine [Agostinho: A cidade de Deus, A doutrina cristã]. The Nicene and Post-Nicene Fathers, vol. 2. Book 20, chapters 6-10.


[3] John Calvin. Institutes of the Christian Religion, vol. 3, cap. 25, p. 488.


[4] R. C. Sproul. Os Últimos dias Segundo Jesus, p. 163.


[5] C.H. Spurgeon, The Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 15, p. 11.

Postado por Elias Lima