segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Cordeiro de Deus

Você sabe de qual grande data cristã estamos nos aproximando? Da Páscoa. E quando falamos em Páscoa, as pessoas pensam logo em coelhinho e ovo de chocolate. Mas qual é o símbolo mais fiel desta festa celebrada por milhões de pessoas? João Batista nos dá uma pista.
“No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” João 1:29

O símbolo mais fiel é o cordeiro, que é Jesus Cristo.
Quando João chamou Jesus de Cordeiro, as pessoas de sua época entendiam muito bem o que ele estava falando, pois os sacerdotes judeus sacrificavam dois cordeiros diariamente, um pela manhã e outro ao pôr-do-sol (Êxodo 29:38). Aqueles cordeiros eram sacrificados pelos pecados do povo. E tudo aquilo começou quando Deus tirou o povo de Israel da escravidão do Egito (Ex. 12:1-24).

Portanto, quando João Batista chamou Jesus de Cordeiro de Deus, ele estava mostrando que primeira páscoa era um anúncio da libertação espiritual. No Egito, o povo foi libertado da opressão social, mas em Cristo a libertação é do pecado. É o cordeiro que tira, que remove o pecado do mundo.
Para remover pecados, o cordeiro teve que ser morto, assim como foi o cordeiro pascal. E as Escrituras já anunciavam isto (Isaías 53:4-7; Hebreus 9:12-22).

Esta foi a missão de Jesus na sua primeira vinda. E ele fez isto primeiro porque compreendia a seriedade do pecado. O maior problema do homem não é a violência, como muitos pensam. O pecado é o problema mais sério do homem. Jesus alimentou multidões, deu vista aos cegos, fez paralíticos andar, ressuscitou mortos e fez muitos outros milagres, mas isto não foi sua principal missão. Se fosse, sua morte teria sido uma tragédia para Ele mesmo, pois vivo Ele seria “mais útil”. A missão de Jesus em sua primeira vinda foi anunciar o arrependimento de pecados (“O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.” (Marcos 1:15)). Para assegurar o perdão ao pecador arrependido, o Cordeiro de Deus morreu na cruz do Calvário. Se Jesus for apenas um curandeiro, padeiro, banqueiro e psicólogo para você, então você ainda está perdido, pois Ele veio para conduzir pecadores arrependidos para o Reino de Deus. Saiba que seu maior problema não é financeiro, nem físico, mas espiritual. Jesus mesmo disse: “O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt.16:26).

A missão de Jesus foi morrer na cruz por pecadores, e Ele cumpriu aquela missão não só por causa da seriedade do pecado, mas também porque o sangue de um animal não podia salvar o homem. A Bíblia diz que é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados (Hebreus 10:4). Quem pecou contra Deus foi o homem. Somente um homem perfeito, sem pecados podia morrer para removê-los. E só Jesus viveu sem pecado (Hebreus 9:14). Ele é o único Mediador entre Deus e os homens. Assim como o sangue de animais não podia remover os pecados dos judeus, hoje por nenhum outro meio ou pessoa podemos ser perdoados por Deus. Jesus é o único. Ele é O Cordeiro, o único que tira pecados. Você crer nisto? Então abandone qualquer outra tentativa de ser salvo?

Parece algo muito simples não é? Sim é simples mesmo. O mais difícil Cristo fez na cruz. Agora esta simplicidade exige de você uma resposta. Crer e agir. A nossa crença em algo se revela pelas nossas atitudes. Quando Deus disse a Moisés que o povo deveria sacrificar um cordeiro e passar o sangue do mesmo nas vigas das portas das casas, cabia ao povo mostrar a sua crença na palavra de Deus, sacrificando o cordeiro.

Hoje nenhum cordeiro precisa ser sacrificado. Jesus, o Cordeiro de Deus, já foi sacrificado na cruz. O que você vai fazer com este Cordeiro?

Postado por José Roberto

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os significados de Amor na Bíblia (Parte 2)

O amor do Homem para com Deus

Outro modo de descrever a posição que uma pessoa deve assumir para receber a plenitude da ajuda amável de Deus consiste em que a pessoa deve amar a Deus. “O SENHOR guarda a todos os que o amam; porém os ímpios serão exterminados.” (Salmos 145:20). “Mas regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome.” (Salmos 5:11;cf. Is 56:6, 7; Salmos 69:36). “Volta-te para mim e tem piedade de mim, segundo costumas fazer aos que amam o teu nome.” (Salmos 119:132).

Esses textos são simplesmente uma defesa na vida das estipulações postas na Aliança Mosaica (a aliança Abraãmica teve as suas condições também, embora o amor não seja mencionado explicitamente: Gên 18:19; 22:16-18; 26:5). Deus disse a Moisés: “e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.”(Êx 20:6; Dt 5:10; Ne 1:5; Dn 9:4). Uma vez que o amável Deus foi o primeiro e a garantia da promessa da aliança, Ele se tornou o primeiro e o grande mandamento na lei: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.”(Dt 6:5).

Este amor não é um serviço feito para Deus ganhar os seus benefícios. Isto é inimaginável: “Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno” (Deuteronômio 10:17). Isto não é um trabalho feito para Deus, mas pelo contrário, uma aceitação feliz e admiradora do Seu compromisso de trabalhar para aqueles que confiam nele (Sl 37:5; Is 64:4). Desta forma a Lei Mosaica começa com a declaração que mantém a grande promessa a Israel: “Eu Sou o Senhor vosso Deus que vos tirou da terra do Egito” (Ex 20:2). A ordem de amar a Deus é uma ordem de deleitar-se com Ele e admirá-Lo antes de mais nada e ser contente com o Seu compromisso de trabalhar poderosamente para a sua gente. Assim, diferentemente do amor de Deus por Israel, o amor de Israel para com Deus foi uma resposta ao que Ele tinha feito e faria a favor deles (cf. Dt 10:20-11:1). O caráter de resposta do amor do homem para com Deus é visto também em Js 23:11 e Sl 116:1. Nas suas expressões mais perfeitas, ele se tornou a paixão de toda a consumação da vida (Sl 73:21-26).

O Amor do homem para com o homem

Se uma pessoa admira e adora a Deus e encontra o cumprimento tomando refúgio no seu cuidado compassivo, então o seu comportamento para com seu próximo refletirá o amor de Deus. O segundo grande mandamento do Antigo Testamento, como Jesus o chamou (Mt 22:39), vem de Levítico 19:18, “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR.” O termo “próximo” aqui, provavelmente quer dizer outro israelita. Mas em Levítico 19:34, Deus diz: “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.”

Podemos entender a motivação do amor aqui, se citarmos uma passagem paralela em Deuteronômio 10:18, 19, "que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes. Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito." Esta é uma passagem paralela a Levítico 19:34, porque tanto se refere a permanência de Israel no Egito como ao mandamento de amar ao próximo. Mas, o mais importante, as palavras "Eu sou o Senhor o seu Deus" em Levítico 19:34, são colocadas em Deuteronômio 10:12-22, como uma descrição do amor, justiça e feitos poderosos de Deus por Israel. Os Israelitas deveriam mostrar o mesmo amor ao próximo, da mesma forma que Deus mostrou para com eles. Levítico 19 também começa com um mandamento: “Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou santo”. Depois a frase: “Eu sou o Senhor” é repetida quinze vezes no capitulo 19 depois de ordens individuais. Assim, a intenção do capitulo é dá um exemplo especifico de como ser santo como Deus é santo. Visto no vasto contexto de Deuteronômio 10:12-22, isto significa que o amor de uma pessoa pelo seu próximo deve provir do amor de Deus e assim refletir Seu caráter.

Devemos notar que o amor ordenado aqui, diz respeito tanto aos atos externos quanto as atitudes internas. “Não aborrecerás teu irmão no teu íntimo” (Lv 19:17). “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo” (Lev 19:18). E amar teu próximo como a ti mesmo, não significa ter uma auto-imagem positiva ou a alta auto-estima. Significa usar o mesmo zelo, a inventividade e a perseverança para procurar a felicidade do seu próximo da mesma forma que você procura a sua própria. Para outros textos sobre o amor próprio veja: Pv 19:8; 1 Sm 18:1, 20:17.

Se o amor entre os homens é para refletir o amor de Deus, ele terá que incluir o amor aos inimigos, pelo menos em algum grau. Pois o amor de Deus por Israel era livre, imerecido e tardio para se irar, perdoando muitos pecados que criaram inimizade entre Ele e Seu povo (Êx 34:6, 7). E Sua misericórdia se estende além das frontearas de Israel (Ge 12:2, 3; 18:18; Jonas 4:2). Portanto, encontramos instruções para amar o inimigo. “Se encontrares desgarrado o boi do teu inimigo ou o seu jumento, lho reconduzirás. Se vires prostrado debaixo da sua carga o jumento daquele que te aborrece, não o abandonarás, mas ajudá-lo-ás a erguê-lo.”(Ex 23:4, 5). “Quando cair o teu inimigo, não te alegres” (Pv 24:17). “Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer” (Pv 25:21). Veja também Pv 24:29; 1 Rs 3:10; Jo 31:29, 30; 2 Rs 6:21-23.

Mas este amor pelo inimigo deve ser qualificado de duas maneiras: primeiro, no Antigo Testamento a maneira com que Deus trabalhava no mundo tinha uma dimensão política que não se tem hoje. Seu povo era uma étnica distinta e um grupo político e Deus era seu legislador, seu rei e seu guerreiro de uma forma bem direta. Assim, por exemplo, quando Deus decidia punir os Cananitas por sua idolatria, Ele usava Seu povo para expulsá-los (Det 20:18). Este ato realizado por Israel não pode ser chamado de amor por seus inimigos (Cf. Dt 7:1,2; 25:17-19; Ex 34:12). Devemos entender de tais atos como exemplos especiais na história da redenção, em que Deus usa Seu povo para executar Sua vingança (Dt 32:35;Js 23:10) sobre uma nação iníqua. Tais exemplos não deveriam ser usados hoje para justificarem a defesa própria ou as guerras santas, uma vez que os propósitos de Deus no mundo hoje não são cumpridos através de um grupo étnico político como foi Israel no Antigo Testamento.

A segunda qualificação do amor inimigo é requerida pelos salmos, nos quais o salmista declara o seu ódio por homens que desafiam Deus, “Tomara, ó Deus, desses cabo do perverso; apartai-vos, pois, de mim, homens de sangue. Eles se rebelam insidiosamente contra ti e como teus inimigos falam malícia. Não aborreço eu, SENHOR, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato.” (Sl 139:19-22) O ódio do salmista é baseado no seu desafio contra Deus e é concebido como alinhamento virtuoso com o próprio ódio de Deus por malfeitores (Sl 5:4-6; 11:5; 31:6; Pv 3:32; 6:16; Os 9:15). Mas tão estranho como pode parecer, este ódio não necessariamente resulta na vingança. O salmista deixa isto nas mãos de Deus e até trata esses odiados amavelmente. Isto é visto em Sl 109:4, 5 e 35:1, 12-14.

Pode haver duas maneiras que justifica este ódio. De um lado, poderia às vezes representar uma forte aversão para com a má vontade que procura a destruição de pessoa. Doutro lado, onde há uma vontade para a expressa destruição, ela pode representar a certeza dada por Deus de que a pessoa mal está além do arrependimento sem esperança de salvação e portanto debaixo da justa sentença de Deus expressada pelo Salmista (compare 1 João 5:16).

Além dessas dimensões mais religiosas do amor, o Antigo Testamento é rico com ilustrações e instruções do amor entre pai e filho (Ge 22:2; 37:3; Pv 13:24), mãe e filho (Ge 25:28), esposa e marido (Jz 14:16; Ec 9:9; Ge 24:67; 29:18, 30, 32; Pv 5:19), amantes (1 Sm 18:20; 2 Sm 13:1), escravos e senhores (Ex 21:5; Dt 15:16), o rei e seus sujeitos (1 Sm 18:22), um povo e seu herói (1 Sm 18:28), amigos (1 Sm 18:1; 20:17; Pv 17:17; 27:6), nora e sogra (Rt 4:15). Especialmente digno de ser notado está o livro de Cantares, que manifestar o prazer sadio no cumprimento sexual do amor entre um homem e uma mulher.

O Amor do homem para com as coisas

Há alguns exemplos no Velho Testamento do amor simples, diário de coisas: Isaac amou certa carne (Gê 27:4); Uzias amou o solo (2 Crôn 26:10); muitos amam a vida (Sl 34:12). Mas normalmente quando o amor não é dirigido em direção a pessoas é dirigido a virtudes ou vícios. Em sua maioria, este tipo de amor é simplesmente um fruto inevitável do amor de alguém por Deus ou rebelião contra o Deus.

Do lado positive, há amor pelos mandamentos de Deus (Sl 112:1; 119:35, 47), Sua lei (Sl 119:97), Sua vontade (Sl 119:140) e Sua Salvação (Sl 40:16). Os homens tem que amar o bem e odiar o mal (Am 5:15), amar a verdade e a paz (Zac 8:19) amar a misericórdia (Mq 6:8) e a sabedoria (Pv 4:6). Do lado negativo, nós encontramos pessoas amando o mal (Mq 3:2), a mentira e a falsa profecia (Sl 4:2; 52:3, 4; Zc 8:17; Jr 5:31; 14:10), os ídolos (Os 9:1, 10; Jr 2:25), a opressão (Os 12:7), a maldição (Sl 109:17), a preguisa (Pv 20:13), a loucura (Pv 1:22), a violência (Sl 11:5) e o suborno (Is 1:23). Em resumo, muitas pessoas "amam a sua vergonha mais do que a sua honra” (Os 4:17), que é o mesmo quanto amar a morte (Pv 8:36). A soma da matéria é que a satisfação não deve ser tida na colocação de afetos de alguém sobre qualquer coisa senão a Deus (Cf Ec 5:10; 12:13).

Daqui a algumas semanas postaremos a terceira parte, deste artigo de John Piper, que falará do Amor no Novo Testamento.

Tradução: Elias Lima

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O DESAFIO DA PREGAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE (Parte 3)

A perda de uma fundamentação Bíblica

Lamentavelmente podemos perceber em nossos dias uma crescente tendência no meio evangélico em querer focalizar no púlpito aquilo que é relevante, conseqüência, é claro, de uma não leitura das Sagradas Escrituras. Muitas das pregações que ouvimos hoje dão mais importância a psicologia, que desde a década de oitenta vem entrando na igreja como o novo paradigma de santificação; ao comentário social e a retórica política. A pregação da palavra de Deus fica em segundo plano, porque segundo eles a psicologia, por exemplo, é necessária para ajudar as pessoas com seus problemas e a crescerem espiritualmente. Mas tais pessoas esquecem que o Espírito Santo não precisou da psicologia no passado, e também não precisa hoje no presente. Isso porque o Espírito Santo foi e é capaz de cumprir a obra de Deus antes que Sigmund Freud, que foi um ateísta, ter inventado a psicologia. O único paradigma para a santificação é a palavra de Deus, como a mesma diz: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação.”(1 Coríntios 1:21).

Não se pode negar que a perda de uma fundamentação bíblica é não somente o motivo primário do declínio da pregação na igreja contemporânea, como também o principal fator que contribui para a debilidade e mundanismo na igreja, e isto pelo fator que, para a igreja contemporânea, a pregação da palavra não é relevante. Creio que MacArthur foi muito feliz, quando no seu livro redescobrindo o ministério pastoral, citou Jay E. Adams, que fala sobre o assunto como segue:

“O problema de tal abordagem na pregação é que os pregadores de hoje não têm autoridade para pregar suas próprias noções e opiniões; eles devem ‘pregar a palavra’ apostólica registrada nas Escrituras. Sempre que os pregadores se afastam do propósito do trecho bíblico, perdem sua autoridade para pregar. Em suma, o propósito de ler, explicar e aplicar um trecho das Escrituras é obedecer à ordem de ‘pregar a palavra’. De nenhuma outra maneira podemos esperar vivenciar a presença e o poder do Espírito Santo em nossa pregação. Ele não gastou milhares de anos produzindo o Antigo e o Novo Testamento (em certo sentido, a Bíblia é peculiarmente Seu livro) para depois ignorá-lo! Aquilo que Ele ‘inspirou’ os homens a escrever, agora nos motiva a pregar. Ele não prometeu abençoar nossas palavras; tal promessa estende-se apenas à Sua própria palavra (Is. 55:10-11 ‘Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.’) Uma vez que... não há pregação genuína onde o Espírito de Deus não esteja atuando, podemos dizer que o propósito fundamental da pregação baseada na Bíblia é simplesmente que, em qualquer sentido genuíno da palavra, possamos pregá-la!”

Acredito que os lideres, das assim chamadas igrejas contemporâneas, deveriam olhar para a história da igreja, principalmente nos Atos dos Apóstolos, e notar que no período apostólico, a ênfase e fundamentação que eles davam a pregação era a pregação da Palavra. Apesar de ter na igreja primitiva muitos problemas como: perseguições externas, necessidades dos santos no que diz respeito ao alimento aos necessitados e viúvas e etc; eles, sem dúvida nenhuma, sabiam que estas coisas eram relevantes, embora também um problema social e talvez em parte político, mas de certa forma competiria à igreja cristã, e aos seus líderes em particular, cuidar daquela premente necessidade. Só que eles não trocavam a pregação da Palavra por um comentário social ou uma retórica política. E isso por que? Paulo nos responde em sua primeira carta a Timóteo, no verso quinze do capítulo três, quando diz que a casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, é a coluna e baluarte da verdade. Desta feita, gostaria de endossar as palavra do Dr. Martyn Lloyd-Jones, o qual diz em seu livro pregação e pregadores, que a Igreja não é uma organização ou instituição social, não é uma sociedade política, não é uma sociedade cultural, mas é “coluna e baluarte da verdade”.

O doutor Lucas que escreveu Atos dos Apóstolos, inspirado por Deus, nos relata no versículo quatro do capítulo oito, que os discípulos que foram dispersos, por causa da perseguição que se fazia à igreja, iam por toda parte pregando a palavra. É interessante nós atentarmos para o que o apóstolo Paulo, em sua segunda epístola, no quarto capítulo e nos primeiros quatro versículos, disse a seu filho na fé Timóteo.

“Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.”

Quando o apóstolo Paulo ordena que Timóteo pregue a palavra, insta quer fosse oportuna, quer não. Ele usa a palavra khruxon “proclamar, pregar”, a idéia aqui, como bem colocou Fritz Rienecker, em sua chave lingüística do Novo Testamento grego, é de estar à mão, estar pronto. A palavra também era usada em sentido militar: estar a postos, mas aqui significa “estar no trabalho”, ou seja, o ministro cristão deve sempre estar trabalhando na proclamação da palavra, quer seja oportuno (no tempo certo, convenientemente), quer não (fora do tempo). Resumindo, Paulo queria que a palavra fosse pregada todo o tempo, pois não chegará uma época, antes da volta de Cristo, quando nós mudaremos esta comissão, nenhum tempo quando esse método de ministério será posto aparte por qualquer um outro. A pregação da Palavra deve ser feita todo o tempo.

As pessoas hoje estão famintas pela palavra de Deus, mas a questão é que elas não sabem isso. Elas estão procurando saciar esta fome, pois entendem que há um vazio em suas vidas, um lugar para ser preenchido, uma falta de entendimento. Elas, porém, não podem resolver os problemas e dilemas da vida. Elas estão famintas pela palavra de Deus, mas não o sabem e lhes estar sendo oferecido uma porção de substitutos que não ajudam. Deus tem ordenado que sua palavra seja trazida a elas, pois só Sua palavra pode alimentá-las e o método para que ela seja entregue é através da pregação. Mas, como disse o apóstolo são Paulo: “como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm. 10:14).

Nossa incumbência não vem da cultura, ela vem do céu. O Deus do céu é quem nos tem incumbido, através das páginas das Sagradas Escrituras, para pregar a Palavra, para pregar cada palavra e trazer as almas famintas a única comida que alimenta, e esta é a palavra da Verdade de Deus, a qual nunca sai de moda, ela é atual todas as manhãs. Como o nosso Senhor Jesus mesmo disse: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão.”(Marcos 13:31).

Li certa vez um artigo muito interessante na Internet. Era acerca de um jovem pastor que tinha acabado de sair do seminário e tinha sido convidado para pastorear uma igreja, numa cidade com várias universidades, nos Estados Unidos. Muitos dos membros dessa igreja eram professores nessas universidades. Ele estava preparando a sua primeira pregação, e ele estava pensando sobre aquela congregação bastante culta, todos aqueles Ph.D.s que estariam lá, e isso o intimidava muito. Então ele chamou seu pai, que era também um pastor muito sábio e piedoso, e lhe disse: “Pai, estou realmente tendo trabalho para preparar minha pregação.” “Qual o problema?” seu pai perguntou. “Bem, se eu falar sobre geologia, eu ficarei olhando para o Ph.D. em geologia. Se eu falar sobre sociologia, ficarei prestando atenção para o Ph.D em sociologia. Se falar sobre filosofia, encararei um Ph.D. em filosofia. O que você acha que eu devo fazer?” Seu pai respondeu: “Filho, porque você não prega apenas a Bíblia? Eles provavelmente sabem muito pouco sobre ela.”

Isto é uma boa ilustração dos nossos dias atuais, pastores querendo pregar sobre assuntos que não tem nenhuma fundamentação bíblica. Eles estão preocupados em impressionar os seus ouvintes com sua própria sabedoria, mas creio que se cada pastor e pregador acreditasse em 1 Coríntios 1:21, que diz: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação.” (e a pregação aqui é a pregação da Palavra) - Não estariam perdendo o seu tempo em pregar aquilo que eles não foram chamados a pregar.


Postado por Elias Lima

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A Igreja de Cristo defende a doutrina correta

Nos últimos tempos o movimento evangélico tem crescido consideravelmente. O que muitos não percebem é que a grande parte das igrejas fundadas não dá nenhuma importância à doutrina correta nem à sua defesa. Chegam até a dizer que falar de doutrina espanta os visitantes. Mas não foi assim nos primórdios do cristianismo. Na epístola de Judas encontramos três razões porque a Igreja de Cristo precisa defender a doutrina correta.

A igreja de Cristo precisa defender a doutrina correta porque é sua responsabilidade (Judas 3-4).

Fé cristã como corpo de doutrinas. O termo “entregue” era usado para referir-se à transmissão da tradição autorizada em Israel (paradídome 1Co.11:23; 15:3- “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras.”). E aqui o verbo refere-se à tradição apostólica cristã que era normativa para o povo de Deus. A mesma doutrina dos apóstolos. Portanto, podemos dizer que Deus usou os apóstolos para entregar para seu povo, de uma vez por todas, um corpo reconhecível de doutrinas, e que devemos estar dispostos a batalhar pelas mesmas. A igreja primitiva perseverava na doutrina dos apóstolos ( Atos. 2:42).

O termo batalhar ( epagonizethai) é bastante forte. Paulo o emprega para a privação de algo, a dificuldade custosa para edificar cristãos maduros, para defender a fé e para a luta inteira da vida cristã. (Combate o bom combate da fé- 1Tm 6:12; Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé- 2Tm 4:7). Isto significa que a responsabilidade da igreja não é nada fácil. Ela está num campo de guerra. Se ela não defender a doutrina cristã, ficará a mercê dos falsos mestres. Esta luta deve ser diligentemente, ou seja, uma luta zeloso.

A igreja é coluna e baluarte da verdade, diz o apóstolo Paulo. (1Tm. 3:15). Como baluarte (fortaleza inexpugnável), a igreja deve proteger seus ensinos contra as heresias. Como coluna, ela deve sustentar, preservar a verdade recebida pela revelação de Jesus Cristo e ensino dos apóstolos.

A igreja que não atenta para a sua responsabilidade de defender as doutrinas cristãs está sujeita a seguir qualquer moda teológica, ou mesmo uma heresia.

A Igreja de Cristo precisa defender doutrina correta porque é uma necessidade ( Judas 3-4)

Judas tinha tencionado escrever um tratado doutrinário, mas a infiltração de falsos mestres no seio da igreja o compelira a alterar a natureza de sua epístola para uma exortação a que os cristãos lutassem vigorosamente em defesa da doutrina cristã. A necessidade levou o escritor a escrever uma carta repentina e curta. Ele não podia perder mais tempo, pois algumas pessoas tinham se introduzido na igreja secretamente com o propósito de desviar os santos da verdade (vs.4). Paulo diz que estes falsos mestres penetram sorrateiramente (2Tm. 3:6). Despedindo-se de presbíteros em Mileto, ele disse que, depois de sua partida, lobos vorazes iriam penetrar na igreja, e até de dentro da igreja iam se levantam alguns homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. (Atos 20:20).

É sempre mais sério quando o perigo vem de dentro da igreja. Mas isto não nos causa surpresa, pois desde o Antigo Testamento até os apóstolos, encontramos advertência contra falsos mestres. Sempre haverá aqueles no redil que não passaram pela porta, mas que entraram por outro caminho; e sempre serão uma ameaça às ovelhas ( João 10:1).

Portanto, a necessidade de defender a fé cristã dar-se pela quantidade de ataques contra a verdade cristã e pelas heresias que surgem em seu próprio meio. E esta necessidade sempre houve e haverá. A história não nos deixa mentir. Paulo lutou contra o asceticismo dos judaizantes e a libertinagem do gnósticos; o apóstolo João contra o gnosticismo( docetismo); os Pais da igreja, entre eles o polemistas Irineu que escreveu “Contra as heresias”, para combater o gnosticismo dos seus dias; Tertuliano de Cartago, defensor da divindade e humanidade de Jesus; Santo Agostinho que, em seu livro “Confissões”, defendeu a criação ex-nihilo de Deus. Sem dúvidas nos falta tempo e espaço para falar de Atenágoras, Aristo, Taciano, Teófilo de Antioquia, Arnóbio, Lactâncio, Eusébio de Cesaréia, Atanásio e muitos outros. Homens que não permitiram que a ortodoxia cristã fosse suplantada pelos ataques do paganismo nem pelas heresias que surgiram dentro da própria igreja.

Avançando para a Idade Média, chegamos a homens como Lutero que defendeu a justificação pela fé; João Calvino sistematizou a tão preciosa doutrina da Eleição.

Ao chegarmos ao final do séc. XVIII, nos deparamos com o liberalismo teológico. Homens que se julgavam salvadores do Cristianismo queriam adaptar o mesmo às novas filosofias da época. Negaram o sobrenatural, a transcendência de Deus, distorceram o conceito bíblico de pecado e a Bíblia deveria ser estudada como qualquer outro livro. Mas Deus usou homens como Charles Spurgeon e John G. Machen para defender os fundamentos da fé cristã.

Será que hoje ainda há necessidade de defender a fé cristã? Claro que sim. Há muitas seitas negando a divindade de Jesus. Outras pregando salvação pelas obras. A teologia da prosperidade está na TV ludibriando milhares de pessoas. E tantas outras.

Quando Paulo exortou Timóteo a pregar a todo tempo, deu uma razão forte para aquele jovem pastor: A EXISTÊNCIA DE UM TEMPO QUANDO AS PESSOAS NÃO SUPORTARIAM A SÃ DOUTRINA. E por que não suportariam? Porque as pessoas estariam cercadas de mestres ensinando heresias. ( 2Tm 4:2-4). Hoje os meios de comunicação estão cada vez mais desenvolvidos, de modo que pregadores estão destilando suas falsas doutrinas rapidamente. A igreja precisa estar alerta para isto.

A igreja de Cristo precisa defender a doutrina correta porque a doutrina determina as práticas e costumes de uma igreja (Judas 4).

Neste instante, Judas denuncia a doutrina dos falsos mestres. Eles transformam a graça de Deus em libertinagem. Ele está lidando com um grupo de pessoas que havia deturpado a doutrina da graça. “Se já somos salvos pela graça, então podemos viver de qualquer jeito.” A visão errada da graça os levou a uma vida dissoluta, licenciosa (8,16-19).

Paulo argumentando a favor da ressurreição de Cristo ( 1Co.15:32). “... Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos.” A crença na ressurreição ou não influencia o modo de vida.

A igreja de Tiatira (Ap.2:20). A doutrina de Jezabel. Uma mulher que estava na igreja seduzindo os irmãos a praticarem a prostituição e comerem coisas sacrificadas aos ídolos.
A nossa doutrina determina nossos costumes e práticas.

A crença na Soberania de Deus em salvar o pecador nos livra de usar técnicas mundanas para atrair o pecador. O apelo às técnicas mundanas para atrair pessoas para o culto como peças teatrais, danças e cultos divertidos é um indicador de não crença na suficiência das Escrituras. Podem até dizer que a Bíblia é inspirada e inerrante, mas a não submissão a seus ensinos elimina sua suficiência.

O que dizer do evangelho dos demônios? Em uma chamada sessão do descarrego, o “pregador” emprega maior parte do tempo brincando de exorcizar demônios.

O comércio de relíquias- “Venha adquirir um frasco de água do Rio Jordão”, “Não deixe de ser ungido pelo santo”, anuncia o pregador que mais parece um vendedor ambulante.
O culto já não é mais teocêntrico, mas antropocêntrico. Aquilo que agrada o ouvinte deve ser feito e dito. Uma vida de frouxidão e permissividade é tolerável. A disciplina eclesiástica passa longe de ser aplicada.

CONCLUSÃO: A igreja de Cristo defende a doutrina correta. Primeiro porque é sua responsabilidade. Segundo, porque é uma necessidade. Terceiro, a igreja fundamentalista defende a fé cristã porque a doutrina determina nossas práticas e costumes. A sua igreja também é a de Cristo?

Postado por José Roberto

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Pessoas são importantes que coisas.

Pessoas são mais importantes que coisas – Jonas 4

Há um velho ditado que fala das coisas importantes da vida. As coisas secundárias podem passar desde que as primárias permaneçam: “vão-se os anéis, ficam os dedos”.
Deus nos ensina essa verdade através da vida do profeta Jonas: devemos amar as pessoas acima das coisas. A vida humana é mais valiosa que o mundo inteiro. Na história de Jonas Deus usa todos os meios para alcançar as pessoas, o objeto do seu amor: ele quase destrói um navio e suas bagagens para converter o coração de marinheiros pagãos; ele cria e usa um grande peixe para converter um profeta fujão de seus caminhos.
O profeta quer nos ensinar o contrário. Ele amou mais a pátria que os pecadores de Nínive. Não queria anunciar o evangelho porque não gostava deles. Deus o reprovou por isso e nos mostra que não devemos selecionar a quem fazemos o bem.
No encerramento do livro, Deus mostra novamente ao profeta quem é o objeto do seu amor: as pessoas, não importando nacionalidade ou outra diferença.

O descontentamento de Jonas com Deus – v. 1-3.

Jonas ficou irritado porque Deus não castigaria os seus inimigos. A palavra “desgostou-se” significa “ver como algo mau”. Jonas considerou a obra salvadora de Deus como um erro. Jonas ficou “irado” que literalmente quer dizer “ferver”. Jonas queria ver a destruição da cidade, a sua palavra tinha sido penhorada.
Jonas orou pela destruição de Nínive; da ultima vez ele estava humilhado na barriga de um grande peixe. Agora, o profeta tinha esquecido como é bom receber a misericórdia de Deus.
Apesar de tudo, Jonas tinha uma teologia correta: Êxodo 34: 6-7. Deus é misericordioso, i.e. Deus mostra generosidade, bondade àqueles que não merecem; Deus é clemente, ou seja, Deus mostra compaixão e perdão àqueles que estão em necessidade; Deus é tardio em irar-se, i.e. paciente, Deus nem sempre executa imediatamente o castigo merecido, mas dá tempo para o arrependimento; Deus é grande em misericórdia ou cheio de bondade, mostrando amor, bondade e piedade; Deus arrepende-se do mal, perdoa a maldade, i.e. capaz de julgar assim como de perdoar V 2b.
Mas, Jonas também tinha uma teologia errada: Deus não pode usar esses atributos com outro povo que não seja Israel. Para Jonas, Deus era injusto em punir Israel com o cativeiro e perdoar os ninivitas que eram mais pecadores que seu povo. Deus pode ser chantageado: “se o Senhor não vai destruí-los então me destrua, o mundo é pequeno demais para nós dois” V 3.

Deus não desiste do homem – v 4-6

Deus faz uma pergunta da qual ele já sabe a resposta – v 4. Ele fez isso com outros personagens: À Adão: onde estás? – Gn 3:9; À Caim: onde está teu irmão? – Gn 4:9; À Judas: Judas, com um beijo você está traindo o filho do homem? – Lc 22:48. Jonas foge novamente de Deus – v 5.
Ele saiu e fez uma enramada, ou um abrigo. Literalmente a palavra que Jonas usa é sucot, ou tabernáculo ou tenda, palhoça. O profeta está fazendo alusão a festa dos tabernáculos que era celebrada a cada ano, onde cada judeu deveria sair de suas casas e fazer cabanas para morar por 7 dias nelas, lembrando a libertação do seu povo e a peregrinação no deserto.
Jonas achava que Deus faria o mesmo que fez com Sodoma e Gomorra, ou no dilúvio, ou ainda com o Egito no mar vermelho, assim antecipou sua alegria (v 7) naquela destruição. Cf Dt 16:13-14; Neem 8: 15-17.
Deus usa uma planta para alegrar Jonas – v 6. Diz o texto que Jonas se alegrou ao extremo. A planta cresce de um dia para o outro a fim de o livrar do seu desconforto.

As coisas são passageiros, o homem é eterno – v 8-11

Deus enviou um verme para comer a planta. Isso lembra bem o que Jó reconhece: Deus dá, Deus tira. A ausência da planta fez com que o esconderijo de Jonas parecesse uma peneira. O vento quente e o sol escaldante fizeram o profeta desfalecer ou desmaiar.
Deus tira quando quer – v 7. Há pessoas que sacrificam o que realmente é importante pelos bens matérias, perecíveis, quando Jesus nos manda acumular tesouros nos céus – Mt 6: 19-21. Deus levará em conta, não o tanto de prédios que construímos, mas quantos pudemos abrigar; não levará em conta quão farta era nossa mesa, mas como dividimos nosso pão; não levará em conta quanta roupa tínhamos, mas quantos foram agasalhados por elas.
Deus confronta Jonas. O profeta teve uma compaixão mal-dirigida. O descontentamento de Jonas para com a planta foi maior do que com a não destruição da cidade v 8. Deus queria que Jonas raciocinasse: o que é mais importante uma planta nascida de um dia para o outro ou 120 mil (só crianças)? Jonas diria: a planta.
Nesse final sem uma conclusão específica (Jonas se deu conta do seu erro? Aprendeu a lição? Como viveram os novos convertidos?) a moral do livro salta aos nossos olhos: Deus ama os pecadores mesmo que sejam inimigos do seu povo, considera mais importantes do que navios carregados de grande valor ou a vontade nacionalista de um profeta apaixonado.

Pr. Francimar lima

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O caminho, a verdade e a vida.

Ao cometer o primeiro pecado, o homem saiu do caminho traçado por Deus. Isso significa que uma estrada asfaltada com o orgulho e a soberba humana começava a ser construída. Diz as escrituras que os homens ante diluvianos eram grandes pecadores “o meu espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal... viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração” (Gn 6.2, 5). Os homens pós diluvianos não eram melhores, pois Deus afirma: “não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio intimo do homem desde a sua mocidade” (Gn 8:21). A humanidade continuou audaciosa e soberba: “Vinde, edifiquemos para nós uma torre cujo tope seja o céu” (Gn 11:4). E assim continua a história da humanidade marcada por uma profunda incerteza do caminho certo.
O filosofo grego Protágoras disse “o homem é a medida de todas as coisas”. Em outras palavras as necessidades do homem estão em primeiro lugar. Assim sendo, o homem continuava sua viagem rumo ao desconhecido e incerto. O mundo moderno está afundado em guerras, fomes, desastres naturais, crises financeiras, mesmo assim alega está em pleno controle das nossas vidas.
No inicio do século passado a filosofia e a teologia deram as mãos para solucionar os problemas da humanidade e a conclusão a que chegaram era que o que faltava ao homem era educação ‘acadêmica’. Eles acharam que a religião deveria ser abolida, pois atrasava o progresso, deixava as pessoas presas a crenças que não podem ser explicadas: milagres. O homem moderno deve se livrar qualquer forma de barbárie. Um grande avanço foi dado para educar o homem; a ciência nunca foi tão longe na busca de novos conhecimentos: a invenção e aprimoramento do avião, armas, navios, a viagem para o espaço. Contudo, esse homem educado, fez as maiores guerras da história da humanidade.
Todos reconhecem o mau caminho do homem moderno, mas as propostas são todas falíveis, pois começam no homem e não em Deus. Quando o mundo procura um caminho Jesus se apresenta como O CAMINHO.

O problema humano de perder o caminho é viver uma mentira. A vida da maioria das pessoas não passa de uma ilusão. Casamentos em que o cônjuge trai, engana e mente, uma aparência; famílias onde os filhos não obedecem aos pais, os pais não amam os filhos, não respeitam os mais velhos; ‘felicidade momentânea’ é uma opção para os artificiais; igrejas minadas pela mentira produzem animação e entretenimento que anestesia as tristezas e necessidades espirituais do homem.
A mentira leva a pessoa para o inferno: “Vós sois do diabo, que é vosso pai e quereis satisfazer-lhes os desejos. Ele foi homicida desde o principio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é MENTIROSO e pai da MENTIRA” João 8:44. O grande conflito pelas nossas almas é entre a verdade e a mentira. Quem vai para o inferno é porque acreditou numa mentira, assim como quem vai para o céu é porque acreditou na verdade.
Quando o mundo procura criar suas verdades, Jesus se apresenta como A VERDADE.

Viver uma mentira produz morte. Não apenas morte física, mas também a morte física e emocional. Centenas e centenas de pessoas estão fisicamente vivas, aparentemente ativas, contudo estão emocionalmente mortas, i.e. perderam a razão de viver; algo muito traumático bloqueou tal pessoa impedindo de continuar a crescer, a viver e ser feliz. Uma grande decepção ou uma tragédia costumam travar a vida emocional das pessoas. Mas não é somente mortas emocionalmente que as pessoas se encontram elas estão mortas espiritualmente, ou seja, elas não podem ter acesso a Deus. Nós não podemos buscar a única pessoa que poderia resolver nossos mais profundos anseios, pois estamos mortos “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” Ef. 2:1.
Quando o mundo procura viver, mesmo estando mortos, Jesus se apresenta como A VIDA.

Até aqui apresentei o cenário do mundo: A falta de direção, a mentira e morte que os homens estão. Agora, chamo a sua atenção para a solução de Deus. O Todo-Poderoso vendo a situação do homem resolveu mandar Jesus para conduzir o homem para o caminho certo, para a verdade e para experimentar a vida.
Dentro dos EU SOU’s de Jesus encontramos em João 14:1-15 (1-7) O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA.

Postado por Pr. Francimar.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

SÁTIRA AOS NOVOS (DES)VALORES DA CULTURA CRISTÃ

INTRODUÇÃO

O cristianismo resistiu a muitos ataques ao longo de sua história, travou verdadeiras batalhas com poderes políticos, correntes filosóficas e outras religiões e permaneceu inabalável. Debalde, o rei, o filósofo e o sacerdote tentaram aniquilar a doutrina cristã. Depois de tantas lutas sangrentas, cujo número dos adversários seria impossível precisar, o cristianismo está ameaçado por um inimigo terrivelmente poderoso. Esse adversário, semelhante a um animal enfurecido, demonstra que só aplacará a sua fúria quando pisar as cinzas da doutrina cristã. O poder destrutivo desse inimigo sobrepuja o poder do rei, supera em muito a força do filósofo e a violência do sacerdote. Mesmo estes três poderes conjugados não podem fazer frente ao novo inimigo do cristianismo. Como se vê, o novo opositor não é oriundo dos decretos políticos, não procede dos tratados filosóficos e muito menos do fervor mórbido dos cultos pagãos. Qual a origem desse inimigo? Ele procede da igreja, é sustentado pelas pregações, dogmatizado pelos manuais de teologia e seguido pelo pastor e pelo fiel. Parece absurdo mais o terrível inimigo do cristianismo é o próprio cristianismo. Para ser mais preciso, um cristianismo maldosamente disfarçado de ortodoxo. A arma desse inimigo é uma espécie de transvalorização dos valores cristãos. Nesse artigo, esse termo será atribuído à mudança de um (des)valor em valor.

1. O (DES)VALOR DA COVARDIA INTELECTUAL

Por covardia intelectual deve ser entendido o medo de estabelecer o diálogo entre a doutrina cristã e a cultura e conhecimento extra-bíblicos. Toda covardia é fruto da ilusão, fato que se aplica à covardia intelectual. Essa apostasia perniciosa baseia-se na falsa idéia de que qualquer formação intelectual mais elevada é um apelo à negação da fé. Por esta razão, os chamados “cristãos covardes” anatematizam e pregam o ódio mortífero ao conhecimento extra-bíblico, desprezam qualquer conhecimento que não esteja respaldado por sua teologia de vermes.
Estão completamente equivocados aqueles que pensam que a coragem não é uma virtude cristã. É preciso ser extremamente corajoso para aceitar a doutrina do Mestre e não soçobrar diante da grande responsabilidade que isto representa. Só um corajoso é capaz de colocar a sua própria vida como instrumento de autenticação de sua fé. Para se conhecer também é necessário coragem, principalmente quando o novo conhecimento não coincide com aquilo em que acreditamos. O estranho desperta o assombro, assombro que precede a covardia. Por isso, é preciso coragem, tudo que esta faltando a “nova cultura cristã”. Nas páginas do Novo Testamento, os cristãos são identificados por várias metáforas: ovelha, luz, sal, pedra, águia, árvore, só para alistar alguns exemplos. Não obstante, em nenhuma de suas paginas, a Santa Escritura compara os crentes a tartarugas. Essa figura se aplica muito bem a esses “cristãos covardes”, que vivem escondidos em sua carapaça doutrinária.

Assim, o cristianismo está sendo ameaçado pelo próprio cristianismo: o cristianismo covarde. Estes ditos cristãos temem confrontar a sua fé com a cultura ao seu redor, acreditam que um crente jamais poderá ler uma obra de Paulo Coelho sem se deixar seduzir pelo espiritismo; Harry Potter, então, é uma tentação diabólica; um irmão que ousar ler o Anticristo de Nietzsche poderá até ser disciplinado na igreja; aqueles que ousarem estudar filosofia serão motivos de escândalo para muitos. Afinal, de contas, como dizem alguns, a conversão significa um completo desprezo à cultura mundana e a sabedoria humana afasta o homem de Deus. Curiosamente, foi criado um novo Index librorum prohibitorum[1], agora, pelos protestantes.

2. O (DES)VALOR DA DESONESTIDADE INTELECTUAL


Desonestidade intelectual: eis mais um insulto, mais uma blasfêmia à doutrina do Mestre, mais um (des)valor da cultura cristã atual. Trata-se do desprezo a tudo que é cultura extra-bíblica sem nenhum conhecimento a priori. Em certo sentido, a desonestidade é fruto da covardia. Ao se esconderem em suas carapaças, como tartarugas desprezíveis, esses sepulcros caiados só são capazes de julgar àquilo que é exterior a eles movidos pelo preconceito e pela hipocrisia. Para empregar um pouco de ironia, um pregador diz que a obra de Freud é diabólica sem nunca ter lido um único prefácio do pensador vienense, um outro chama Descartes de anticristo sem saber se o autor do Discurso do método nasceu na França ou nas Guianas holandesas. Esses fraudadores intelectuais, semelhantes a víboras destilando a sua teologia peçonhenta, quando encontram alguém que se diz ateu sem nunca ter lido a Bíblia, ainda têm a petulância de argumentar que tal pessoa está errada ao descartar a fé cristã antes mesmo de conhecê-la. Criticam Nietzsche por ter julgado a doutrina cristã sem um conhecimento a fundo da mesma, mas cometem o mesmo preconceito, a mesma improbidade intelectual em relação ao pensamento do existencialista alemão.

Ah! Como faria bem a esses falsificadores do Evangelho uma pequena dose de cristianismo bíblico! Descobririam espantados que Cristo nunca pregou o ódio ao conhecimento, que essa desonestidade vil nunca foi contada entre as virtudes cristãs. Mas eles que, ao mesmo tempo ostentam uma luz superior, que se vangloriam por serem portadores de revelações sublimes, estão embrutecidos, perdidos no escuro sem fim da indiferença, cegos pelo véu asqueroso da hipocrisia. Julgam-se os únicos cristãos do mundo, mas estão tão distantes de Cristo, e isso justifica a sua desonestidade intelectual.

3. O (DES)VALOR DA ALIENAÇÃO INTELECTUAL

O termo alienação comporta muitos sentidos, principalmente quando analisado em termos filosóficos. No presente artigo este vocábulo será empregado para marcar a atitude radical de fechamento em relação à cultura extra-bíblica. A alienação é o estágio final no processo de transvalorização. Tanto o covarde quanto o desonesto sabem que existe cultura e conhecimento exteriores a ele. Isso pode ser comprovado pelo modo como eles enfrentam essa realidade. O primeiro emprega a arma da fuga e o segundo a arma do disfarce. O alienado, no entanto, perdeu a capacidade de perceber esta exterioridade. Em seu fechamento, ele tornou-se um prisioneiro daquele que considera o único conhecimento que existe.

Em muitos cursos de teologia, se for indagado a um seminarista se ele conhece Dostoievsky, esse estudante perguntará qual o ano do uísque em questão, se quiserem saber a sua opinião sobre Tolstoi, é possível que ele pergunte se o prato é doce ou salgado, se perguntarem se ele já leu alguma obra de Bocage, ele chegará ao cúmulo de confundir o poeta português com uma marca de roupa. Para empregar um neologismo, ele conhece uma única linguagem: o “teologuês. Como se não bastasse, ainda se orgulha de sua segregação cultural, considerando essa apostasia prova de espiritualidade e santidade. Olha para si mesmo como um ser privilegiado, dono de uma sabedoria inefável, acha-se capaz de desvendar todos os mistérios, seja do mundo material ou do mundo espiritual. Os que ousarem romper com o seu paradigma e desprezarem essa infame alienação serão considerados apóstatas, porcos que se deleitam com as alfarrobas do mundo.

CONCLUSÃO

Já é hora de alguém deixar de lado o receio e falar a esses farsantes que são eles os verdadeiros apóstatas da fé cristã, que são eles os inimigos da sã doutrina, os anticristos de quem fala o apóstolo[2]. Já é hora de alguém pisar os seus ovos funestos, antes que eles concebam víboras peçonhentas. Já é hora de destruir esse terrível inimigo e impedir a abominável transvalorização dos valores cristãos. É hora de se proclamar em todos os lugares o desprezo a essa paródia indecente do cristianismo. Mas aquele que ousar realizar tal feito deverá está preparado para enfrentar a fúria de uma multidão de cristãos, de cristãos que conhecem tanto de Cristo quanto um louco conhece as faculdades lógicas.

Notas:

1. “Lista de livros proibidos”. Recurso usado pelo tribunal da Inquisição com a finalidade de deter o avanço do protestantismo.

2. I João 2:18.


Postado por J. Marques

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

DISCURSO SOBRE A AMIZADE III: DO PRINCÍPIO DA MODERAÇÃO

Não sejas freqüente na casa do teu próximo, para que não se enfade de ti e te aborreça[1].

Os escritores clássicos denominavam esse princípio temperança e consideravam-no uma das mais importantes virtudes, conforme pode ser atestado pelo testemunho de Platão. Segundo o filósofo grego, “nenhuma cidade, tenha ela as leis que tiver, poderá viver tranqüila, quando os seus cidadãos consideram de bom aviso gastar dessa maneira e não ocupar-se com mais nada a não ser comer e beber à farta, só pensando nos prazeres do amor”[2]. Marco Aurélio, por sua vez, coloca este princípio, juntamente com a justiça, a coragem e a verdade, entre os bens mais preciosos da existência humana[3]. Horácio acrescenta que “não é sábio o sábio, nem justo o justo, se seu amor à virtude é exagerado”[4]. Um provérbio medieval afirma que “aquele que vende a temperança, compra a morte”[5]. Até mesmo Epicuro, considerado o fundador da filosofia hedonista, era taxativo em prevenir os seus compatriotas acerca dos perigos da intemperança. Tentando corrigir falsas interpretações acerca de seu pensamento, assim ele combate à falta de moderação:

Quando dizemos, então, que o prazer é o fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como crêem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma[6].

O termo grego empregado para temperança pode ser traduzido como moderação, sobriedade, juízo equilibrado, prudência, etc. A principal razão que justificava a importância dada pelos escritores antigos à temperança estava no fato de que ela capacitava o homem a experimentar os prazeres de forma equilibrada, ela prevenia a ocorrência de excessos. Como Demócrito costumava exortar seus compatriotas, “desejar algo violentamente cega a alma para o restante”[7]. Aristóteles considerava a temperança um meio termo entre dois vícios: a insensibilidade e a intemperança. Segundo ele, o homem virtuoso não era aquele que desfrutava de todos os prazeres e nem aquele que se abstinha de todos os prazeres, mas aquele que sabia selecionar os prazeres e experimentá-los de forma equilibrada[8]. Em um provérbio anterior ao citado acima, Salomão afirma: “Achaste mel? Come apenas o que te basta, para que não te fartes dele e venhas a vomitá-lo”. Com a figura do mel, o sábio introduz a discussão acerca da moderação. Este alimento tão saboroso, capaz de produzir em nós uma prazerosa sensação gustativa, quando consumido sem moderação, torna-se algo extremamente indesejável, capaz de gerar em nós o mais incontrolável dos repúdios: o vômito.

De fato, não há como negar a importância da moderação até mesmo para que haja um perfeito exercício das outras virtudes. Sem ela, os outros princípios morais perdem a sua essência. Sem a dosagem da temperança, a justiça transforma-se em crueldade, a coragem é convertida em temeridade, o conhecimento cede aos apelos da soberba, a esperança cede espaço à apatia e a própria amizade é levada a vestir a máscara hipócrita da cumplicidade. A Bíblia reconhece claramente a relevância dessa virtude. Para fazer uma citação livre de uma passagem do próprio Salomão, “o homem não deve ser nem demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio”[9]. Obviamente, o sábio não está incentivando a injustiça e muito menos legitimando a ignorância. Ele não está dizendo que não devemos ser justos, muito menos que não devemos ser sábios. O que ele está desaprovando é o exercício desequilibrado dessas virtudes. O sábio está certo que qualquer virtude, quando desacompanhada da moderação, perde a sua característica original. Somente após estas considerações podemos discutir o texto onde Salomão aplica o princípio da moderação à amizade.

A Bíblia recomenda a amizade, mas não a amizade sem moderação. O relacionamento entre amigos é também marcado pela troca de afeto. Contudo, no homem, nada é tão tendencioso à intemperança como o seu componente afetivo. É no terreno escorregadio das emoções que ele é mais facilmente atraído pelo excesso. Para proteger-se contra esse perigo, ele precisa estar protegido pela armadura da moderação. Essa parece ser a preocupação de Salomão ao afirmar que o amigo não deve ser freqüente na casa do seu companheiro. Certamente, o sábio não está sugerindo que os amigos não devem se visitar entre si. O seu cuidado é no sentido de que isso seja feito com moderação a fim de que a amizade não seja desvirtuada. Na segunda parte do provérbio, o sábio deixa claro que uma amizade sem moderação representa um perigo sério para o exercício dessa forma de amor. A falta de moderação pode transformar um relacionamento marcado pela afeição e pela empatia em motivo de aborrecimento e rejeição, violando assim a essência da verdadeira amizade. Dito de outro modo, uma amizade marcada pela intemperança e pelo desequilíbrio não demorará muito tempo para converter-se em inimizade. Não sem razão os antigos gregos afirmavam que “o amigo de hoje do intemperante será o seu inimigo de amanhã”[10]. Com isso pode ser percebido que a falta de moderação afeta um outro princípio fundamental da amizade: a constância.

Além disso, a amizade é “uma relação entre mentes livres”[11], para citar mais uma vez as palavras de C. S. Lewis. Não obstante, quando não há moderação, a liberdade, um dos traços mais distintivos da amizade, é completamente violada. O eros é um tipo de amor que possui a exclusividade em sua essência, fato que não ocorre em relação à amizade. “Razão porque os amantes são representados frente a frente, mas os amigos lado a lado”[12]. Aquele que já tem um amigo fica ainda mais feliz em estabelecer novas amizades. O fato é que se A e B resolverem estabelecer uma amizade, A precisa está ciente de que B poderá ter inúmeros outros amigos e vice-versa. Cada um deve saber que não é o único amigo do outro e ambos precisam de tempo para dedicar aos outros amigos e de tempo para dedicar a si mesmo. Nenhum amigo tem o direito de reivindicar dedicação exclusiva do outro. Se isso acontecer, essa relação pode receber qualquer outro nome, menos amizade. A exclusividade não é própria dessa forma de amor. A partir do momento em que um amigo se torna refém do outro, o seu relacionamento está ameaçado. Esse princípio parece bastante elementar e repetitivo. Contudo, ele sempre é violado pela intemperança que frequentemente afeta o relacionamento entre amigos.

Quando a falta de moderação atinge um relacionamento entre amigos, a tendência é que se desenvolva entre ambos um espírito de possessividade, ciúme e dependência, fato que viola o caráter autônomo da amizade. Nesse ponto, temos que concordar com C. S. Lewis quando defende que nada é tão contrário à amizade como o ciúme.

A essa altura, não seria o caso de indagarmos a respeito daqueles pobres cristãos sinceros que por duas vezes já tiveram que reduzir a sua lista de amigos? Se agora eles avaliassem os amigos que restaram, não se veriam obrigados a fazer uma terceira redução? Mas esses pobres cristãos, em sua sinceridade, querem fazer amigos verdadeiros. Contudo, eles estão ficando cada vez mais angustiados, pois sua lista tem sofrido reduções drásticas. O que eles deverão fazer? Se desejam aumentar a lista de amigos, eles precisarão libertar alguns reféns, e, quanto menos reféns eles tiverem, maior será a sua lista de amigos. A libertação é necessária, ainda que a cela fique completamente vazia e todos os reféns ganhem a sua liberdade para depois se tornarem verdadeiros amigos. Por fim, cabe acrescentar que a cela deverá ser queimada com fogo inextinguível, a fim de que os amigos nunca mais possam se sentir presos.

Notas:

1. Provérbios 25:17.

2. PLATÃO. Fedro, Cartas, O primeiro Alcibíades. In: Diálogos Vol. V. Belém: EDUFPA, 1975. p. 139.

3. MARCO AURÉLIO. Meditações. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 281.

4. HORÁCIO apud MONTAGNE, Michel de. Ensaios. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1972. p. 101.

5. LLULL, Ramon. O livro dos mil provérbios. Disponível em <www.ricardocosta.com/grupos/proverbi.htm> (Acessado em 10 de maio de 2008). Não paginado.

6. EPICURO. Antologia de textos. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 30.

7. DEMÓCRITO. Pré-socráticos I. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 134.

8. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001. passim.

9. Eclesiastes 7:16.

10. Ad. Tempora.

11. LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 82. 100.

12. LEWIS, C. S. op. cit. p. 94.



Postado por J. Marques


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os significados de Amor na Bíblia (Parte 1)

O amor na Bíblia, como no nosso uso diário, pode ser dirigido de pessoa à pessoa ou de uma pessoa a coisas. Quando dirigido em direção a coisas, o amor significa gostar ou tomar o prazer naquelas coisas. O amor em direção a pessoas é mais complexo. Como com coisas, amando pessoas pode significar simplesmente gostar delas e tomar o prazer nas suas personalidades, aparências, realizações, etc. Mas há outro aspecto do amor interpessoal que é muito importante na Bíblia. Há aspecto do amor por pessoas que não são atraentes ou virtuosas ou produtivas. Neste caso, o amor não é um prazer em que uma pessoa é, mas um compromisso profundamente sentido à ajudá-lo a ser o que ela deveria ser. Como veremos, o amor por coisas e ambas as dimensões do amor por pessoas são ricamente ilustrados na Bíblia.

Quando examinamos o Antigo Testamento e o Novo Testamento à sua vez, o nosso foco estará no amor de Deus, depois no amor do homem por Deus, o amor do homem pelo homem e o amor do homem pelas coisas.

O Amor no Antigo Testamento

Jesus disse que o maior mandamento no Antigo Testamento era: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma” (Mt 22:37; Dt 6:5). O segundo mandamento era: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:39; Lv 18:19). Depois Ele disse: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22:40). Isto deve significar que se uma pessoa entendeu e obedeceu estes dois mandamentos, ela compreenderia e cumpriria o que todo o Antigo Testamento estava tentando ensinar. Tudo no Antigo Testamento, quando propriamente entendido, almeja basicamente a transformação de homens e mulheres em pessoas que fervorosamente amam a Deus e ao seu próximo.

O Amor de Deus

Você pode dizer o que uma pessoa ama, por aquilo que ela mais se dedica apaixonadamente. O que uma pessoa valoriza mais é refletido nas suas ações e motivações. É evidente no Antigo Testamento que o que Deus mais valoriza, mais ama, é o Seu próprio nome. Do início da história de Israel ao fim da era do Antigo Testamento, Deus foi movido por este grande amor. Ele diz através de Isaías que Ele criou Israel “para Sua glória” (Is 43:7); “Tu és o meu servo, és Israel, por quem hei de ser glorificado” (Is 49:3).

Deste modo quando Deus livrou Israel da escravidão no Egito e os preservou no deserto, foi porque Ele estava agindo por causa do Seu próprio nome, “O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações” (Ez 20:9, 14, 22; Cf Ex 14:4). E quando Deus expulsou outras nações da Terra Prometida de Canaão, Ele estava “fazendo para si mesmo um nome” (2 Sm 7:23). Então finalmente no fim da era do Antigo Testamento, depois que Israel tinha sido levado para cativeiro na Babilônia, Deus planeja apiedar-se e salvar Seu povo. Ele diz: “Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo... Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem.” (Is 48:9, 11 Cf. Ez 36:22, 23, 32). Por estes textos nós podemos ver o quanto Deus ama Sua própria glória e quão profundamente está comprometido em preservar a honra de Seu nome.

Isto não é algo mau da parte de Deus. Ao contrário, a Sua própria retidão depende na Sua manutenção de uma plena lealdade ao valor infinito de Sua honra. Isto é visto nas frases paralelas de Sl 143:11, “Vivifica-me, SENHOR, por amor do teu nome; por amor da tua justiça, tira da tribulação a minha alma”. Deus cessaria de ser justo se Ele cessasse de amar Sua própria glória sobre a qual Seu povo deposita toda sua esperança.

Uma vez que Deus se compraz tão intensamente em Sua glória – a beleza de Sua perfeição moral – é de se esperar que se compraza nas reflexões desta glória no mundo. Ele ama a retidão e a Justiça (Sl 11:7; 33:5; 37:28; 45:7; 99:4; Is 61:8); “Eis que te comprazes na verdade no íntimo” (Sl 51:6); Ele ama Seu santuário onde é adorado (Ml 2:11) e Sião, “a cidade de Deus” (Sl 87:2, 3).

Todavia, sobre todas as coisas no Antigo Testamento, o amor de Deus por Sua própria glória O envolve num compromisso eterno com o povo de Israel. A razão que isto é desta forma: é que um aspecto essencial da honra de Deus é a sua liberdade soberana na escolha de abençoar o indigno. Tendo escolhido livremente estabelecer uma aliança com Israel, Deus glorifica-Se na manutenção de um compromisso de amor para com este povo. A relação entre o amor de Deus e a Sua eleição do povo de Israel é visto nos seguintes textos:

Quando Moisés quis ver a glória de Deus, Deus respondeu que proclamaria Seu glorioso nome à ele. Um aspecto essencial do nome de Deus, Sua identidade, foi então dada nas palavras: “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Ex 33:18, 19). Em outras palavras, a liberdade soberana de Deus em dispensar misericórdia sobre quem lhe apraz é integral ao Seu ser como Deus. É importante agarrar esta auto-identificação porque ela é a base da aliança estabelecida com Israel no Monte o Sinai. O amor de Deus por Israel não é uma resposta divina respeitosa à uma aliança; pelo contrário, a aliança é uma expressão gratuita e soberana de misericórdia ou amor divino. Lemos em Êxodo 34:6-7, como Deus plenamente se identifica antes de confirma a aliança (Ex 34:10): “E, passando o SENHOR ... clamou: SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado...”

Assim a aliança Mosaica, na qualidade de juramento de Deus com os primeiros patriarcas (Dt 4:37; 10:15), foi arraigado no amor gratuito e gracioso de Deus. É errado, portanto, dizer que a Lei Mosaica é algo mais contrário a graça e a fé do que são as ordens do Novo Testamento. A Lei Mosaica exigiu um estilo de vida compatível com a aliança misericordiosa que Deus tinha estabelecido, mas isto também providenciou perdão de pecados e assim não colocou o homem sob uma maldição por causa de uma única falta. A relação que Deus estabeleceu com a nação de Israel e o amor que Ele tinha por ela foi comparado como aquele entre um marido e esposa. “Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto e cobri a tua nudez; dei-te juramento e entrei em aliança contigo, diz o SENHOR Deus; e passaste a ser minha” (Ez 16:8).

Isto é o porquê a idolatria que a nação de Israel comete mais tarde é chamada de adultério, pois ela foi após outros deuses (Ez 23; 16:15; Os 3:1). Mas apesar das repetidas infidelidades de Israel para com Deus, Ele declara: “Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí” (Jr 31:3; Cf. Os 2:16-20; Is 54:8).

Outras vezes, o amor de Deus pelo Seu povo é comparado a de um pai pelo filho ou de uma mãe por sua criança: “guiá-los-ei aos ribeiros de águas, por caminho reto em que não tropeçarão; porque sou pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito” (Jr 31:9, 20). “Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49:15, 66:13).

No entanto, o amor de Deus pela nação de Israel não exclue severo julgamento sobre a mesma quando esta caiu na incredulidade. A destruição do Reino do Norte pela Assíria em 722 a.C (2 Rs 18:9, 10) e o cativeiro do Reino do Sul na Babilônia nos anos seguintes a 586 a.C (2 Rs 25:8-11) mostram que Deus não toleraria a infidelidade de Seu povo. “Porque o SENHOR repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem” (Pv 3:12). De fato, o Antigo Testamento encerra-se com muitas das promessas de Deus não cumpridas. A pergunta de como o amor imortal de Deus por Israel se expressará no futuro é buscada no Novo Testamento por Paulo. Veja especialmente Romanos 11.

A relação de Deus para com Israel como nação, não significava que Ele não tinha lidado com indivíduos, nem Seu tratamento da nação como um todo O preveniu de fazer distinções entre indivíduos. Paulo ensinou em Romanos 9:6-13 e 11:2-10, que já no Antigo Testamento “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas”. Em outras palavras, as promessas do amor de Deus a Israel não se aplicaram sem distinção a todos os indivíduos israelitas. Isto nos ajudará entender os seguintes textos: “O caminho do perverso é abominação ao SENHOR, mas Este ama o que segue a justiça” (Pv 15:9). “O Senhor ama aqueles que odeiam o mal” (Sl 97:10). “o SENHOR ama os justos” (Sl 146:8). “Não faz caso da força do cavalo, nem se compraz nos músculos do guerreiro. Agrada-se o SENHOR dos que O temem e dos que esperam no Seu constante amor” (Sl 147:10, 11; 113:13).

Nestes textos, o amor de Deus não é direcionado igualmente à todos. Em seu pleno efeito salvífico, o amor de Deus é desfrutado por “aqueles que esperam no Seu constante amor”. Isto não significa que o amor de Deus não seja grátis e imerecido. Pois de um lado, a própria disposição de temer a Deus e obedientemente esperar nEle é um dom de Deus (Dt 29:4; Sl 119:36) e de outro lado, o apelo do santo que espera em Deus não é ao seu próprio mérito, mas à fidelidade de Deus ao fraco que não tem forças e só pode confiar na misericórdia (Sl 143:28, 11). Portanto, no Novo Testamento (Jo 14:21, 23; 16:27), o pleno desfrutar do amor de Deus é condicional sobre uma atitude apropriada para recebê-lo, isto é, uma confiança humilde na misericórdia de Dele: “Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará” (Sl 37:5).

Daqui a algumas semanas postaremos a segunda parte, deste artigo de John Piper, que falará do Amor do homem para com Deus e do Amor do homem para com o homem.

Tradução: Elias Lima
Fonte: http://www.desiringgod.org/

terça-feira, 11 de novembro de 2008

DISCURSO SOBRE A AMIZADE II: DO PRINCÍPIO DA FRANQUEZA

É melhor a repreensão franca do que o amor encoberto. Leais são as feridas feitas pelo que ama, mas os beijos de quem odeia são enganosos”[1].

A franqueza no relacionamento entre amigos foi outro princípio bastante apreciado entre os escritores antigos. Já no século VII a. C., o poeta lírico Focílides de Mileto recomendava que “os amigos deveriam tratar um com outro dos rumores que corriam entre os concidadãos”[2]. Recomendação semelhante pode ser encontrada no fragmento de Teognis seguinte:

Não sejas meu amigo de palavras e tenhas teus pensamentos em outro parte. Ou ama-me com vontade sincera ou rompe comigo e sê meu inimigo abertamente. O que tem uma língua e dois corações é um companheiro perigoso, cuja inimizade é preferível à sua amizade[3].

Cícero acrescenta que “a única ocasião em que não devemos deixar de ofender um amigo, é quando se trata de lhe dizer a verdade e de lhe provar assim a nossa fidelidade”[4]. Como pode ser observado, os escritores antigos não concebiam a verdadeira amizade como dissociada da franqueza. De fato, esse princípio é conseqüência de uma outra idéia bastante comum entre eles: a idéia de que a amizade era uma relação baseada na virtude[5].

Mas em que consiste a franqueza? Esse princípio pode ser definido como a expressão da verdade que deve marcar o relacionamento entre amigos. O provérbio de Salomão citado acima apresenta um princípio geral sobre ética social, mas que pode ser aplicado ao relacionamento entre amigos. Salomão emprega uma antítese bastante sugestiva para falar do princípio da franqueza. No entender do sábio, a ferida sincera é preferível ao beijo hipócrita, e a repreensão franca é mais valiosa do que o falso elogio. A figura de linguagem empregada pelo sábio pode ser explorada um pouco mais. A razão do princípio da franqueza ser comparado a uma ferida é muito simples. Às vezes, a verdade produz uma dor momentânea. Isso acontece porque ela contraria a vontade daquele que está no erro e, quem está no exercício de sua vontade, não gosta de vê-la contrariada, ainda que seja pelo mais íntimo dos amigos. Mas essa dor é momentânea, pois o amigo, se pode ser considerado com tal, logo perceberá que a ferida da verdade carrega dentro de si mesma o bálsamo cicatrizante que restaura a amizade à sua harmonia inicial. A hipocrisia e a falsidade, o oposto da franqueza e da verdade, são comparadas a um beijo. O beijo, enquanto contato corporal, produz uma determinada sensação de prazer. Mas esta agradável sensação dura apenas enquanto os objetos sensíveis estão em contato. Quando eles se separam, ela logo desaparece. Assim, é o prazer gerado pela falsidade. A sua duração é bastante curta e seu fim é sempre o oposto do pretendido: o desprazer. Para resumir a figura em poucas palavras, a franqueza produz um desprazer momentâneo seguido de um prazer durável, enquanto que a falsidade gera um prazer momentâneo acompanhado por um desprazer durável.

Um estudo mais detalhado sobre a franqueza irá revelar que ela acomoda vários outros princípios. Nesse tópico serão analisados aqueles três considerados mais essenciais. Em primeiro lugar, a franqueza envolve uma intenção sincera no estabelecimento da amizade. Aquele que pretende fazer amigos deve fazê-lo porque tem o desejo sincero de vivenciar a amizade em toda a sua dimensão. Ele deve ter a capacidade de ver o relacionamento amistoso não apenas como um meio, mas como um fim. É verdade que a amizade, em virtude de sua própria natureza, é um tipo de relacionamento que acarreta vantagens para os seus participantes, mas isto não significa que devemos procurar fazer amigos simplesmente pensando em obter vantagens pessoais. Infelizmente, sabendo que a amizade é um relacionamento de identificação, muitos são aqueles que procuram desenvolver essa forma de amor com motivos interesseiros. Querem ser amigos de determinadas pessoas, simplesmente porque isso lhes trará determinadas vantagens, seja um objeto valioso, fama, posição social, etc. Esse problema foi constatado pelo próprio Salomão. Nas suas palavras, “ao generoso, muitos o adulam, e todos são amigos do que dá presentes”[6]. Nessa passagem o sábio denuncia os motivos interesseiros que movem certas amizades. Além disso, o texto deixa implícito que a amizade que começa dessa forma, em bem pouco tempo, será transformada em adulação. No sentido mais rigoroso do termo, alguém que procura estabelecer uma amizade visando unicamente angariar vantagens pessoais, nem pode ser classificado como amigo, mas como um adulador, uma espécie de sanguessuga que não pensa em outra coisa a não ser em satisfazer a sua natureza de parasita. Um ser semelhante à raposa que aparece das fábulas de Esopo, que tem todos por amigos, somente até conquistar os seus desejos mais egoístas. Mas o seu final é sempre bastante melancólico. Ela sempre termina sem nenhum amigo, entregue a solidão gerada por seu egoísmo. No fundo este é sempre o destino dos interesseiros. Sempre que os seus reais intentos são descobertos, não restará ninguém que queira ser seu amigo. Para repetir um adágio empregado pelos antigos gregos, “até mesmo o homem que vive na mais completa solidão, desfruta mais da amizade do que aquele que vive cercado de amigos, com a única finalidade de explorá-los”[7]. A razão do interesseiro sempre terminar dessa forma é lógica, embora seja trágica. Ele não conquista amigos porque, não está em busca de amizades. De fato, ele está em busca de determinados benefícios e encontra na amizade apenas um meio mais seguro para conquistá-los. Quando ele atinge o seu fim, já não precisa mais do meio, descarta-o como algo irrelevante. Ele está sem amigos porque, no fundo, não queria amigos. Por fim, é verdade que toda amizade traz vantagens para aqueles que dela participam. O interesseiro, não obstante, deixa de considerar que essas vantagens devem ser comuns a ambos os participantes. Do contrário, a amizade tem a sua verdadeira natureza suprimida. Essa questão será melhor discutida no princípio de reciprocidade.

Em segundo lugar, a franqueza implica na confrontação do amigo com a verdade quando a situação assim o requer. Isso significa que o amigo não está autorizado a mentir em nome da amizade. Mas o que dizer daqueles amigos que não suportam a verdade? O amigo que não é capaz de assimilar uma verdade, embora ela seja a princípio dolorosa, é porque a sua própria amizade é uma mentira. É somente quem vive na mentira que sente prazer nela e fica incomodado com a verdade. Em geral, a verdade não separa amizades verdadeiras. Tudo que ela faz é denunciar as falsas. “O que encobre a transgressão, adquire amor, mas o que traz o assunto a baila separa os maiores amigos”[8]. Com esse texto o sábio não está defendendo uma atitude de conivência em relação ao erro. Na verdade, ele está perfeitamente de acordo com o seu tom crítico, às vezes satírico, em relação às falsas amizades. Além disso, em um outro provérbio, o sábio aconselha: “Pleiteia a tua causa diretamente com o teu próximo, e não descubra o segredo de outrem”[9]. No fundo, o que ele deseja é demonstrar que, alguns considerados amigos, logo abandonam seu companheiro quando são confrontados com a verdade. Quando ele afirma que quem encobre a transgressão adquire amor, é impossível não perceber a sua veia irônica. O que ele dispensa é um falso amor, movido unicamente pela conveniência. Um relacionamento dessa natureza, não pode ser classificado como amizade. O amigo está aberto à verdade, ainda que essa verdade contrarie a sua vontade. A nosso ver, ou estamos falando de conceitos bem distintos, ou C. S. Lewis está completamente equivocado ao afirmar que a amizade pode ser considerada uma escola do vício. Parece absurdo que o mais primordial dos amores contenha, em sua essência, uma inclinação para o vício. A não ser que o pensador irlandês esteja falando das falsas amizades. Mas estas são tão desvirtuadas, tão corrompidas, que nem merecem ser classificadas como tal.

Por fim, o princípio da franqueza implica em uma atitude de fidelidade entre os amigos. Toda amizade verdadeira é um pacto, uma aliança entre duas ou mais pessoas. Essa aliança exige a dedicação sincera dos amigos entre si. Essa fidelidade, entretanto não significa que uma das partes tenha que compactuar com os erros do seu companheiro. Para citar as palavras de Cícero, “a primeira lei da amizade é não pedir nem conceder nada de vergonhoso”[10]. Assim, constitui-se em um erro crasso empregar a fidelidade para justificar os atos mais baixos entre os amigos. A fidelidade é uma das principais virtudes cristãs. Contudo, em nenhum código de ética, a virtude tem comunhão com o vício. É verdade que alguns, ditos amigos, empregam o princípio da fidelidade para justificar o erro. Não obstante, essa tendência perniciosa é fruto da confusão entre fidelidade e cumplicidade. O exemplo abaixo, embora seja hipotético, ilustra bem essa confusão.

Uma jovem A tem uma amiga B cuja fidelidade ela considera acima de qualquer suspeita. A amiga A confia todos os seus segredos à amiga B, tendo-a como sua confidente. Em um belo dia a amiga A descobre que está grávida de seu namorado. Desesperada e temendo a reação dos familiares, ela resolve seguir o conselho do namorado e abortar o bebê. Antes de abortar, como sempre, ela conta todo o caso à amiga B e pede que ela mantenha sigilo absoluto acerca do assunto. A amiga A confia inteiramente na fidelidade da amiga B e sabe que ela jamais revelará o segredo. Surge, então, o questionamento: diante de uma situação como esta, o que significa ser fiel? Para a amiga A ser fiel significa guardar o segredo a qualquer custo, pensamento compartilhado pela amiga B. Contudo, ambas estão igualmente equivocadas. Entre as supostas amigas não há fidelidade, mas apenas a falsificação mais barata e grotesca desse princípio: a cumplicidade. A fidelidade é um princípio cristão. Trata-se da dedicação incondicional, mas consciente a uma determinada pessoa. A cumplicidade, por sua vez transmite a idéia da participação em uma situação moralmente injustificável por conta do apego a outrem. Do ponto de vista jurídico, o cúmplice que é alguém que, mesmo não participando diretamente, torna-se culpado de determinado crime. Espiritualmente falando, trata-se da participação em pecados de outras pessoas. É o que pode ser percebido na exortação de Paulo a Timóteo: “Não te tornas cúmplice de pecados de outrem”[11].

Embora a confusão entre fidelidade e cumplicidade seja freqüente em relação à amizade, quando os termos são analisados a fundo, percebe-se a grande oposição entre ambos. A fidelidade é baseada na verdade, a cumplicidade, na mentira, o primeiro é guiado por um sentimento altruísta, o segundo, por um egoísmo cego, um visa o maior bem, o outro uma mera conveniência. Ser fiel a alguém não significa encobrir os seus erros. Não há ninguém mais fiel do que Deus, mas também não há ninguém que mais denuncie o pecado dos homens. Nunca deve ser esquecido que as virtudes cristãs caminham de mãos dadas. No caso da fidelidade, a verdade e a justiça são suas companheiras inseparáveis. Engana-se completamente aquele que acha que assumindo uma postura de cumplicidade está fazendo o bem ao seu amigo. A cumplicidade não torna as pessoas melhores. No fundo ela corrompe ainda mais a sua conduta, já que anula a sua sensibilidade ao erro. Para usar as palavras de Salomão, “o homem que lisonjeia o seu próximo, arma-lhe uma rede aos passos”[12]. Além disso, como pode ser observado no exemplo anterior, ela acaba punindo pessoas inocentes. Já aprendemos com o sábio que a fidelidade pode ser comprovada pela ferida. Não é a ausência de dor que autentica a fidelidade, mas a presença constante da verdade.

A franqueza evita o mexerico, pratica tão nociva à natureza da amizade. Nesse sentido, Pascal está correto ao afirmar em seus Pensamentos que “se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não haveria quatro amigos no mundo”[13]. Como pode ser observado, a prática do mexerico, ao violar o princípio da franqueza, destrói o mais primordial dos amores. Disso se conclui que o princípio da franqueza e o princípio da constância estão relacionados.

Para concluir, é extremamente problemático conceber a amizade verdadeira do dissociada da franqueza. Sem esse princípio, duas pessoas podem ser cúmplices, compassas, parceiros, aliados, menos amigos verdadeiros. É até concebível que os falsos amigos possam simular a franqueza, mas é impossível que os verdadeiros não procurem partilhar desse princípio divino. E aqueles cristãos sinceros que, no princípio, tiveram que reduzir sua lista de amigos pela metade? Seria o caso de enfrentarem uma redução ainda mais drástica com este segundo princípio? Se essa redução significar a eliminação dos aduladores e dos cúmplices, que isso lhes seja motivo de regozijo e não de frustração.


Notas:

1. Provérbios 25:5,6.

2. FOCÍLIDES DE MILETO. In: Líricos griegos: elegíacos y yambógrafos. Vol. I. Barcelona: Ediciones Alma Máster S. A., 1956. p. 137.

3. TEOGNIS. In: Líricos griegos: elegíacos y yambógrafos. Vol. II. Barcelona: Ediciones Alma Máster S. A., 1956. p. 174.

4. CÍCERO. Diálogo sobre a amizade. (Versão para ebook). Disponível em <http://www.ebooksbrasil.com/> (Acessado em 15 de novembro de 2007).

5. C. S. Lewis discorda desse ponto de vista. Segundo o pensador cristão, a amizade possui um caráter ambíguo. Ela é tanto uma escola da virtude, como uma escola do vício.

6. Provérbios 19:6.

7. Ad tempora.

8. Provérbios 17:9.

9. Provérbios 25:9.

10. CÍCERO. op. cit. p. 27.

11. I Timóteo 5:22.

12. Provérbios 29:5.

13. PASCAL, Blaise. Pensamentos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.


Postado por J. Marques